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sábado, 16 de maio de 2020

INTELECTUAIS NA CONGREGAÇÃO DA ESCOLA NORMAL (1880-1898)


                                                                                 Heloisa Helena Meirelles dos Santos[1]

UERJ

Congregação da Escola Normal do Distrito Federal; Intelectuais Embates republicanos

O estudo dos intelectuais


Amplos, variados e diversificados têm sido os estudos cuja temática são os intelectuais. De Gramsci(1977) a Bobbio (1997), de Albuquerque Júnior (2004) a Carvalho(2006),  tais estudos  refletem sobre o papel do intelectual, nomeando-o, ou não, numa classificação autoral.Esta reflexão, no entanto, não pretende tratar do papel dos intelectuais, nem entrar na tormentosa discussão de como identificá-los a partir de algumas características, mas pensar sobre a inclusão nesta categoria  de um grupo de professores que, no século XIX marco dos intelectuais, atuavam  na Congregação da Escola Normal como formadores dos professores primários, na cidade do Rio de Janeiro. Para isso tomarei da historiografia as seguintes condições de classificação: erudição, uso da escrita como instrumento para defesa de convicções políticas e forma de intervenção social, defesa da autonomia para o desenvolvimento de trabalho intelectual, uso da retórica ou da lógica para apresentação e defesa de idéias, uso sistemático da reflexão como instrumento de trabalho e criação de um corpus[2] diferenciado. Assim, ao refletir sobre o movimento destes professores através do estudo de duas atas da Congregação da Escola Normal[3] de regimes e épocas diferenciadas, pretendo poder identificá-lo como corpus, através das ações e estratégias de posicionamento político refletidas em seus embates com o poder público, como  intelectuais.
Os membros da Congregação eram professores da Escola Normal[4] que, sob a presidência do Diretor da Escola Normal, deliberavam sobre o ensino primário (pareceres, visitas de acompanhamento, análise de livros a serem adotados e regulamentos escolares) e sobre a instituição formadora, quer no campo administrativo (início do período letivo, quantidade de vagas oferecidas nos exames, autorizações ao Diretor), quanto no pedagógico (elaboração de regulamentos, transferência de cursos de um turno para outro, [5] conteúdos a serem ministrados, pareceres para a Instrução Pública, carga horária das disciplinas, docentes a serem admitidos, bancas de exames, etc.). A Congregação era, em suma, como um conselho cuja atribuição era deliberar sobre as atividades da Escola Normal e acompanhar e sugerir sobre o que estava afeto ao ensino público primário.
Antes da República nem todos os que lecionavam naquele estabelecimento podiam ser partícipes da Congregação. Não participavam, no Império, os mestres que lecionavam as Cadeiras de Desenho, Caligrafia, Música, Ginástica, Trabalhos de Agulha [6] e Trabalhos Manuais, do Curso de Artes, talvez porque, não compartilhassem o espírito que era comum aos formados em dada disciplina, ou em determinada escola, o que dificultaria a relação de cumplicidade no trato das questões, assim como a comunicação imediata entre eles (Bourdieu, 2007), porque os mestres [7], como eram designados, eram apenas pessoas qualificadas para um trabalho, muitas vezes manual[8], de fora do ambiente escolar[9], não sendo considerados eruditos ou professores.

Intelectuais da Congregação da Escola Normal

Os congregados eram intelectuais, formados em sua grande parte pelas poucas faculdades existentes no Brasil, como Manoel Bonfim (Faculdade de Medicina da Bahia), Alfredo Gomes (Faculdade de Medicina do Município da Corte), Joaquim Abílio Borges (Faculdade de Direito de São Paulo), Francisco Carlos da Silva Cabrita e João Pedro de Aquino (Escola Central, depois Escola Politécnica); ou com passagem anterior, no curso secundário, pelo Imperial Colégio de Pedro II onde foram laureados como Bacharel em Letras, é o caso, dentre outros, de Tomás Delfino dos Santos e José Veríssimo Dias de Mattos; ou pela Escola Militar, como Benjamin Constant e Álvaro Joaquim de Oliveira. Carvalho (2003, p.78) enfatiza que a educação era marca distintiva da elite política no Império, por isso não constitui surpresa o fato de que muitos professores da Escola Normal como, por exemplo, Carlos Maximiano Pimenta de Laet (deputado pela província da Parahyba e pela província de Goiás) ou Antonio Ferreira Vianna, filho (representante da Corte e do Rio de Janeiro na Câmara Temporária 1869 e 1877), exercessem cargos políticos, mesmo durante a república, caso de Benjamin Constant (membro do Governo provisório e Ministro da Instrução Pública, Correios e Telégrafos).
A publicização do conhecimento do erudito como busca da justiça, da moral e do direito (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2004, p. 57), no sentido de melhorar o mundo, é uma faceta característica do intelectual. Foi desta forma que agiu Émile Zola ao defender Dreyfus publicando O J´accuse [10]. A imprensa e a literatura se confundiram no final do século XIX de tal modo que as opiniões, assim como as prosas e os poemas, se multiplicavam em periódicos de curta duração.(SODRÉ, 2004, p.288) A todos, especialmente aos letrados e cultos, era dado a possibilidade de opinar.Como os letrados e cultos eram poucos e escreviam para seus iguais, a imprensa serviu, também para divulgar quem escrevia e, desta maneira, legitimá-los como homens cultos. Desta forma também se legitimavam as opiniões e os conhecimentos adquiridos pela profissão, muitas vezes, no entanto, mais por folhetos do que livros, como pensava José Veríssimo, um dos professores da Congregação (ibidem, p.290).
Todos os congregados escreviam, publicando artigos e comentários em jornais. É o caso, dentre muitos, de Carlos de Laet (Jornal do Commercio), Antonio Herculano de Souza Bandeira Filho (Revista Brazileira), Antonio Valentim da Costa Magalhães (revista periódica Entre Actos), Carlos Jansen (O Cruzeiro), Tomás Delfino dos Santos (revista Universal), Joaquim Borges Carneiro (Revista Brazileira, Reporter, Semana). Ou, ainda, divulgando novos conhecimentos através de obras específicas de sua formação, ou de seu trabalho no magistério, onde destacamos Domingos Jacy Monteiro (Arsenico e seus compostos:effeitos phsycologicos e therapheuticos), Evaristo Nunes Pires (Progressos do Brazil no século XVIII, até a chegada da família imperial), João Carlos de Oliva Maia (O regimen de internato nos estabelecimentos de instrução secundaria e nas escolas normaes) e Guilherme Henrique Theodoro Schiefler (Gramática da Língua Alemã ou Novo Methodo completo para si aprender e traduzir).

