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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Ruas do Rio

João do Rio


            João do Rio, nosso maior cronista da alma da cidade do Rio de Janeiro, em 1908 já proclamava que “a rua nasce como o homem, do silêncio, do espasmo[1]”, porque:

A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo universal, tipo que vive em cada aspecto urbano, em cada detalhe, em cada praça, tipo diabólico que tem dos gnomos e dos silfos das florestas, tipo proteiforme, feito de risos e de lágrimas, de patifarias e de crimes irresponsáveis, de abandono e de inédita filosofia, tipo esquisito e ambíguo com saltos de felino e risos de navalha, o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos, mas cuja ingenuidade é perpétua, voz que dá o apelido fatal aos potentados e nunca teve preocupações, criatura que pede como se fosse natural pedir, aclama sem interesse, e pode rir, francamente, depois de ter conhecido  todos os males da cidade, poeira d’ouro que se faz lama e torna a ser poeira — a rua criou o garoto!
Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes — a arte de flanar.

            E flanando pelas ruas, através de ótimas publicações que li[2], nos meus estudos sobre o Rio de Janeiro, descobri algumas curiosidades sobre o nome de ruas de nossa cidade, do excelente trabalho de pesquisa de Paulo Berger, que compartilho com vocês.

Engenheiro André Rebouças

Avenida Beira-Mar

            Conta-nos Berger que foi o Engenheiro André Pinto Rebouças[3] que teve a ideia de construir uma avenida entre o Passeio Público a Praia da Saudade (hoje ocupada pelo Iate Clube do Rio de Janeiro), à beira mar, por volta de 1870. Porém, somente na administração do Prefeito do Distrito Federal Henrique Valadares[4], por iniciativa do Dr. Luís Rafael Vieira Souto[5], Diretor Geral das Obras Municipais, começou a ser construída a Avenida Beira-Mar, interrompida em 1894 quando ambos deixaram a Prefeitura do Distrito Federal. O reinício das obras ocorre somente em 1904, na administração do Prefeito do Distrito Federal Francisco Pereira Passos. Foi inaugurada em 12 de novembro de 1906 com o seguinte traçado: ia do começo da Avenida Rio Branco, do Obelisco[6], até o final da Praia do Mourisco, com 5.200 metros de extensão. Atualmente possui diferentes denominações de acordo com sua localização.

Rua Pedro Américo, com pedreira ao fundo, em 1906. Foto de Augusto Malta

Rua Bento Lisboa

            Teve as seguintes denominações: Rua do Quintanilha, Rua da Pedreira da Candelária e Rua Conselheiro Bento Lisboa[7]. Logo que foi aberta ao trânsito público foi denominada Quintanilha por atravessar as terras de Salvador Alves Correia Quintanilha, posteriormente vendidas a Bernardo de Sousa Castro e Francisco Marques Lisboa. Passou a denominar-se Pedreira da Candelária por ali[8] localizar-se a pedreira que forneceu o material para a construção da Igreja da Candelária[9].

Rua do Catete
            Provavelmente pensa você que a denominação deve-se ao palácio. Não. A rua assim é chamada por ter-se ali localizado a ponte sobre o rio Catete, mandada construir por Antônio Salema[10].

Princesa Carlota Joaquina


Rua Correia Dutra
            Aberta a via em 1808, recebe a denominação de Rua da Princesa em homenagem à Carlota Joaquina[11], esposa de D. João, recém-chegada ao solo carioca. Algum tempo depois, passa a chamar-se Rua Bela Princesa ou Rua Princesa do Catete, provavelmente para diferenciar de rua com o mesmo nome, em Cajueiros[12]. Trecho deste logradouro que ia da praia à rua do Catete teve o nome alterado para rua, ou caminho, do Valdetaro, pois que fora aberta em terras de Manuel José Valdetaro.. Abrindo-se posteriormente o trecho que ligava a rua do Catete a rua Bento Lisboa, o trecho recebe o nome rua nova do João Cunha porque atravessa propriedade de João da Cunha Barbosa. A seguir recebe a via a designação de rua Nunes Machado, em homenagem da Intendência ao desembargador Joaquim Nunes Machado[13]. Cerca de sessenta anos depois recebe o nome de Rua Doutor Correia Dutra, simplificada pelo Decreto Municipal 1165 de 31/10/1917 para Correia Dutra[14].



            Nossa cidade teve, e tem, muitas ruas, e ao passarmos por elas, cotidianamente, não sabemos que cada uma delas conta uma história, a História da cidade, na lembrança das homenagens que a cidade quis deixar registrada nos nomes de suas ruas; a perspicácia, sempre, de sua população para um estabelecimento comercial, para um aspecto geográfico ou arquitetônico e até para os donos das terras que a Prefeitura, ou o governo imperial, tornava públicas. Você sabe quem é o homenageado da rua em que mora?




[2] BERGER, Paulo. Dicionário Histórico das Ruas de Botafogo IV Região Administrativa. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1987 e BERGER, Paulo. Dicionário Histórico das Ruas do Rio de Janeiro da Glória ao Cosme Velho. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1989

[3] Nasceu em Cachoeira, Bahia em  13 de janeiro de 1838, filho de Carolina Pinto Rebouças e do jurista e político Antônio Pereira Rebouças. Matriculado na Escola Militar, depois Escola Politécnica, em 1857, tornou-se 2º tenente do corpo de engenheiros e recebeu o grau de bacharel em Ciências Físicas e Matemáticas, em 1859. Em 1860, recebeu o grau de engenheiro militar. Em 1880, fez parte da campanha abolicionista, tendo participado da Confederação Abolicionista e da criação da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e redigido os estatutos da Associação Central Emancipadora. Lecionou na Escola Politécnica. Monarquista, embarca para a Europa com a família imperial. Em Lisboa foi correspondente do The Times, foi  viver inicialmente em Angola e depois na Ilha da Madeira(Funchal), onde se matou em 9 de maio de 1898. Foi responsável por introduzir no Brasil novas técnicas de engenharia, inclusive o uso do concreto armado, que empregou em uma ponte em Piracicaba, em 1875, da qual foi o responsável. (CARVALHO, Maria Alic;e Rezende de. O quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil. Rio de Janeiro: Revan/Iuperj, 1998