O silêncio como estratégia

A intervenção política do intelectual no oitocentos brasileiro se dá mais pela representação do que propriamente pelo direto envolvimento (CARVALHO,2005, p.83) porque a liberdade está, também, associada às escolhas que faz, inclusive do verbalismo sem ação direta. Assim, a intervenção se dá não só pela comunicação, e do uso da imprensa pelo intelectual, mas, também e principalmente, pelo uso do sistema simbólico da ordem vigente para a transformação da estrutura social. Porque, o final do século XIX Brasil foi palco de inúmeros embates por conta das várias ideologias, ao mesmo tempo em que se modernizava através do que as ciências traziam, com novos valores e novos processos identitários sobre os quais se precisava refletir e posicionar.A Congregação republicana de 1890, era composta por todos os professores que se dedicavam ao magistério na Escola Normal da Capital Federal, sem distinções do curso em que atuavam.  Foi, também, um grupo constituído por homens e mulheres intelectuais, que se distinguia pela heterogeneidade de procedência, seja pela região brasileira, ou estrangeira, de onde provinham, seja pela formação que os habilitava. A homogeneidade de seu saber, cultivado por inúmeras leituras e viagens, dava voz, valores, corpo e atos à educação que ministravam (CIAVATTA, 2003) no curso de formação de professores primários revelando seus pensamentos, sonhos, aspirações e interesses para a instrução nas escolas públicos.
Investigar Luiz Carlos da Silva Nazareth [11] requereu estudar o período de que fez parte da Escola Normal do Distrito Federal, 1897 e 1898, buscando pistas que pudessem explicar o fato de um Inspetor-escolar dirigir vitaliciamente o educandári formador que contava com um prestigiado corpo docente composto da alta intelectualidade brasileira do período. O Livro de Ofícios da gestão de Luiz Nazareth[12] deixou para a posteridade, pistas e indícios que apresentam sua administração na Escola Normal como um período de mudanças significativas de paradigmas, seja por estar ali Nazareth como partícipe de um regime que se instalava, seja por sua atuação frente ao corpo de professores – a Congregação – que ainda detinha poderes advindos do regime imperial, seja por não fazer parte do grupo que ali existia.
 Luiz Carlos da Silva Nazareth tomou posse do cargo de Diretor vitalício da Escola Normal em 26 de abril de 1897, convidado por seu amigo, também médico, como ele, Dr. Francisco Furquim Werneck de Almeida, Prefeito do Distrito Federal. No mesmo dia, algumas horas depois, assumiu a Escola Normal, como declarou no documento que o empossa. Chegar à Escola Normal, neste momento, deve ter sido difícil para este homem circunspeto, como o considerava Bathazar da Silveira (1954). Mas assumir a direção da Escola Normal significava, para Luiz Nazareth, servir à República.
No dia em que chegou à Escola Normal, como Diretor vitalício, Luiz Carlos da Silva Nazareth emitiu seu primeiro ofício dos muitos, aqui tomados como símbolos do cargo ocupado e de sua “aproximação” à alta cúpula hierárquica.. O destinatário era o Dr. Alfredo Gomes, até aquele momento professor e conceituado Diretor da escola. Não houvera tempo, visto que a posse de Nazareth fora horas antes, de comunicação entre a Prefeitura e a Escola Normal. O Dr. Alfredo foi provavelmente, tomado de surpresa pelo texto seco e imperativo do novo Diretor: Comunico-vos que assumi hoje a diretoria desta Escola, cargo em que conto com a vossa coadjuvação. O Dr. Alfredo era como Nazareth, um simpatizante do novo regime, no entanto, não esperava ser tomado pelo susto que recebeu. A ele juntaram-se seus colegas da Congregação de professores, que naquele momento, não se manifestaram, como talvez desejassem. Explica-nos Pollak (1989) que

[...] uma situação ambígua e passível de gerar mal-entendidos pode, ela também, levar ao silêncio antes de produzir o ressentimento que está na origem das reivindicações e contestações inesperadas [...](p.202)


Assim, naquele momento, e durante toda a curta gestão de Nazareth à frente da Escola Normal, a Congregação de professores se manteve silenciosa.
Em maio, depois de vários ofícios ao dia, encaminha Nazareth o ofício de um Professor de História, que se mostra contrário ao Decreto que reduzira os tempos de aula da disciplina. Esta questão, até então, era resolvida pela Congregação de professores, Nazareth, no entanto, presidente da Congregação, não convocou o grupo durante toda a sua gestão, como acontecera desde a criação da Escola Normal, em 1880. Encaminhou o ofício a quem criara o Decreto, o Diretor Geral da Instrução Municipal. Não opinou sobre o tema. Omitiu-se. A Congregação e Nazareth usaram da mesma estratégia: o silêncio.
O ofício enviado pelo diretor Nazareth encaminhando o professor de Trabalhos Manuais, revela um certo ressentimento e uma total impaciência, colocando-se até numa posição de superioridade. Chama o professor de incompetente, afirma que ele mal sabia assinar e insinua que roubara ferramentas da Escola Normal. É óbvio que o professor se defendeu das inúmeras acusações apresentando suas credenciais, inclusive a de ter sido contratado pelo professor Benjamin Constant. Nazareth não ficou satisfeito. Enviou outro ofício, tão desrespeitoso quanto o primeiro, comunicando ao seu superior que dera prazo de 48 horas para que as ferramentas que estavam na casa do professor aparecessem e, encaminhando, porque acreditava que esta atitude fazia parte de seus deveres, novo ofício contra o Professor, que não conseguiu escapar de ser substituído. Estaria perdendo a paciência com os professores ou o professor de Trabalhos Manuais era um insignificante mestre, sem expressão, que Nazareth precisava conspurcar para mostrar que de nada valia a Cadeira e quem a ministrava? A Congregação talvez não tenha ficado satisfeita pelo encaminhamento do problema, ainda que este professor dela não fizesse partemas, como Foucault (1996,) explica, quando uma nova formação aparece com novas regras nunca é de um só golpe, numa frase ou numa criação, mas em fragmentos. Era melhor silenciar.
Era difícil para Nazareth, muito difícil, encarar todos os dias os mesmos problemas, seja com os alunos[13], seja com os professores. Ninguém na Escola Normal parecia entender seus propósitos. Nazareth pediu sua exoneração do cargo de Diretor desta Escola[14], em 16 de novembro de 1897. Não lhe mandaram substituto. Pediram-lhe que refletisse e se mantivesse no cargo. Ele atendeu. Provavelmente acreditando que deveria continuar servindo à nação. Seu dever para com o cargo, que não mais desejava manter, o fez aguardar até 4 de fevereiro de 1898. Neste dia enviou seus derradeiros ofícios como Diretor da Escola Normal: um para o Diretor de Instrução Municipal, outro ao Prefeito do Distrito Federal. Em ambos se mostra desgostoso com o rumo que o regime recém-implantado estava tomando. De fato é até provável que tenha se sentido traído. Renuncia ao cargo vitalício.
Sabia ele, mas não levou em conta, que o ex-diretor Escola Normal, Alfredo Gomes, que havia retirado da presidência da Congregação, fazia parte do Conselho Superior de Instrução Pública, como outros ex-congregados. Nazareth mostra-se tão surpreso quanto ficara Alfredo Gomes com sua chegada à Escola Normal ao adentrar à reunião do Conselho. Fora exonerado. Fica claro, para ele, que todos os problemas[15] com que se deparara no Conselho Superior de Instrução viera da Escola Normal. Foi Alfredo Gomes quem falou o discurso da Congregação aviltada na gestão de Nazareth. A Congregação silenciosa, mas não silenciada.
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O uso da retórica como convencimento: embate por um projeto

Quando a Escola Normal se encontrava vinculada à Prefeitura do Distrito Federal foi apresentada à Congregação uma reforma do ensino primário proposta do Prefeito Francisco Furkim Werneck de Almeida [16], antes da chegada de Nazareth. Foi levada à discussão em sessão de 29 de março de 1897, pelo Diretor da Escola Normal, naquele momento atuando, naquele episódio, como representante do poder público republicano e não como presidente da Congregação.
As atas das sessões no acervo do CEMI[17] que trataram do tema permitem perceber o uso da retórica como instrumento persuasivo, como denomina Carvalho (2000, p. 133), seja pelo Diretor Alfredo Gomes, que desejava que a reforma fosse realizada com a anuência da Congregação, seja pelo Professor Guimarães Rebello, que acreditava que a reforma tirava a autonomia da Congregação de opinar sobre o Ensino Normal e sobre o Ensino Primário. O uso da retórica vem da tradição escolástica portuguesa que predominou no Colégio de Artes e na Universidade de Coimbra (ibidem, p.130)  e, em terras brasileiras, nas Faculdades, especialmente a de Direito, no Imperial Colégio de Pedro II e na Escola Militar, onde uma grande parte da Congregação estudara.
O uso da retórica implica: no costume do linguajar erudito que restringe a poucos o deciframento do que está efetivamente sendo dito e no discurso apoiado em autores estrangeiros (naquela época especialmente os gregos e romanos), que impressionam o ouvinte pelo conhecimento deles pelo orador mais do que efetivamente explicam o porquê de sua citação, dando credibilidade ao argumento. Esta foi uma estratégia de uso comum aos intelectuais – e ainda o é – quando desejam impressionar e persuadir. Os discursos são elaborados de acordo com quem os ouve, isto é, com a platéia que escuta o discurso e deve ser convencida. Os argumentos, dos quais se vale o orador, muitas vezes carecem de elementos pragmáticos de reflexão imediata, o que facilita, de certo modo, a persuasão do ouvinte, mas também atendem ao que a platéia gostaria de ouvir.
Na sessão que apresento, o professor Barreto Galvão[18], valendo-se de sua própria legitimidade (ibidem, p. 134) como professor das Cadeiras de Física e Química da Escola Normal, a quem cabia a Cadeira de Astronomia, que pela proposta deveria ser excluída, retrucou os argumentos do Diretor com retórica de lógica cartesiana, como quem era profundo conhecedor das práticas pedagógicas da cultura da formação de professores. Isto porque o positivismo trouxera uma nova imagem da ciência que o intelectual da época reforçava, seja pela racionalidade dos procedimentos, seja pela busca da neutralidade (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2004, p.55) o que tornava mais científicos seus argumentos. Esta condição deu a Barreto Galvão, naquela situação, a possibilidade de, também, usar um discurso próprio para um público que sabia igual a si: os professores sem cargo político no governo.
Também se envolveram neste embate os demais professores, liderados pelo Dr. Eugenio de Guimarães Rebello que, tendo se valido dos juízos de valor como argumentos (ibidem,p.135), passou a usar de discurso além da racionalidade como, por exemplo, argumentar que o Prefeito, caso estivesse realmente desejando executar o projeto de reforma, deveria consultar a Congregação previamente para saber se deveria fazê-lo.
Alfredo Gomes, de modo a encerrar a discussão que ora o atingia, como Diretor, e ao Prefeito, consequentemente, e, de outro lado, para, de certo, arrefecer a autonomia dos congregados da Escola Normal, sugeriu que uma comissão fosse composta por ele, pelos professores Francisco Cabrita [19] e Guimarães Rebello para discutir o assunto e resolvê-lo. Sua proposta não foi inócua, também ela corroborava a retórica que defendera. Os dois primeiros professores foram escolhidos porque um estava na direção, ele próprio, e o outro porque fora Diretor e, ambos, sabiam se colocar como mediadores do poder público e daquela Congregação. Eram homens ligados ao aparelho de Estado que apareciam como agentes decisivos para resolver aquela situação. O último, ora, era quem mais reclamava e estava conseguindo cada vez maior número adeptos dentre os demais congregados. Assim, o Diretor usou a retórica, e a inteligência, para explorá-las como instrumentos de poder político, ao instituir a comissão de estudos.O Dr. Guimarães Rebello, envaidecido por ter sido citado para compor a comissão, resvalou em suas convicções, já persuadido pelo Diretor e passou, num discurso propositivo, próprio dos intelectuais espertos (BOBBIO,1997, p.73) a  achar que as bases formuladas pelo Dr. Alfredo Gomes têm lacunas mas que, por interpretar o pensamento do legislador, devem servir de elementos a quem quer que queira estudar o assunto. Na sessão seguinte da Congregação o trabalho foi apresentado, foram discutidos inúmeros pontos e foi lavrada uma ata que, no final, veio a ser "desconsiderada". É lavrada então outra ata, concisa, sem comentários que relata que. o trabalho da comissão foi aprovado para ser encaminhado à Direção da Instrução Pública. O século XIX foi um período de passagem da erudição para a intelectualidade pela transposição do movimento iluminista em cientificista (ALBUQUERQUE JÚNIOR,2004, p.54). A erudição, própria de quem exercia o magistério no século XIX, incluía o conhecimento da retórica que a instituição que os formara, quase que majoritariamente, tinha como boa doutrina, seja a Universidade de Coimbra, sejam as Escolas de Direito, seja o Imperial Colégio de Pedro II ou a Escola Militar. Por outro lado era sabido, e seguido, que pelas Preleções Philosoficas, de Silvestre Pinheiro Ferreira, citado por Carvalho (2006,p.133), que a retórica não deveria separar-se da lógica e da gramática, a teoria do raciocínio não deveria separar-se da teoria da linguagem.
           
Conclusão

As duas situações são emblemáticas, a par do contexto em que ocorreram, pelo uso pelos professores da Escola Normal das inúmeras características descritas pela historiografia como inerentes ao intelectual: defesa da autonomia para o desenvolvimento de trabalho intelectual; uso da retórica, ou da lógica, para apresentação e defesa de ideias; uso sistemático da reflexão como instrumento de trabalho e a criação de um corpus diferenciado.
A Congregação não esteve imune ao conhecimento da boa doutrina, nem alheia ao cientificismo que a Revolução Industrial espalhara pelo mundo um século antes. Como homens cultos,  era natural que lessem, como natural que escrevessem a partir de suas próprias reflexões. Os intelectuais da Congregação, pertencendo a grupo diferenciado que usa atitudes de autocomiseração, autoflagelação, auto-exaltação, autodestruição tinha, por conta desta autonomia, papel político. E a Congregação demonstrou defender a autonomia, o que a mantinha legitimada, nos dois casos, defendendo-a perante o poder público, que fez que igualmente vencesse as pretensões dos congregados, mas os derrotou politicamente.          
O fato de a Congregação publicizar, além das paredes da Escola Normal, através dos jornais onde também trabalhavam os professores como articulistas, emitindo seus comentários, suas defesas e seus ataques sobre decisões tomadas nas sessões congregacionais tipifica o intelectual que tem em si mesmo, e nos seus iguais, seus ouvintes. 
O século XIX foi, na imprensa brasileira, um período bastante tumultuado, pois além das discussões literárias, que não eram poucas, haviam as reformas, as muitas reformas (leis abolicionistas, implantação do regime republicano, projetos de construção de uma nação, etc.) com as quais se defrontavam pela  escrita contundente, os homens cultos.
Por outro lado a intervenção política não se deu apenas no uso da escrita. Quase todos os congregados pertenciam a instituições e entidades associativas que se reuniam e opinavam – publicizando ou não – seu protesto ou adesão a causas, o que constituiu um corpus como a própria Congregação o era. Assim, atendendo às características descritas na historiografia no estudo dos intelectuais, posso afirmar que, no final do século XIX, no Império e na República, havia intelectuais no magistério de formação de professores, no Rio de Janeiro, na Congregação da Escola Normal.