[4] Henrique Valadares (1852-1903) nasceu no Piauí. Era engenheiro militar. Foi nomeado prefeito do Distrito Federal 1893, pelo Presidente Floriano Peixoto (1891-1894). Deixa o cargo em dezembro de 1894.(Ver OLIVEIRA REIS, José de. O Rio de Janeiro e seus prefeitos, evolução urbanística da cidade. vol.3. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, s/d)

[5] Luiz Raphael Vieira Souto, engenheiro militar, viveu no Rio de Janeiro entre 1849 e 1922. Filho de Luiz Honório Vieira Souto e de Francisca de Paula Cunha, casado com D. Carlota Souto de Andrada Vandelli. Foi professor da Escola Politécnica. Foi Diretor de Obras da Prefeitura, participando entre outras, das obras do desmonte do Morro do Castelo. Preocupado com as habitações populares, considerava-as como local de focos epidêmicos. (Ver MOREIRA, Heloi José Fernandes e SANTOS, Nadja Paraense dos.  Luiz Raphael Vieira Souto: Um centralista enciclopédico. Disponível em http://www.hcte.ufrj.br/downloads/sh/sh3/trabalhos/heloi2.pdf

[6] O obelisco é uma construção comemorativa constituído de um pilar de pedra, em forma quadrangular alongada, que se afunilado em direção a sua parte mais alta. O obelisco comemorativo da abertura da Avenida Central foi construído pela firma A. Jannuzzi, Irmão & Cia. medindo 18 metros e 15 centímetros de altura. É feito de granito extraído do Morro da Viúva e tem 27 toneladas de peso. Tem quatro peças nas faces com s inscrições: “Sendo Presidente da República s. ex., o Sr. Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves e Ministro da Viação o Sr. Dr. Lauro Severiano Müller, foi decretada, construída e inaugurada a Avenida Central, executando os trabalhos uma comissão de que era chefe o Dr. Paulo de Frontin – 14-11-1906”, “8 de março de 1904, data do inicio das obras”, “15 de novembro de 1906”.(Ver s/autor. Monumentos da Cidade. Reportagens publicadas pelo Diário de Notícias. Rio de Janeiro: S.A. Diário de Notícias, 1946, p. 229-230)

[7] Bento Luís de Oliveira Lisboa, Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, foi promotor público, magistrado(juiz da Corte de Apelação e Ministro do Supremo Tribunal de Justiça) e político(deputado estadual, presidente de província).
[8] No Morro da Sintra (antes do morro do Barro Vermelho). Pertencia à Irmandade do Sacramento. (Ver ALMEIDA, Soraya e PORTO JÚNIOR, Rubem. Cantarias e pedreiras históricas do Rio de Janeiro. TERRÆ DIDATICA 8(1):3-23, 2012 pp. 3-23)

[9] A igreja da Candelária, diferente arquitetonicamente, da que hoje conhecemos, teve sua construção iniciada ainda no século XVI, diz-se que fruto da promessa feita Antonio Martins da Palma e sua esposa Leonor Gonçalves, ainda no século 17. Em meio a uma viagem de navio para o Rio de Janeiro, o casal se viu diante de uma forte tempestade que quase devastou a embarcação. Devotos de Nossa Senhora da Candelária, prometeram que erguiriam uma igreja em seu louvor, caso chegassem sãos e salvos a seu destino. Tendo o casal sobrevivido à tempestade, construíram uma pequena capela na Praça Pio XI, inaugurada em 18 de agosto de 1634, e que seria a origem da atual Candelária. Em 1775, devido à má conservação da igrejinha, decidiu-se pela construção de um novo templo. O sargento-mor Francisco João Roscio, engenheiro militar português, desenhou a nova igreja. As obras começaram em 1775, utilizando-se de pedra extraída da Pedreira da Candelária, no Morro da Nova Sintra, no bairro do Catete. A inauguração, com a igreja ainda inacabada, ocorreu em 1811, em presença do príncipe-regente dom João. A igreja tinha, nesse momento, uma só nave. Os altares do interior da igreja foram esculpidos por Mestre Valentim. (Ver SOUZA, José Vitorino. A Igreja da Candelária desde a sua fundação. Rio de Janeiro: Editora Debret, 1998)

[10] Inicialmente nomeado Administrador das Terras do Brasil, em 1569, por D. Sebastião, em 1572, foi nomeado para as terras do sul, em nova configuração administrativa para a colônia portuguesa. Seu governo foi de enfrentamento aos tamoios e ao contrabando francês. Preocupou-se em estabelecer melhor comunicação entre as lavouras para fortalecer o comércio, criando pontes, inclusive a sobre o rio Carioca, onde está hoje a praça José de Alencar, e sobre o Rio Catete.

[11] Filha primogênita do rei Dom Carlos IV de Espanha e de sua esposa, D. Maria Luísa de Parma, rainha da Espanha, casou-se com o infante português D. João Maria de Bragança (futuro Dom João VI), em 8 de maio de 1785. (Ver AZEVEDO, Francisca Nogueira de. Carlota Joaquina na Corte do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003)

[12] Bairro formado originalmente por várias chácaras, começa a transformar-se após a vinda da família real portuguesa que ali manda erguer um quartel. A instalação militar foi a origem do atual Palácio Duque de Caxias, ex-sede do Ministério da Guerra. Com a transformação do local abriram-se duas vias pela desapropriação das terras: Príncipe dos Cajueiros e Princesa dos Cajueiros, atuais ruas Senador Pompeu e Barão de São Félix, respectivamente.

Ao longo do século XIX, as antigas propriedades foram sendo loteadas, e novas vias abertas ao tráfego. Destacam-se duas ruas principais, cujos nomes de batismo foram Príncipe dos Cajueiros e Princesa dos Cajueiros, atuais Senador Pompeu e Barão de São Félix.