Referências Bibliográficas e Documentais

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Da história detalhe à história problema: o erudito e o intelectual na elaboração do saber histórico. Locus: Revista de História. Juiz de Fora, v. 10 n. 2. jul.-dez. 2004.

BLAKE, Augusto Victorino Sacramento. Diccionario Bibliographico Brazileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional,1895.

BOBBIO, Norberto. Os Intelectuais e o Poder. (trad. Marco Aurélio Nogueira). São Paulo: Universidade Estadual de São Paulo –UNESP, 1997.

BOURDIEU. Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas.(introd., org. e seleção Sergio Miceli). São Paulo: Perspectiva,2007

CARVALHO, José Murilo de. História intelectual no Brasil: a retórica como chave de leitura. Topoi. n.1,PP.123-152  Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2006
_____________. Pontos e bordados:escritos de história e política. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005
_____________. A Construção da ordem: teatro de sombras. Rio de Janeiro:Ed. Civilização Brasileira, 2007

MICELI, Sérgio. Intelectuais à brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001

 NEEDELL, Jeffrey D. Belle Époque Tropical: sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século. (trad. Celso Nogueira). São Paulo: Companhia das Letras, 1993

PEIXOTO, Afrânio. Noções de História da Educação. .3ª ed. Coleção Atualidades Pedagógicas. Biblioteca Pedagógica Brasileira, vol.5. Cia. Ed. Nacional, 1942. 

REIS FILHO, Daniel Aarão (org.). Intelectuais história e política (séculos XIX e XX). Rio de Janeiro: Ed 7 Letras, 2000

SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 4ª ed., 1999

BRAZILIAN GOVERNMENT DOCUMENT DIGITIZATION PROJECT. Relatório do Ministério dos Negócios do Império apresentado em maio de 1888. Instrucção primaria e secundária II Escola Normal (p.25) Disponível em http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/u1374/contents.html Aceso em 4 de junho de 2008.

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Coleção das Leis do Império do Brasil. Decreto 10.060 de 13 de outubro de 1888. Dá novo Regulamento à Escola Normal. Disponível em http://www2.camara.gov.br/internet/legislacao/publicacoes/doimperio/colecao8.html Acesso em  12 de março de 2009.

CEMI. Escola Normal. Actas da Congregação. Rio de Janeiro: Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro 1880-1898

______ Correspondências (1897-1898). Rio de Janeiro: Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro 1897-1898



quarta-feira, 12 de outubro de 2016

INSTITUTO SECUNDÁRIO FEMININO: “SOB A DIREÇÃO PEDAGÓGICA DA INSPECTORA ESCOLAR ESTHER PEDREIRA DE MELLO” (1909 - 1915)[1]



Heloisa Helena Meirelles dos Santos
Doutora em Educação
UERJ


Resumo

Investigar o Instituto Secundário Feminino, criado pela Sociedade de Estudos Pedagógicos dos Professores do Distrito Federal, em 3 de maio de 1909, sob a direção da pedagoga, inspetora escolar, Esther Pedreira de Mello é o objetivo deste artigo. O educandário, anunciado nos jornais como no título, possibilitava, ao sexo feminino a formação nos cursos secundário e profissional, além de preparação para a Escola Normal e para as Faculdades de Odontologia e Farmácia. Funcionava no espaço no Pedagogium, legitimado pela instituição que o abrigava e pela Direção da Instrução Pública do Distrito Federal, e usava, também, o nome da reconhecida inspetora escolar para divulgar-se. Sem visar lucros, o Instituto recolhia doações das alunas que podiam fazê-lo e trazia, nas professoras municipais, que ali ministravam aulas, secretariavam e dirigiam, o esforço voluntário de mulheres voltadas à instrução. Em seu primeiro ano de trabalhos o educandário contou com trezentas moças em seu corpo discente transformando-se em único reduto na capital brasileira para a educação secundária das moças pobres que desejavam instruir-se, além do curso primário público. A investigação usa por fontes privilegiadas os tabloides da cidade do Rio de Janeiro, do início do século XX, como o Correio da Manhã, A Noite, A Rua, O Imparcial, dentre outros, e o periódico pedagógico O Estudo, órgão de imprensa da Sociedade de Estudos Pedagógicos dos Professores do Distrito Federal, documentos do acervo da Biblioteca Nacional brasileira. Dialoga com Chartier (1990) e Bourdieu (1974) na perspectiva do trato das representações sociais que coloca a criação do Instituto Secundário Feminino como estratégia para o enfrentamento das questões de gênero e do conflito de representações, onde a urbanização, o capitalismo e a modernidade civilizatória tiravam a mulher das tarefas apenas domésticas e da reclusão de lar, para atividades e cargos na sociedade que se modernizava o que incluía poder obter maior instrução.  A pesquisa pretende contribuir para minimizar lacuna historiográfica sobre a instituição secundária para o sexo feminino usado como estratégia para popularizar e difundir a instrução de mulheres, nos primórdios do século XX, na cidade do Rio de Janeiro.

Palavras-chave: Instituto Secundário Feminino; Esther Pedreira de Mello; conflito de representação de gênero.