[13] Foi um dos chefes da Revolução Praieira de 1848, em Pernambuco (Ao longo da década de 1840, setores radicais do partido liberal recifense manifestaram-se através do jornal Diário Novo, localizado na rua da Praia, ficando conhecidos como “praieiros”. Defendiam liberdade de imprensa, a extinção do poder moderador, o fim do monopólio comercial dos portugueses, mudanças sócio-econômicas e a instituição do voto universal)

[14] Vereador da Câmara Municipal em várias legislaturas.Foi Chefe de Polícia em 1893e deputado federal no ano seguinte.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Uma ilha cheia de História: a ilha Fiscal



            Será que todos aqueles que passam peça ponte Rio-Niterói e veem a Ilha com um castelo no meio da Baía sabem que ali fica a Ilha Fiscal? Essa ilha foi importante? Por que?





            A ilhota, de cerca de 7.000 metros quadrados, antes conhecida por Ilha dos Ratos[1], teve alterado o nome para Fiscal, a partir do século XIX, com a construção do palacete para instalação da Alfândega, por ordem de D. Pedro II. Essa ponderação da necessidade de criar uma aduana foi levada ao Imperador pelo Conselheiro José Antônio Saraiva, do Ministério da Fazenda, que solicitou um posto alfandegário para o controle das mercadorias a serem importadas e exportadas pelo porto do Rio de Janeiro. A posição da ilha dos Ratos era muito boa para abrigar a Alfândega, face à proximidade dos pontos de fundeio das embarcações e do porto.
            D. Pedro II, entusiasmado pela beleza do lugar e pelos golfinhos, constantes visitantes marítimos da ilhota, decidiu mandar fazer ali uma construção, inspirada em castelos medievais franceses[2], que se destacasse na baía. Às vésperas da república, em 1889, o palacete foi inaugurado ao público[3] com um baile realizado a 9 de novembro, oferecido, pelo Imperador, aos comandantes e oficiais, do encouraçado chileno ali ancorado, como forma de agradecer a hospitalidade aos navios brasileiros no Chile. A construção do palacete da Alfândega foi entregue, pelo governo imperial, ao engenheiro Adolpho del Vecchio, que com a mão-de-obra de portugueses e muitos escravos, levou quase oito anos para finalizá-lo.

Engenheiro Adolpho del Vecchio

            O castelo, com um torreão, foi projetado com um relógio de quatro faces comprado à firma alemã Krussmann, com corda acionada duas vezes por semana. O relógio possuía iluminação interna de modo a ser visível até à noite àqueles que chegavam ao porto e a quem morava nas proximidades, em terra. Para proteção e segurança do prédio durante os temporais, foi instalado, no ápice do torreão, um sistema de para-raios.
             Na construção do palacete destacam-se os trabalhos de cantaria, isto é, das peças entalhadas nas pedras, que vieram do morro do Pasmado, em Botafogo[4] onde funcionava uma Pedreira, cujo proprietário era Antônio Teixeira Rodrigues, Conde de Santa Marinha, responsável por sua execução. Como trabalhos de cantaria destacam-se o brasão do Império, acima da janela da sala do chefe da aduana, que consta ter sido obra de um negro já velho, com dotes artísticos, empregado da Pedreira, o que não tive como confirmar e as peças em pedra que guarnecem a sacada, com rico trabalho de rosas e ogivas e um S vazado da peça.




             A sala do chefe da aduana, no interior do palacete, no segundo andar, guarnecida por vitrais alusivos a D. Pedro II e à monarquia, e pelo uso de piso assoalhado em diversos tipos de madeira brasileira[5], em primoroso e cuidadoso trabalho de marchetaria, trazia a imponência do exterior da edificação ao seu interior. No alto desta sala, dedicada ao recebimento dos capitães dos navios que traziam notas de sua carga para que fossem taxadas e pudessem desembarcar no porto brasileiro, as abóbadas ogivais deixam passar luz ao ambiente, emoldurando vitrais coloridos a fogo e confeccionados de cristal inglês, ricamente trabalhados, mostram o Imperador, entre os brasões genealógicos da Casa Imperial Brasileira e da Casa de Saxônia, e a Princesa Isabel, entre os brasões da Casa Imperial Brasileira e a Casa de Orleans.






            O baile, o último da Monarquia, a seis dias de instauração da República, foi planejado para o recebimento de dois mil convidados na ilha, ainda que tenha recebido cerca de cinco mil, usou para o evento a parte externa e interna da edificação. Os convivas, recebidos por D. Pedro II, D. Teresa Cristina, Princesa Isabel e o Conde D’Eu, chegaram à ilha em embarcações pequenas, ornamentadas com bandeirolas do Brasil e do Chile e pequenas lanternas de estilo veneziano. Duas mesas, em forma de U serviram o jantar para 500 convidados especiais, que comeram Creme à la Riche­lieu, Purée à la Reine, Char­teuse de Per­drix à la Prai­rie, Lan­gue écar­late gelée à l’Anglaise, Grand Pud­ding à la Diplo­mate e Creme au cho­co­lat e aux vio­let­tes, entre outras iguarias, 12 mil sor­ve­tes e 500 pra­tos de doces diversos. Para tal banquete foram consumidos 18 pavões, 18 perús, 300 gali­nhas e 350 fran­gos, 100 lín­guas de vaca, 800 qui­los de cama­rão, mil peças de caça, 1200 latas de espar­gos, 800 latas de tru­faz. Beberam os convidados do baile cerca de 12 mil gar­ra­fas de vinho e 10 mil litros de cer­veja, segundo a pesquisadora Maria Antônia Goés[6].




             Mas a História da ilha é contada, também, pelos estragos feitos durante a revolta da Armada, em1893, que insurgiu membros (inclusive oficiais) da Marinha brasileira, liderados pelos almirantes Custódio de Melo e Luiz Filipe Saldanha da Gama, contra o governo Floriano Peixoto. O confronto bélico destruiu vitrais e paredes do palacete, em virtude da luta de artilharia entre os navios insurgentes e as fortalezas.