Estrutura e Organização    

O Instituto Secundário Feminino foi inaugurado em 3 de maio de 1909, pela Sociedade de Estudos Pedagógicos dos Professores do Distrito Federal[2], cuja presidência era da inspetora-escolar Esther Pedreira de Mello[3]. A Sociedade fora criada no 2º distrito escolar, que também era dirigido por essa Esther. O Instituto Secundário teve a seguinte estrutura organizacional: Esther Pedreira de Mello, diretora, responsável pelo processo pedagógico desenvolvido; Maria Joanna Palhares e Maria Soares Vieira, como Vice-Diretoras, responsáveis pela parte administrativa do educandário, e Floripes Anglada Luccas e Adelina Duarte Silva, como secretárias (A Noite, 25 de março de 1916, p.2).
O educandário funcionava com aulas diárias, no horário das três e trinta horas às dezoito e trinta horas, à Rua do Rosário nº 72, 1º andar, no Pedagogium[4], em espaço cedido no 1º andar da instituição.
O Instituto Secundário Feminino não objetivava lucros e tinha nas professoras municipais, que ali ministravam aulas, secretariavam e dirigiam o estabelecimento educativo, um esforço voluntário, provavelmente obtido pela inspetora escolar que dirigia o 2º distrito escolar da Prefeitura do Distrito Federal, onde estavam lotadas todas as docentes, Esther Pedreira de Mello.
            Oferecia o educandário o curso normal, ginasial e preparatório: à Escola Normal do Distrito Federal, à Faculdade Nacional de Belas Artes, ao Ginásio, ao Instituto Nacional de Música e Escolas Superiores da República, de acordo com os programas oficiais (ibidem)de cada uma das instituições. O currículo, orientado por Esther Pedreira de Mello, era composto por: estudo de línguas (português, francês, italiano, espanhol, inglês, alemão e latim); curso completo de solfejo, piano e canto, segundo os programas do Instituto Nacional de Música; ensino de desenho, pintura, datilografia, trabalhos manuais para o sexo feminino (corte, costura, bordado, flores, etc.); curso infantil e primário com programas especiais e, sob a direção das professoras Eulália Pires e Maria José Queiroz , conforme os anúncios publicados nos jornais. Oferecia ainda o currículo da instituição, o ensino de Ciências, Línguas e Artes.
Faziam parte do corpo docente da instituição feminina as professoras: Amelia Gaudino, Maria Barbosa da Costa Rocha, Antonietta Barreto, Sizina Queiroz Nascimento, Alcina Moreira de Souza, Emma Lardy, Valentina Marcondes, Dulce Monat da Rocha, Alba Nascimento, Icaride Maria Cardoso, Guiomar Cotegipe da Cruz, Rachel Vianna e Marietta Mourão. Também ali ministravam aulas o Dr. Othello de Souza Reis[5] e o Dr. Heitor Guedes de Mello[6], irmão da diretora da instituição (ibidem). As professoras, assim como o Dr. Guedes de Mello e o Dr. Othelo Reis, pertenciam, todos, aos quadros funcionais da Prefeitura do Distrito Federal, e as professoras eram lotadas no 2º distrito escolar que Esther dirigia, como inspetora escolar.
As vagas, para quem desejasse ali estudar, costumavam ser concorridas sendo anunciadas amplamente em prospectos distribuídos aos passantes nas ruas centrais da cidade do Rio de Janeiro e, também, para atingir a população que estivesse mais afastada das principais vias, nos diferentes jornais diários da cidade do Rio de Janeiro, entre eles O Imparcial, Gazeta de Notícias, A Rua, Correio da Manhã e O Paiz.  Todos os anúncios do educandário eram encimados pela expressão “Sob a Direção Pedagógica de Esther Pedreira de Mello” (Correio da Manhã, 04/05/1910, p.5; A Rua, 19/06/1915, p.4; O Imparcial, 02/05/1915, p.4 e 12/04/1915, p. 5; O Paiz, 13/03/1920, p.7; etc.), o que parecia legitimar a instituição.
Pelo anúncio publicado no tabloide A Noite, o educandário oferecia às moças a oportunidade de qualificarem-se para as novas vagas do mercado de trabalho abertas pela “modernidade” dos tempos para as mulheres que desejavam preenchê-las. que exigiam maior instrução, além do curso primário oferecido nas escolas públicas.

Sendo já muito grande o número de pedidos recebidos, serão consideradas matriculadas somente as candidatas que, até o início das aulas houverem satisfeito todas as formalidades. As candidatas ao 1º ano satisfarão as exigências de preparo a que se refere o Regulamento da Escola Normal e as candidatas ao 2º e 3º anos, quando ainda não approvadas em todas as matérias da Escola Normal, prestarão exames das disciplinas que lhe faltam, condição indispensável para obtenção da matrícula. Rio, 1º de março de 1916. A Secretária Floripes Anglada Luccas. (A Noite, 1º de março de 1916, p.2)



                              Figura 1 Anúncio do Instituto Secundário Feminino                                                                                                                                Fonte: O Imparcial, 14 de abril de 1915, p.5



Também a instituição feminina buscava adequar-se à modernidade, pois em 7 de maio de 1918, o jornal A Noite (p.5), publicou anúncio de aula de Esperanto[7], para as escolas públicas, promovida pelo Instituto Secundário Feminino, com a docência dos Dr. Everardo Backheuser e Nuno Baena, nas dependências do educandário,  cedidos ao Brazila Klubo Esperanto[8] por Esther Pedreira de Mello.
Do discurso proferido por Esther no primeiro aniversário da instituição, pude entender que muitos visitantes, “homens de letras, jornalistas” assistiram aulas no Instituto e externaram sua “calorosa aprovação” (MELLO apud Correio da Manhã, 4 de maio de 1910, p.5), o que percebo como indício da extensa rede de sociabilidade de Esther Pedreira de Mello e de legitimação da intelectualidade ao educandário.
            Esther Pedreira de Mello preocupava-se com a instrução das mulheres: “a mulher pode desempenhar, com a mesma correcção do homem, os deveres de professora secundária.[...]” (MELLO apud Correio da Manhã, 4 de maio de 1910, p.5)[9], e era sabedora, pelo seu cargo de inspetora escolar, das tristes estatísticas da Diretoria de Estatísticas do Distrito Federal no que tangia à educação feminina. Talvez imaginasse (idealista que, suponho, ela era), que devesse colaborar para que a situação fosse ao menos minimizada. O Instituto Secundário Feminino foi considerado por ela “[...] a salvação das moças que, impossibilitadas de frequentar os cursos da escola official, apenas contam com o seu merito para vencer os embaraços que esta triste sociedade [...] acumula, perversa, contra a mulher pobre [...]” (ibidem)[10], porque possibilitava a formação nos cursos secundário e profissional além de preparação para a Escola Normal do Distrito Federal e para as Faculdades de Odontologia e Farmácia (A Noite, 11 de abril de 1915, p.2).
O educandário feminino de Esther era apoiado pela Presidência da República, pelo Pedagogium, que cedia espaço para seu funcionamento, pela Prefeitura e pela Direção da Instrução Pública do Distrito Federal.  Todos estiveram presentes em sua inauguração e nos primeiros aniversários (O Estudo, ano I, 20/02/ 1909, nº7, p.3-7) e, não era educandário oficial porque não pertencia a estrutura da Instrução Pública ainda que, de certa forma, dependesse do Distrito Federal: não pagava a localização, era iniciativa do 2º distrito escolar (que criara informalmente a Sociedade de Estudos Pedagógicos do Professores do Distrito Federal, que era responsável pelo Instituto Secundário) e não cobrava pagamento pelos serviços que prestava, mas doações de quem pudesse, voluntariamente, fazê-lo. As docentes que ali davam aulas, todas do magistério oficial do Distrito Federal, professoras primárias, o faziam voluntariamente, não recebendo salário.

Importância do Instituto Secundário Feminino

            A importância desta escola nos primeiros anos do século remonta da situação educacional das mulheres no período, principalmente aquelas que, não tendo recursos, somente poderiam instruir-se no curso secundário na Escola Normal do Distrito Federal. Nos primeiros anos do século XX, na cidade do Rio de Janeiro, o ensino público secundário[11] era facultado aos homens através do Colégio Pedro II[12] e do Colégio Militar, mas indicado aos mancebos de “boa família”
Através de diferentes formas de controle (culpa, remorso, abandono, castigo, etc.) a educação para as mulheres no início do século XX, quando existia, devia servir à domesticidade da mulher, à educação dos filhos e à administração do lar. O ensino secundário, fora do espaço público da Escola Normal do Distrito Federal, era ministrado às mulheres, desde o século anterior, por preceptores nas residências[13] ou liceus, de responsabilidade religiosa ou não, no mais das vezes, o que inviabilizava à mulher pobre o acesso a este nível de ensino e, por consequência, à educação superior. Somente mulheres da elite podiam trilhar o caminho das Faculdades e pouquíssimas, das Faculdades brasileiras aceitavam mulheres[14]. O curso secundário fragmentou-se, durante o final do Império, acometido pela dualidade[15] entre a instrução ministrada pelo Colégio Pedro II, na sede da Corte e pela iniciativa das províncias ou de particulares. Existiam, por certo, liceus e escolas religiosas, mas os liceus públicos (mantidos pelo poder público) que atendiam a poucas moças eram de permanência instável, e as escolas religiosas eram um impeditivo para todas as moças, porque eram pagas.
A mulher, no início do século XX, até para educadores intelectuais como José Veríssimo, professor da Escola Normal do Distrito Federal, um homem culto, escritor, tinha sua própria missão:

[...] tem de ser mãe, esposa, amiga e companheira do homem, sua aliada na luta de vida, criadora e primeira mestra de seus filhos, confidente e conselheira natural de seu marido, guia de sua prole e reguladora da economia de sua casa, com todos os mais deveres correlativos a cada uma destas funções (VERÍSSIMO, 1985, p.122)


Romper estas barreiras dos valores sociais entranhados nas famílias, ocupar cargos fora do lar, era difícil para a mulher, cara leitora. A instrução, se as moças a tinham, estava restrita ao curso primário, o que era oferecido pelas Escolas Profissionais Femininas, públicas, e eram o bastante para ler um livro, ou revista, copiar, ou ler receitas e escrever, e ler, cartas. Lima Barreto (1956), ao tratar do costume das mulheres do início do século XX, através da personagem Clara dos Anjos, assim descreveu a personagem, uma mocinha, no Rio de Janeiro:

Era tratada pelos pais com muito desvêlo, recato e carinho; e, a não ser com a mãe ou pai, só saía com Dona Margarida, uma viúva muito séria, que morava nas vizinhanças e ensinava a Clara bordados e costuras. No mais, isto era raro e só acontecia aos domingos, Clara deixava, às vezes, a casa paterna, para ir ao cinema do Méier ou Engenho de Dentro, quando a sua professora de costuras se prestava acompanhá-la, porque Joaquim não se prestava, pois não gostava de sair aos domingos, dia escolhido a fim de se entregar ao seu prazer predilecto de jogar o solo com os companheiros habituais; e sua mulher não só não gostava de sair aos domingos, como em outro dia da semana qualquer. Era sedentária e caseira. (BARRETO, 1956, p. 38)[16].


            A tabela a seguir, apresenta o acesso ao ensino secundário e ao ensino superior, de  moças e rapazes, em anos diferentes, antes e após o surgimento do Instituto Secundário Feminino, para que se  ter uma ideia numérica. Esses dados contemplam apenas a cidade do Rio de Janeiro, capital da república brasileira e foram coletados pelo IBGE a partir de dados da Estatística da Instrução do Distrito Federal[17].

TABELA 1
Fonte: IBGE. Estatísticas do Século XX, 2003


Elias (1993) mostra que a constituição dos Estados Nacionais é elemento estruturante do comportamento civilizado, por isso a conduta considerada civilizada “guarda estreita relação com o entrelaçamento e interdependência crescentes de pessoas [...]entre as esferas da vida de homens e mulheres" (p.54-77), cabendo ao Estado que se constitui, a elaboração de normas, ideias e valores e, os padrões proibitivos que moldam o comportamento civilizado. Ora, o padrão proibitivo a ser seguido, tal qual modelo, era, na constituição da República brasileira, o padrão francês de civilização[18], como enfim nele se pautava a civilização ocidental. Quando o Instituto Secundário Feminino foi criado, em 1909, somente um pequeno número de mulheres no Distrito Federal, em 1907, tinha acesso ao ensino secundário (público, somente através da Escola Normal) e, nas escolas particulares confessionais, que, ainda que não seja especificado na tabela acima, não era público para elas. O acesso ao ensino superior excluía mais ainda o sexo feminino e, durante os primeiros anos do século XX, não chegou sequer a 2% o número de mulheres que conseguiu galgá-lo. Ora, era preciso instruir-se para alcançar o modelo paradigmático em que se apoiava a república. Penso então que, as tensões provenientes de uma ascensão que não se queria — porque alcançar a “civilização” não implicava, necessariamente, em uma extinção ou perda do poder patriarcal — e o modo individualizado das mulheres reagirem à função homogeneizadora apenas para o sexo masculino dessa educação secundária, levou, progressivamente, também, à alteração social do papel da mulher no Brasil.
Em 1912, alguns anos após o surgimento do educandário, cresceu o número de mulheres com acesso ao ensino secundário[19], ainda que o percentual tenha diminuído percentualmente, pelo ingresso crescente do número de rapazes que, seguindo valores civilizatórios e de expansão do capitalismo, precisavam instruir-se. A circulação e difusão dos valores civilizatórios e a expansão do capitalismo relaciona-se ao aumento de acesso, de moças e rapazes, ao curso secundário, entre outras transformações que se processavam concomitantemente na cidade-capital do Brasil.
Essas múltiplas causas são importantes naquele momento de alteração espacial na cidade do Rio de Janeiro: crescente industrialização; chegada dos imigrantes[20] em maior número; o desenvolvimento tecnológico e científico, todos esses aspectos, além do que já tratamos, foram pano de fundo para o aparecimento de novos cargos e funções, na esfera pública e privada, que necessitavam de mão-de-obra mais qualificada para serem operados e, pela maior oferta de cursos preparatórios que, por vezes, substituíam os cursos secundários (Piletti, 1987), de que se valeu a iniciativa para criação do Instituto Secundário Feminino.
O governo federal tinha sob sua responsabilidade manter o Colégio Pedro II, e os estados, apenas Liceus ou Escola Normais. Os Liceus não tinham como manter-se, não havia verbas. As Escolas Normais nos estados surgiam e desapareciam também ao sabor da parca verba pública. Os Liceus, e as Escolas Normais, que existiam eram, em sua maior parte, mantidos pela iniciativa privada o que excluía boa parte da população e, principalmente as mulheres pobres, como protesta Lima Barreto em seu artigo “Vida Urbana”, de 13 de março de 1915, que encontrei, durante a pesquisa, no livro “Bagatelas”, que reúne os artigos que o autor escreveu nos jornais:

Disse anteontem alguma coisa sôbre a instrução e não me julgo satisfeito. O govêrno do Brasil, tanto imperial como republicano, tem sido madrasta a êsse respeito. No que toca a instrução primária generalizada, coisa em que não tenho fé alguma, tôda a gente sabe o que tem sido. No tocante a instrução secundária, limitaram-se, os governos, a criar liceus nas capitais e aqui, no Rio, o Colégio Pedro II e o Militar. Todos êles são instituições fechadas, requisitando para a matrícula de alunos nos mesmos, exigências tais, que, se fôsse no tempo de Luís XV, Napoleão não se teria feito na Escola Real de Brienne. Ambos, e, sobretudo, o Colégio Militar, custam os olhos da cara e o dinheiro gasto com êles dava para mais três ou quatro colégios de instrução secundária neste distrito. (BARRETO, 1956, p.93)[21]