 A Revoltada Armada (1893). Óleo sobre tela de A. A. Santos
Acervo Instituto Cultural Sérgio Fadel



            Em 1997 a ilha foi transformada em museu, aberto ao público. A Marinha brasileira oferece visitas à ilha, através do Espaço Cultural da Marinha, localizado ao lado das barcas, na Praça XV. O passeio pode ser feito por escuna, ou ônibus, de acordo com as disponibilidades, com guia.





[1] É desconhecido pela historiografia o porquê do nome. Seria pelos inúmeros ratos vindos da Ilha das Cobras? Ou pela cor  cinza das pedras da ilha que, ao longe, pareciam ratos?

[2] A obra arquitetônica  foi projetada em estilo gótico-provençal, inspirado nas concepções do arquiteto francês Eugène Emannuel Viollet-le-Duc (1814-1879), ligado à fase da arquitetura que pretendia reviver os séculos anteriores.

[3] Em abril de 1889, o Imperador, acompanhado do Conde D’Eu e do Visconde de Ouro Preto, receberam a obra do engenheiro del Vechio.
[4] O morro do Pasmado, em Botafogo, foi objeto das remoções empreendias nas décadas de 1960/70 e hoje só tem um mirante que se abre para o túnel do mesmo nome, construído em 1947 e terminado em 1952, com 220 metros de extensão em uma só galeria, que liga os bairros de Botafogo e Copacabana.

[5] Foram usadas pela firma Moreira & Carvalho, utilizando a técnica de marchetaria, as seguintes madeiras brasileiras: amendoim, pau-brasil, pau-cetim, peroba-do-campo, tremida, raiz de imbuia e roxinho; jacarandás da Bahia, do Rio de Janeiro, do Espírito Santo e de Minas Gerais; canela, imbuia, garapa, pau-marfim, peroba-do-campo e sucupira.

[6] Brasil na Hora de Temperar. Sintra, Portugal: Colares Editora,  2008.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Ao nosso São Sebastião

Recompensa de São Sebastião.
Tela 133 x 218 com  de Eliseu Visconti, 1898.
Acervo do Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro



Quando os portugueses escolheram São Sebastião para padroeiro de uma cidade como o Rio de Janeiro, trouxeram nele a imagem do homem, não santo ainda, que  congrega e que, dado por morto, sobrevive. O povo que ele, desde então, abençoa, sente isso, tanto que o Santo, cravado de flechas, é reverenciado pelos devotos da Igreja Católica e das religiões afro-brasileiras, onde recebe o nome de Oxossi, orixá das florestas. E temos uma urbana, meu santo, toda sua!

E este santo é assim como nós cariocas, um sobrevivente. Não precisamos, no entanto, ter sido mandado matar por Dioclesiano[1], ou ter o corpo perfurado por flechas[2], somos sobreviventes da cidade.  Sobrevivente como o santo que depois foi, novamente, mandado matar[3]. Nós também temos essa garra de, encarando a morte, sobreviver. É só percorrer nossa História.

O Rio de Janeiro foi sede da Corte que, fugindo, veio dar nesse costado depois de breve estada na Bahia de Todos os Santos a comer muito acarajé e vatapá. E aqui ficou, após a mudança do regime, da moda das mulheres que encurtou seus vestidos encompridados adequadas a Europa,  mas não a uma cidade quente como o Rio. 

Ah, protegei-nos São Sebastião! Protegei-nos dos homens que nos roubam desde os piratas que assustaram a cidade com seus tiros de canhão (e hoje, de metralhadoras, AK 45, ou que nome pomposo tenham essas armas que não fabricamos, mas as quais somos consumidores contumaz, até pela bala, perdida, que nos mata!).

A cidade, e seus habitantes, meu santo, flanando pelo tempo, a lembrar de seu cronista maior[4], sobreviveu à peste, e outras doenças das que dizimam os viventes mais pobres; sobreviveuà poeira das demolições e aos embelezamentos, por vezes desnecessários;  sobreviveu  ao desmonte de seus morros para que o ar marítimo trouxesse ao solo quente da cidade, que crescia além do Campo da Aclamação,  o frescor; sobreviveu, e continua sobrevivendo,  aos políticos da república, instalados em palácios[5] que mandaram derrubar. 

E hoje, meu santo, na mesma expropriação do que é público, roubam os óculos de Drummond, roubam nossos monumentos, roubam, em arrastão, os banhistas, roubam tudo... até placas de ferro da perimetral demolida (e ninguém viu!). Protegei-nos sempre dessa horda, São Sebastião!

E hoje, viemos agradecer meu São Sebastião, ter tomado conta de nós por 450 anos! Continuamos sobrevivendo, meu santo!

Sobrevivemos aos ônibus sem ar condicionado, e sujos, que nos transportam todo o dia, pelo preço de um rolls roice com motorista.

Sobrevivemos aos trens apertados que se deslocam sem hora certa, sem comodidade, sujeitos a batidas sem motorneiros que espertos, pulam fora antes de colidir o veículo sob trilhos.

Sobrevivemos aos preços surreais que confundem água de coco com água Perrier!

Sobrevivemos à sujeira de nossas praias lindas com areia fina empipocada de garrafas pet sem dono!

Sobrevivemos aos nossos rios que morrem, dentro dos novos calçamentos da cidade, contaminados pela sujeira que, nós mesmos, despejamos neles!

Valei-nos, meu santo!

Não temos mais varíola, malária... mas os bondinhos de Santa Teresa não estão mais lá, a emoldurar os Arcos. Onde estarão? Valei-nos meu santo! 

Nossos jornais tratam de tudo de todo o Brasil, diferente dos tabloides de Bittencout, de Carlos de Laet, que comentavam o nosso dia a dia. Não somos mais a capital do país, espelho da nação, meu santo, mas é aqui o turista continua vindo para conhecer o Brasil.

Continuamos amando essa cidade que tem, desde 1931, um Cristo lindo, de braços abertos, a dividir com você, meu santo padroeiro, a proteção a essa cidade amada e seus habitantes. Foi preciso, São Sebastião! A cidade cresceu, os problemas acompanharam essa vertiginosa curva ascendente de uma população miscigenada, como brasileira que é, de braços fortes e peito aberto, vinda de todos os lugares do mundo. 

Assim, São Sebastião,  valei-nos! Sempre! Agora tem uma forte ajuda! O próprio Cristo!

E obrigada, meu santo, por nos socorrer durante tanto tempo! 

Obrigada por ter nos dado a sobrevivência como meta!

Salve, salve você, São Sebastião, do meu Rio de Janeiro!


[1] Caio Aurélio Valério Diocleciano foi imperador romano de 284 a 305 D. C.
[2] Durante a “Perseguição de Diocleciano” (303-311), a última, maior e mais sangrenta perseguição oficial do cristianismo a ser implementada pelo império romano.
[3] A história do santo aparece nas atas romanas com sua condenação e matírio e nos atos apócrifos de Ambrósio de Milão.
[4] João do Rio (1881- 1921). Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, foi jornalista, cronista da cidade, tradutor e teatrólogo brasileiro. Escreveu: As religiões do Rio. [Paris: Garnier, 1904]; O momento literário. [Paris: Garnier, 1905]; A alma encantadora das ruas. [Paris: Garnier, 1908]; Era uma vez... (em co-autoria com Viriato Correia). [Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1909]; Cinematographo: crônicas ariocas. [Porto: Lello & Irmão, 1909]; Fados, canções e danças de Portugal. [Paris: Garnier, 1910];Dentro da noite. [Paris: Garnier, 1910]; A profissão de Jacques Pedreira. [Paris: Garnier, 1911]; Psicologia urbana: O amor carioca; O figurino; O flirt; A delícia de mentir; Discurso de recepção.[ Paris: Garnier, 1911]; Vida vertiginosa. [Paris: Garnier, 1911]; Portugal d'agora. [Paris: Garnier, 1911]; Os dias passam.... [Porto: Lello & Irmão, 1912]; A bela madame Vargas. [Rio de Janeiro: Briguiet, 1912]; Eva [Rio de Janeiro: Villas Boas, 1915]; entre outras obras literárias e crônicas.
[5] Referência ao Palácio da Prefeitura, sede administrativa do Governo do Distrito Federal, mandado derrubar para abertura da avenida Presidente Vargas e ao Palácio Monroe, projetado para ser o Pavilhão do Brasil na Exposição Universal de 1904, foi desmontado e trazido ao Brasil [era feito em estrutura de ferro] para sediar a 3ª Conferência Pan-americana. De 1914 a 1922 foi sede da Câmara dos Deputados. Em 1922 passa a abrigar o Senado Federal. Em campanha de O Globo e de Lúcio Costa,  foi pedida a demolição do Palácio Monroe, sob alegações estéticas e de atrapalhar a visão do Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial. Foi demolido em 1975. Era uma construção do arquiteto e engenheiro militar, Coronel Francisco Marcelino de Sousa Aguiar. De acordo jornal Diário de Notícias de 4/01/1976 p.9, a demolição foi orçada em Cr$ 191.108,00. Na edição de 7/01/1976, p.9, o jornal anunciou que os quatro leões de mármore de Carrara que adornavam o palácio haviam sido vendidos para o diretor de uma financeira. Valei-nos! A firma contratada para a demolição afirmava, tambéml, que pretendia faturar o máximo com a venda de objetos de arte e material aproveitável do palácio, de forma a recuperar os 200 mil cruzeiros investidos. Os anjos de bronze que adornavam a cúpula foram orçados em Cr$ 15 mil cada, os vitrôs, de valor histórico, não foram orçados. Sumiram!!! Na edição de 11/01/1976, capa, apurava-se que apenas com a venda de 3 mil toneladas de ferro foi possível arrecadar 9 milhões de cruzeiros. Será??? Alguma semelhança com o que já conhece? Filme antigo a passar repetidas vezes nessa cidade. Atenção: Pode ver, mudam os atores...Valei-nos, meu santo!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Fábrica Alliança: operários em Laranjeiras e a constituição do bairro

           