Não se pode esquecer, nesta equação que apresento sobre o pano de fundo da instrução feminina, do papel político que a Igreja perdera ao instaurar-se a república e da laicização dos costumes. Até então o discurso da Igreja Católica para o sexo feminino lembrava o mito do Éden, quando a mulher fizera com que o homem pecasse e, ambos, nascessem com o pecado original. Acreditava a Igreja, e isso pregava que, por ser a mulher sedutora, a tal ponto que seduziu o homem a pecar, deveria ser vigiada e não instruída, este o discurso veiculado bem longe dos preceitos civilizatórios trazidos, também pelas ciências e o avanço tecnológico. A instrução, quando havia para a mulher, servia para prepará-la para o casamento, o que aos olhos de Deus a purificaria do pecado original (Almeida, 2006). E, no mesmo artigo de 1915, Lima Barreto explica o ensino secundário oferecido às moças pelas escolas religiosas:

[...] Quanto às môças, então, com essas é atroz [o governo]! Pobres ou ricas, não têm outro remédio senão recorrer às barafundas pedagógicas das irmãs de caridade e jamais vir a entender a imagem do mundo que os homens atuais, por intermédio das ciências, fazem. É uma ignorância decretada e que bem podia, com mais tempo e vagar, se atribuir como fonte de muitos dos nossos atrasos e muitas das desgraças domésticas que os jornais trazem [...] (BARRETO, 1956, p.233)[22]


Importante lembrar que a educação pública oferecida nos Institutos Profissionais Femininos desde os anos finais do século XIX não ofereciam educação secundária, apenas primária, e estavam voltadas ao atendimento da demanda de novos postos de trabalho surgidos com a consolidação do capitalismo, a urbanização que se acelerava e a revolução industrial que espalhava pelo mundo suas conquistas.[23].
Ao completar um ano de atividades o Instituto Secundário Feminino preparou uma festividade, presidida pelo prefeito do Distrito Federal, na sede do Pedagogium. A festa tomou o espaço de três colunas no Correio da Manhã, que reproduziu trechos do discurso de Esther Pedreira de Mello na solenidade:

Aberta a sessão falou em primeiro logar a diretora do Instituto, d. Esther Pedreira de Mello, que pronunciou o seguinte discurso: “Senhoras e senhores, e em primeiro logar ao Sr. Presidente da República, aqui representado, e o ilustre Sr. Dr. Prefeito, cuja presença nessa solenidade bem se traduz por um legítimo interesse do poder público pelas coisas do ensino. [...] Este é, com justa razão, um dia de grande alegria para nós que empreendemos, corajosamente, a creação de um novo instituto de ensino. [...] O três de maio de 1910 lembra egual data do ano de 1909 em que, sob a presidência do eminente chefe supremo desta cidade, General Marcellino de Souza Aguiar, era inaugurado o Instituto de Ensino Secundário Feminino, de iniciativa acolhida com aplausos pelos bons amigos da instrução popular, dentro e fora da imprensa da Sociedade de Estudos Pedagógicos, agremiação de professores desse districto, como me foi dado registrar nas palavras que então proferi, representando pela generosidade das distinctas colegas na qualidade de directora, o novo instituto” (Correio da Manhã, de 4 de maio de 1910, à página 5, e O Estudo, Ano II, nº 8, de março de 1910)[24].


No momento do discurso proferido a cidade do Rio de Janeiro, capital da república que se consolidava, em suas inúmeras transformações, impelia-se às mulheres a trabalhos fora da esfera familiar, isto é, fora da esfera de vigilância do marido, da família e seus empregados. As mulheres imigrantes[25] e pobres, colocando, talvez, a necessidade à frente da religião católica, que perdia o poder político hegemônico que tivera desde sempre, assumiam cada vez mais espaços nas novas fábricas e para elas o Instituto Profissional Feminino, educandário público que ministrava, junto a uma profissionalização adequada para a “moderna” época civilizatória vivida na cidade, o ensino primário, tornou-se um educandário importante. Mas só isso não bastava! Só o ensino primário ainda era pouco! Lima Barreto, crítico imperativo do governo, assim se pronunciou em artigo de 26 de março de 1919, ainda no Bagatelas:

O procedimento do govêrno federal no que toca à instrução secundária do Distrito Federal, tem sido até hoje de um descaso sem limites. Contentou-se até hoje com a manutenção de um único externato, tendo matrículas só accessíveis aos filhos de poderosos e influentes. Os outros estabelecimentos que mantém, são ainda mais fechados e segregados à procura da grande massa de infantes. Além disto, não criou colégios secundários para môças; entretanto, apesar dêsse desprêzo, dêsse esquecimento criminoso, para atender solicitações políticas, aumenta todos os anos os colégios militares, anima a criação de escolas superiores e dá a entender que, quem não fôr militar ou tiver dinheiro, deve deixar os seus filhos na instrução primária que já dá capacidade para ser eleitor. (BARRETO, 1956, p.232-233)176

O  Instituto Secundário Feminino veio preencher uma lacuna que interessava que os políticos federais e municipais do Distrito Federal estivessem vinculados, como minimiza a enorme necessidade de uma escola secundária, pública, só para moças.


 Referências 
Este texto é parte integrante de minha tese de doutorado (em Educação) "Esther Pedreira de Mello: múltiplas faces de uma mulher invisível", defendida, em novembro de 2014, no Programa de Pos-Graduação em Educação (PROPEd) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

SANTOS FILHO, Lycurgo. Medicina no período Imperial (Cap. VIII). In: Holanda, Sérgio
Buarque de (org.). História Geral da Civilização Brasileira. Tomo II: O Brasil Monárquico,
v. 5. 8ª edição. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro. 2004.

BONATO, Nailda. O Instituto Profissional Feminino no Rio de Janeiro republicano: a formação de mão-de-obra nas primeiras décadas do século XX. Disponível em htttp://www.historia.fcs.ucr.ac.cr/congr-ed/brasil/ponencias/da%20costa_bonato.doc   Acesso 22/11/2015





[1] Apresentado no XI CONGRESO IBEROAMERICANO DE HISTORIA DE LA EDUCACIÓN LATINOAMERICANA, Toluca, México: Colegio Mexiquense, Maio 2014


[2] Pelo trecho do artigo jornalístico de A Noite, não é feita vinculação do Instituto Secundário Feminino à Sociedade de Estudos Pedagógicos dos Professores do Distrito Federal, mas à direção de Esther Pedreira de Mello.