              Relevante que eu destaque aqui a importância da Fábrica Alliança na cidade do Rio de Janeiro e, principalmente, para o bairro de Laranjeiras. Conta-nos Nireu Cavalcanti (1999), arquiteto e historiador, que Laranjeiras[1], onde estava assentada a fábrica, era um bairro aristocrático onde conviviam palacetes, e a partir da segunda metade do século XIX, também o comércio e a indústria. Embora situado entre o centro da cidade e a zona sul, mas por causa das montanhas que cercam a sua área, o bairro de Laranjeiras era protegido do tráfego de passagem que se fazia entre as duas partes. Essa peculiaridade, que lhe garantia ter apenas o pequeno tráfego interno, começou a ser alterada com a abertura do primeiro túnel da cidade, em 1887, no alto da rua Alice e com o aumento do fluxo após a realização do corte do Morro Novo Mundo, ligando a rua Pinheiro Machado à rua Farani.
            Em 1872, na área da atual rua General Glicério e adjacências, os Srs. Francisco de Sá Nogueira, José Duarte da Fonseca Silva e Miguel Couto dos Santos, instalaram uma lavanderia de grande porte: a "Companhia Econômica de Lavanderia a Vapor". Oito anos depois, a firma foi vendida, mudando de ramo, e de donos. Passa a ser uma indústria de fiação, tecidos e tinturaria chamada "Alliança". Seus proprietários eram os portugueses José Augusto Laranja, Joaquim Carvalho de Oliveira e Silva e o inglês Henrique Whittaker, que, a seguir, retirou-se da empresa. Assim começou a "Fábrica Alliança", que veio a ser uma das mais importantes do ramo têxtil, no Rio de Janeiro.
          Essa fábrica mudou a composição da população do bairro e, segundo Nireu Cavalcanti (1999), também sua arquitetura e seu urbanismo, embora não fosse a única fábrica do bairro, já que havia, na rua Pereira da Silva, uma oficina de produção de cerveja, cujo proprietário era Luís Bayer[2] e, depois de seu falecimento, sua viúva. Informa ainda este historiador que, a partir da instalação da "Fábrica Alliança" apareceram no bairro casas, pequenas, de porta-e-janela, e as vilas que se espalharam, além de construções da própria fábrica. Por conta de um maior número de habitantes, os operários portugueses[3], italianos e brasileiros, o comércio ali cresceu e se diversificou. Mas foi a "Fábrica Alliança" quem atraiu para o bairro muitos operários para nela trabalharem. As fábricas "Alliança", em Laranjeiras, as "Companhias Carioca" e "Corcovado"[4], no Jardim Botânico, a fábrica "São Félix", na Gávea[5], e pequenas fábricas de produção diversificada, principalmente em Botafogo, atuaram como imãs de povoamento desses bairros onde estavam instaladas, ampliando-os além da elite que ali residia.
          As indústrias levaram à formação, nas suas proximidades, de núcleos de população operária, que habitavam vilas construídas pelas próprias empresas, ou cortiços, geralmente improvisados como segunda fonte de renda pelos imigrantes, no mais das vezes portugueses, donos de armazéns. Vieram também outros trabalhadores, em busca de habitações modestas, cujo aluguel era baixo, e o encontravam nas vilas e cortiços ali existentes. Foram esses pobres que enriqueceram estes bairros com novas expressões culturais, populares, trazendo uma vida social mais coletiva.
          A fábrica, como diferencial relevante, oferecia aos empregados atividades culturais e de lazer através do clube, do cinema e do teatro.  Em Laranjeiras, por conta dos empregados da "Alliança", surgiram os ranchos "Arrepiados" e "União da Aliança"[6], ambos ligados à Fabrica. Além do futebol do Fluminense, foram muitos os times populares do bairro, como o Estudantina, que tinha até sede na rua das Laranjeiras[7] e depois mudou-se para o centro e virou gafieira. Surgiram ali, também, blocos carnavalescos como "Rasga", "Periquitos" e "Canarinhos de Laranjeiras". O aristocrático bairro de Laranjeiras, no início do século XX, passou a ser também operário, o que grupava, em um mesmo espaço geográfico, culturas distintas, o que não ocorreu só no bairro de Laranjeiras. Ao longo dos séculos, muitas outras famílias importantes, como a dos Lisboa, Velasco, Roxo, Torre, Frontin, Pereira Passos, Teixeira de Freitas, Moura Brasil, comerciantes, profissionais liberais, militares graduados da época (General Andréa[8], Beaurepaire Rohan, Almirante Delamarre, etc.) e políticos, deram ao bairro a fama de ser este um bairro aristocrático da cidade do Rio de Janeiro. Ficaram famosos os saraus e os bailes nas mansões da Condessa de Haritoff[9] ,ou os concertos, no Clube Laranjeiras, em que vinham tocar músicos famosos como Alberto Nepomuceno.


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[1] Realizada a ocupação da Carioca pelos primeiros sesmeiros, os seus sucessores, ao longo do século XVII, transformaram suas chácaras em produtoras de hortaliças, legumes, frutas, cereais (principalmente arroz) e farinha de mandioca. Uns preferiram explorar a indústria cerâmica, outros a extração de pedras Além da exploração agrícola e industrial, os proprietários da Carioca abasteciam a cidade com lenha e carvão produzidos pela derrubada de suas matas. Também vendiam a água do rio Carioca aos moradores do centro da cidade. Os ricos proprietários da Carioca, que em sua maioria dedicavam-se ao comércio ou eram militares graduados, aformosearam suas chácaras com belas casas senhoriais  muradas e vistosos portões no espaço hoje ocupado pelos bairros da Glória, Catete, Cosme Velho e Laranjeiras.. No século XVIII a Carioca já começa a ser identificada em três zonas distintas: a da Glória, a do Catete (que ia até o Morro da Viúva) e o interior do Vale nomeado Laranjeiras (abrangendo desde o Largo do Machado, inclusive, até a caixa d'água do rio Carioca, na rua Almirante Alexandrino). O nome "Laranjeiras" aparece nos documentos, a partir de 1780. (Cavalcanti, 1999)

[2] A referência inicial deste cervejeiro consta no Almanak Laemmert de 1849, p.401

[3] “Os processos de expulsão [daqueles imigrantes considerados anarquistas] refletem, com exatidão, as tendências globais da imigração para a cidade  no final do século XIX e primeiras décadas do século XX, onde os portugueses, seguidos de italianos e espanhóis provenientes das áreas rurais constituíam a maioria dos que se destinavam ao Rio de Janeiro.”(MENEZES, 1997, p.7)

[4] Esta fábrica, pertencente à Companhia de Fiação e Tecelagem Corcovado, foi fundada por José da Cruz, em 1889, em terras da antiga chácara de João Calhau. O estabelecimento ficava na atual Rua Jardim Botânico. Em 1884, a Companhia de Tecidos Carioca já havia se instalado junto ao Rio do Algodão, nas proximidades da atual Rua Pacheco Leão. A fábrica da Cia. Corcovado encerrou suas atividades na década de 1940 e teve seu terreno desmembrado em lotes para a construção de moradias(CURIOSIDADES CARIOCAS, 2008 Disponível em http://rio-curioso.blogspot.com.br/2008/10/fbrica-corcovado.html acesso 12/06/2013)

[5] A vocação fabril do bairro remonta ao final do século XIX, quando o Rio de Janeiro experimentou um surto industrial que fez da Freguesia da Gávea uma das áreas mais industrializadas da cidade. As primeiras fábricas foram a Fiação e Tecidos Corcovado, a Companhia de Fiação e Tecidos Carioca, a Fábrica de Chapéus do Braga e a Fábrica de Malhas São Félix, essa última localizada na Rua Marques de São Vicente, fábrica que posteriormente passou a chamar-se Cotonifício Gávea. (Azevedo, 2011)