[3] Para ver biografia da educadora, ver SANTOS, 2014

[4] Posteriormente o Pedagogium  muda-se para Rua da Quitanda, 72 e o Instituto, novamente, ocupa salas do 1º andar (Correio da Manhã, 1 de maio de 1915, s/p)
[5] Erudito e poliglota foi professor de Geografia do Colégio Pedro II e da Escola Normal do Distrito Federal. Ensinou, também, Cosmografia, língua pátria, Matemática, História,  Grego, Latim, Inglês e  Alemão. Escreveu livros didáticos entre os quais se destaca “Textos para Corrigir”, “Primeiro Passos na Álgrebra”, manual sobre Redação Oficial (em colaboração com Maria Reis Campos,  obra sobre Análise Léxica, livro de Inglês para os vestibulares de Medicina (colaboração com O. Serpa), “Três Palavrinhas” (coletânea das explicações por ele dadas em cada número da revista “A Escola Primária”, editada por Esther Pedreira de Mello), compêndios de Geografia para várias séries e compêndio de História do Brasil.
[6] Jornalista do Correio da Manhã. Secretário do jornal
[7] O Esperanto é língua artificial criada pelo médico e estudioso de línguas polonês Ludwig Lazar Zamenhof (1859-1917), no século XIX, para ser uma língua de comunicação internacional. Possui gramática simples e regular e utiliza as raízes das línguas europeias mais faladas, além de raízes latinas e gregas. Disponível em  http://www.ameriko.org/eo/HistorioDeEo-Brazilo Acesso em 10/11/2015
[8] O denominado (em esperanto) Brasileiro Clube de Americana (BKE) foi o primeiro grupo de Esperanto no Rio de Janeiro, fundado em 29 de Junho de 1906. Everardo Backheuser , seu presidente, e demais membros Dr. Nuno Baena (1º vice-presidente), Dr. Nerval de Gouvêa (2º vice-presidente), Sr.Lauriano das Trinas (Secretário) e Sr. Honório Leal (Tesoureiro) faziam palestras e divulgavam a nova  língua em diferentes espaços da cidade como o Colégio Nacional (Colégio Pedro II),  o Spencer School (proferida pelo Dr. Everardo Backheuser); o Colomy-Club (oferecida pelo Dr. Couto Fernandes); a Associação do Komercoficistoj (ofertada pelo Sr. Hernani Mendes); na Escola Militar (fornecida pelo Sr. Daltro Santos); na Escola Cayru (proferida pelo Sr.Lauriano das Trinas); e em Niterói (efetuada pelo Sr. Francisco Almeida Junior), no Liceu de Artes e Ofícios Escola Alfredo Gomes (presidida pelo Dr. Leonel Fonseca). Disponível em http://www.ameriko.org/eo/HistorioDeEo-Brazilo Acesso em 10/11/1015
[9] Obedecida grafia da fonte.
[10]  Discurso de Esther Pedreira de Mello reproduzido no tabloide A Noite, 11 de abril de 1915, p.2. Obedecida a grafia da fonte.

[11] Os primeiros estabelecimentos de ensino secundário no Brasil foram o Ateneu do Rio Grande do Norte, em 1835, e os Liceus da Bahia e Paraíba, em 1836. No Município Neutro, por decreto de 2 de dezembro de 1837, o Seminário de São Joaquim foi transformado em Colégio Pedro II, de ensino secundário. Diferente dos demais educandários, afeitos ao Ato Adicional de 1834 (Lei nº 16 de 12 de agosto de 1834), e mantidos pelas províncias, o Colégio Pedro II era mantido pelo poder central. (Haidar, 1972).

[12] Logo após a república o Colégio Pedro II tem o nome alterado para Ginásio Nacional de modo a desvincular-se do regime anterior. O Colégio Pedro II era o único público a conceder bacharelado em
ciências e letras,deferência  “não concedida a estabelecimentos particulares independente de fiscalização (DORIA, E. Memória Histórica do Colégio de Pedro II (1837-1937). Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, 1997).

[13] No Brasil, o século XIX foi o período da modalidade de educação doméstica ou educação na casa tornar-se largamente praticada pelas elites, particularmente na cidade do Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil. A casa era o lugar em que as elites educavam os seus filhos e filhas, por meio de preceptores, professores particulares e aulas-domésticas. (VASCONCELLOS, 2013)
[14] Somente em 1879 o Ministro Leôncio de Carvalho estabelece, entre outras modificações, a possibilidade da matrícula de mulheres no curso médico, sendo a gaúcha Rita Lobato a primeira formar –se na Escola de Medicina da Bahia, em 1887 (SANTOS FILHO, 1997; PICCININI, 2002; TEIXEIRA, 2001). No Império,  apresença da mulher na Faculdade de Medicina aparece nos cursos de parteira. Em 1832, as duas Faculdades de Medicina (Bahia e Rio de Janeiro) foram equiparadas nas cadeiras ministradas, bem como passaram a conceder aos concluintes o título de doutor para os médicos e o de Parteiro Diplomado aos que concluíssem o Curso de Partos realizado em 3 anos, possuindo várias cadeiras, entre elas: Parto, Moléstias de Mulheres Pejadas e Paridas, e Recém-nascidos (PORTO e CARDOSO, 2009)
[15] Sistema regular seriado oferecido pelo Pedro II e Liceus provinciais (e estabelecimentos provinciais) e sistemas particulares constituídos pelos cursos preparatórios e exames parcelados para entrada nos cursos superiores existentes.
[16] Observada a grafia da fonte.
[18] O conceito de civilização surgido na França do século XIII, na aristocracia, representava a maneira como os membros da sociedade corte deveriam proceder. Foi difundido por toda a Europa como um comportamento ideal para qualquer membro das cortes europeias. Foi de extrema importância na diferenciação entre as classes sociais existentes, e teve seu apogeu no século XVIII. O homem civilizado controlava o instinto em primazia da razão e do controle de emoções, para aplicar “boas maneiras” no convívio com o outro. O civilizado era um homem urbano e instruído, antítese do homem rural e tosco. (Elias, 1990)
[19] Inclui o ensino nas Escolas Normais.
[20] A cidade do Rio de Janeiro foi o maior centro industrial do país até 1920 e o operariado residente na cidade era fortemente composto de portugueses. (Melo, Araújo e Marques, 2003).

[21] Obedecida a grafia original da fonte consultada,
[22] Obedecida a grafia da fonte.

[23] O ensino profissional iniciado em 1897 (e efetivado  a partirdo ano seguinte) compreendia os cursos: elementar, médio e complementar das escolas primárias apenas,  não se estendendo às escola secundária. O currículo abrangia: “Economia doméstica, estenografia e datilografia e higiene profissional; costura e tudo quanto a ela se relacione, “inclusive o corte de roupa branca e de cores”, cerzidura, aposição e justaposiç0ão de remendos, etc; de bordado branco, matiz e ouro; de flores; de trabalhos domésticos. O ensino de arte compreende: desenho á mão livre, desenho geométrico aplicado às indú0strias; musica vocal e notação escrita, ginástica. O “curso de estudos” seria distribuído da seguinte maneira, em número de horas: Ginástica - 6 horas; Aula primária - 12 horas; Desenho - 9 horas; Higiene profissional - 2 horas; Música - 5 horas; Economia doméstica - 2 horas; Estenografia e datilografia - 4horas; Oficinas - 18 horas. (Art. 17). (BONATO, Nailda. O Instituto Profissional Feminino no Rio de Janeiro republicano: a formação de mão-de-obra nas primeiras décadas do século XX. Disponível em htttp://www.historia.fcs.ucr.ac.cr/congr-ed/brasil/ponencias/da%20costa_bonato.doc  Acesso 221/11/2015

[24] Obedecida a grafia da fonte.
[25] O censo de 1920 mostra a imigração portuguesa para a cidade do Rio de Janeiro: dos 433.577 imigrantes portugueses que viviam no Brasil por ocasião do recenseamento, 39,74% ou cerca de 172 mil portugueses, habitavam a cidade do Rio de Janeiro. (Melo, Araújo e Marques, 2003)