[6]“Através dos relatos escritos dos cronistas, foram registradas muitas das manifestações populares, como as festas religiosas e os carnavais das ruas e dos salões. Tais manifestações do "povo", produzidas, via de regra, em um circuito cultural narrado pela oralidade, eram compartilhadas por muitos desses letrados. Nesse circuito, alguns cronistas carnavalescos, como Vagalume, Eneida e Jotaefegê, se tornaram verdadeiros entusiastas do que viria a constituir certas características peculiares à ideia de "cultura popular urbana do Rio de Janeiro"( GONÇALVES,2003,p.91)  

[7] A Gafieira Estudantina foi fundada em 1931, na Rua Paissandu, no bairro do Flamengo. Os fundadores foram Manoel Gomes Matário, em sociedade com um estudante de Direito chamado Pedro, daí o nome Estudantina. Anos mais tarde, foi transferida para a Praça José de Alencar, no bairro do Catete, onde permaneceu até a década de 1940. Em 1942, foi transferida para a Praça Tiradentes, número 75, sendo, os donos à época, Lino de Souza e Manoel Jesuíno (Disponível em http://www.estudantinamusical.com.br/nossa-historia Acesso 8/8/2012)

[8] Francisco Joze de Souza Soares d'Andrea, Barão de Caçapava. Chegou ao Brasil com a Corte, em 1808

[9] Ana Clara Breves de Moraes Costa, chamada por Nicota, sobrinha do Comendador José de Souza Breves, era casada com Maurice Haritoff, em 1867. Recebeu de dote de casamento a fazenda Bela Aliança (em Vargem Grande). Consta que tanto em Bela Aliança, como em Laranjeiras, os Haritoff recebiam com igual elegância e fidalguia. Em 1883 ocasal inaugurou os salões de Laranjeiras, e começou a série deliciosa dos "mardis de Mme. Haritoff". O "Messager du Brésil", publicou larga notícia: "... une brésilienne doublée d'une vraie parisiense, dont la grâce, l esprit et la haute distinction ont reçu une consécration solenelle dans les salons les plus aristocratiques de la société européene, vient d inaugurer ses mardis dans le magnifique hôtel qu elle habite à Laranjeiras". (ÁRVORE GENEALÓGICA. Disponível em http://www.geni.com/people/Anna-Clara-Breves-de-Moraes-Costa/6000000017611668115  Acesso em 02/01/2013)

domingo, 7 de dezembro de 2014

O Rio e seus pedacinhos de paraíso

           



              Tenho uma amiga que mora em um lugar lindo no Rio. Meio escondido da vista de que passa apressado pelas ruas de Laranjeiras, fica o Parque Guinle, no sopé do Morro de Santa Teresa. A princípio, o que se vê é um parque lindo, mas poucos sabem que este parque foi traçado, em 1916, pelo paisagista francês Gerárd Cochet para Eduardo Guinle, na perspectiva de um jardim particular. Nessa época o paisagismo unia o desenvolvimento do capitalismo à imagem naturalista, numa proposta pedagógica para construção de novos valores coerentes com a urbanização a partir das edificações e paisagismo. A Alemanha é precursora nessa proposta que, a seguir, foi abraçada pela França, da qual Cochet é um expoente, e Estados Unidos, cujo Central Park é uma mostra do período. O jardim dos  Guinle foi criado nessa lógica urbana, mas somente após a morte do patriarca a família Guinle decide dividir o Parque com moradores, que não o próprio clã.





           
       Em 1946 decide a família preservar o parque e, em seu entorno manda construir luxuosos edifícios. A tarefa arquitetônica foi entregue a Lúcio Costa, que projetou e construiu os três primeiros prédios designados Nova Cintra, Bristol e Caledônia.  A construção ocorreu de 1948 a 1954. Nesse período houve a intervenção de Roberto Burle Marx no jardim do palacete Guinle. Os prédios previstos, mais três, pelo projeto original, foram obra do escritório MMM Roberto.





         Atualmente o conjunto residencial do Parque Guinle está dentro da Área de Proteção Ambiental São José. Seus três edifícios se encontram na Rua Gago Coutinho e rua Paulo César de Andrade. As fachadas, todas, exprimem o pensamento arquitetônico que alia textura e leveza, marca da arquitetura brasileira do período.


            À entrada do Parque, mantém-se o portão original da residência da família lembra os aspectos históricos de um Rio de palacetes e chácaras, já desaparecido. Já passei uma manhã toda lá, desfrutando da aragem sempre fresca propiciada por inúmeras árvores. É um lugar lindo para quem quer descansar do caos urbano, dentro da cidade. É um pequeno paraíso desses que só o Rio oferece.


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Rio de Janeiro não visto: (re)construindo memória da cidade

Memórias do não visto

            A cidade do Rio de Janeiro está a um passo de completar 450 anos e, ainda, poucos de nós temos a memória do que não chegamos a ver. As fotografias, quando existem, as palavras escritas em desvão do tempo passado, as pinturas, essas nos trazem à memória do que não vimos, só. Não vejo exposições a apresentarem aspectos arquitetônicos ou culturais de nossa cidade. Mas sei que as pessoas se interessam porque há alguns anos escrevia uma seção de revista dirigida aos taxistas- os recepcionistas da cidade -. A seção, com artigos mensais, chamava-se Memória. Todos os táxis que peguei, enquanto escrevia os artigos, creio que durante dois ou três anos, foram comentados pelos taxistas com seus passageiros.
            Ao escrever minha tese de doutorado tive acesso à memória esquecida que poucos conhecem dessa cidade. Percorri o prédio denominado Palácio da Prefeitura, pertinho da Praça da Aclamação, hoje Campo de Sant’Anna. Ela majestoso! Sediava a Prefeitura do Distrito Federal quando o Rio de Janeiro era, ainda, capital do Brasil. Foi derrubado para abertura da Avenida Presidente Vargas. Como a Igreja de Sant'Anna que dá nome ao espaço.
            A abertura da Avenida levou consigo, para o subterrâneo da memória do habitante da cidade casarios sem importância e ruas inteiras, como a São Pedro, no mesmo entorno, que sequer saberia ter existido não fosse por meu interesse pela historiografia existente sobre a história da cidade.


Rua São Pedro, década 1920 (AGCRJ)


            Visitei, em minhas pesquisas, o Convento da Ajuda através das muitas páginas de Luiz Edmundo e das fotos, últimas, desse ponto tradicional da cidade em suas Folias de Reis e seus presépios, seus doces gostosos, sempre cobertos por toalhinhas bordadas e perfumadas, pelas freiras que, dizem, guardava a sete chaves a receita mágica da “mãe-benta”, doce de estalar na boca. Quem tem memória desses fatos, e do convento, derrubado no primeiro decênio do século XX?



Covento da Ajuda em foto de Malta (AGCRJ)

            Sugiro aos “lugares de memória” do Rio, aos arquivos, museus, bibliotecas, que apresentem ao habitante da cidade o Rio que não vimos. Seria bom que pudéssemos, todos nós, construir essa memória.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O maior cortiço da cidade do Rio de Janeiro: Cabeça de Porco




            Conta o tabloide  Gazeta de Notícias (27/01/1893,p.1, coluna 6) que o Cabeça de Porco surge em 1858, após a venda a José Ferreira Teixeira, Francisco dos Santos Guimarães e Joaquim Coelho Netto, de quatro lotes herdados de José Justiano Ribeiro de Farias, que recebera o terreno, junto com uma extensão dada a Luiz Pereira de Campos, da Câmara Municipal, em 1847 para prolongamento da rua de Sant’Anna.



            Desde 1878, por Aviso (de 14 de outubro- Posturas Municipais) o Ministério proibia construção de cortiço entre as praças D. Pedro II e 11 de junho e nas ruas do Riachuelo e Livramento, mas, mesmo assim, o Cabeça de Porco foi construído. Em 1831, foi proposta desapropriação do cortiço sem indenização porque argumentou-se que fora construído irregularmente. O cortiço ali permaneceu, ainda que desapropriado          Em 1886, nova Portaria exigia a demolição. Não houve. No ano seguinte os proprietários sustam legalmente a demolição, o que valeu até 1888, quando se ordenou, novamente, a demolição (Portaria de 27 de abril) e autoriza-se a Junta de Higiene a fechar o cortiço (Portaria de 26 de julho). Em dezembro, pela Portaria do dia 27, reitera-se demolir o cortiço. O cortiço, embalde as Portarias e decisões judiciais, manteve-se em pé e funcionando. 
            Em 1891, Carlos Sampaio propôs ao Ministério do Interior prolongar a Rua Dr, João Ricardo (como passou a chamar-se o logradouro) para abertura de um túnel. Com a saída do presidente, e ministério, as ações foram postergadas até 1893. Neste momento, havia necessidade e ação política de ampliar o solo urbano, com a construção de túnel, modernizar a região do centro e porto para melhor visão da cidade aos que chegavam e necessidade de higienizar a região devido às doenças que grassavam sem controle, o que afetaria a boa situação do maior porto brasileiro. Nesse momento, então, foi decidido politicamente que o Cabeça de Porco  seria demolido.

Construção do Túnel João Ricardo
           
            Em 1893, o Prefeito do Distrito Federal, Barata Ribeiro, resolveu exterminar este cortiço e, para isso, à noite, fechou a entrada do cortiço, impedindo qualquer tipo de circulação – fosse de entrada ou de saída – do lugar.  Para assistir e prestigiar (-se) com a derrubada e aliar à sua imagem a representação de moderno, civilizado e higienista, estiveram presentes as autoridades capitaneadas pelo Prefeito Barata Ribeiro, o Chefe de Polícia, o Engenheiro Municipal, o Médico Municipal, o Secretário de Inspetoria Geral de Higiene, o Delegado da Inspetoria no Distrito, o Fiscal da Freguesia, guardas fiscais, oficiais da Armada, do Exército, da Brigada policial e alguns Intendentes. A todos interessava ser visto como moderno, como preocupado com a higiene, como promotor e incentivador da civilização na cidade do Rio de Janeiro. Ao término da derrubada a estatística foi lastimável: um sem número de famílias sem moradia. Estas reformas inauguraram, então, uma divisão social e permitiram a segregação de parcela considerável da população que habitava o centro e o porto da cidade , tida por feia e pobre. Diz Chaloub (1996) que, como o pobre não conseguia acumular riquezas era visto como não tendo a virtude de ser um trabalhador e de ter o vício da ociosidade, por isso a classe pobre era tida como viciosa, de modo que vício era sinônimo de pobreza e vagabundagem. Para que os pobres não ficassem à vista no centro político e administrativo da capital do país, foram sendo empurrados para os morros e subúrbios . Fernandes (1998), ao investigar a cidade do Rio de Janeiro, explica o que a coletividade da cidade do Rio de Janeiro entendia por subúrbio:

La palabra suburbio tiene un significado particular, esto es, denomina los barrios donde existen ferrocarril y que fueron elegidos por las reformas urbanas a la Haussmman del inicio de siglo XX como lugar de residencia de las clases populares en la ciudad. (p.s/n)

             Todos os fatos que, como fenômenos, ocorreram na história no Rio de Janeiro são típicos. Isso aconteceu porque a cidade foi tratada, por razões políticas, em momentos temporais diferenciados, como um “espelho da nação” o que, muitas vezes, colocou a cidade como catalizadora das políticas públicas, especialmente na área educacional.    Esta a razão de,

durante muito tempo, se [pensar] a cidade como lugar de modernidade e progresso em oposição ao mundo rural, considerado o locus da tradição e do atraso. A cidade passou a ser identificada como campo da racionalidade e do planejamento e, simultaneamente, como fonte de fragmentação e de aviltamento do indivíduo.(OLIVEIRA, 2002, p11).