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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

ESCREVER NO FEMININO



Heloisa Helena Meirelles dos Santos[1]
UERJ
helohmei@gmail.com


Resumo
Este artigo investiga algumas revistas femininas, do final do oitocentos e início do século passado, apresentando suas características: que sua circulação não atingia todas as mulheres e que tais publicações  eram em sua maioria, editoradas e escritas por homens, algumas com a colaboração eventual de mulheres; que eram voltadas aos poemas e romances apropriados às mulheres, que ali eram lidos e comentados;  que estes periódicos buscavam ser uma “amiga” da mulher estabelecendo uma cumplicidade capaz de conhecer seus problemas e resolver suas necessidades. Estas publicações usavam o vestuário, a casa e formas de agradar o marido como pautas de interesse feminino. Poucas publicações, escritas por mulheres, por vezes iam de encontro aos movimentos emancipatórios de gênero, no que se pretendia para mulheres urbanas e com poder aquisitivo. O artigo pretende contribuir para a historiografia no que tange a escritura feminina como estratégia emancipatória feminina da mulher urbana publicizada pelas revistas.

Palavras-chave: Revistas femininas; estratégias emancipatórias femininas; escritura para mulheres.


Escritura invisível





Imagem 1. Mulheres
Fonte:  Novo Correio das Modas, 1854.


Ainda que Chartier (1995, p.38) advirta que a escrita não é sexuada, distingue características para a escrita feminina: recurso frequente ao pseudônimo ou anonimato para não revelar a identidade; distância em relação à edição da obra e certa cumplicidade ao dirigir-se a um público restrito. Escrever ou historiar no feminino sempre foi uma atividade de mulheres, mesmo que estas possam estar defendendo posições masculinas, ou, ainda que homens façam desta a sua tarefa, numa tentativa de apresentar socialmente a mulher sob o olhar masculino. Deste modo, me coloco a escrever sobre o feminino de acordo com Walter Benjamin (1994), daquele sujeito que narra e retira de sua experiência o que conta, incorporando ao narrado o que soube, o que ouviu, o que entendeu e resignificou.
Lightman (1993) diz que os homens, ainda que escrevam a história, não a contam como querem, pois que o feminismo, aqui entendido como ação política das mulheres, sempre foi uma forma impactante de reivindicações e estremecimento no tecido social que, aparecendo ou não nos discursos, mostra-se nos atos do cotidiano, no pensamento e na linguagem.
Lygia Fagundes Telles (2006, p.670) ao comentar uma visita do naturalista Saint-Hilaire, a um fazendeiro, no início do oitocentos, afirma que a mulher e filha do visitado não apareceram ao visitante, mostrando que a mulher, mesmo escondida e guardada, estava sempre  sob suspeita, que era tida por  Ânfora do Mal e Porta do Diabo (ibidem, p. 671)
Assim, parece crível encarar a escrita feminina como invisível, oculta e, dependendo do período e do lugar onde esta escritura circulava, também, “pecaminosa”.
Para um historiador há a preocupação de salvar o passado no presente, de modo que ele não desapareça, ou seja, esquecido, mas, também, de transformar o presente pela possibilidade de, conhecendo o passado, reconhecê-lo ou reinterpretá-lo, nas linhas do tempo atual. Por que o interesse da História para revelar a luta da mulher para a emancipação do gênero[2] feminino a partir das escrituras deixadas por elas na imprensa?
Desde os anos 1990 do século XX, provavelmente pelas muitas mudanças ocorridas no mundo em todos os sentidos (das tecnológicas às ideológicas), houve preocupação de expor a história das mulheres. Não só a história das mulheres que, individualmente, foram vanguarda de seu tempo e, por isso, foram, provavelmente, selecionadas para compor o acervo do estudo biográfico de gênero. Mas as mulheres comuns. Aquelas que, caso sejam citadas, o são sem maiores detalhes de sua condição social, de sua filiação a uma causa. As mulheres que a história anterior aos Analles[3] não nomeava porque, se existiam de fato, não existiam para a História.

A maneira pela qual esta nova história iria, por sua vez, incluir a experiência das mulheres e dela dar conta dependia da medida na qual o gênero podia ser desenvolvido como categoria de análise. (SCOTT, 1995,p.73)

Meyer (2009) ao explicar o fim da memória para, deste modo, analisar as novas formas de historiar que, sem deixar de ser “rigorosa e científica”, tentasse, pelo menos, ser mais acessível e, por que não, também mais livre (p.32), a partir dos anos 1970, diz que esta não seria uma nova forma de

buscar a verdade, mas de atender, escutar e observar as diferentes verdades que provocavam o anseio de compreender a nós mesmos, em nosso duplo desempenho como historiadores e protagonistas (ibidem).

Para Albuquerque Jr (2007) os historiadores deixam que medos, e até recalques, os impeçam de admitir a existência de uma dimensão literária, em seu ofício (p. 143) mostrando que tal característica, se manifesta apenas no estilo escolhido por eles ao discorrer, ou narrar, sobre seu objeto.  Ainda assim, com tais dificuldades, com ou sem a presença da literatura, a crítica feminista vem aparecendo, desde antes do século XIX, nos discursos, na escrita e nos debates, provocando preocupação na sociedade ocidental elitista, branca e masculina, com as possíveis distorções sociais que poderiam daí resultar.
O passado pressiona para ser visto e revisto, exige novas explicações e nos impõe visitar os arquivos e passar a História a limpo. (RAGO, 1996, p.15)

As revistas ditas femininas são, pois, uma fonte valiosa para a busca de indícios sobre o papel da mulher e sua emancipação. Estes periódicos, que tiveram por público-alvo as mulheres urbanas, nem sempre foram escritos por mulheres, e, quando o foram, adequaram-se ao que se desejava fosse lido pelas mulheres: cuidados com o lar, com os filhos, a moda europeia, conselhos culinarísticos, anedotas de salão e bastante ilustração, seja por desenhos, por fotos, por charges que eram explicitadas em poucas palavras para aquelas a quem o acesso à educação elementar sequer chegara. A importância da ilustração era fazer entender o texto, independente de poder ser lido, porque à mulher não era dado a oportunidade de educar-se além daquilo que a família, a casa e o marido necessitavam.
As demais publicações de mulheres existiram, no século XIX, a partir de iniciativas individuais bancadas por elas próprias, ou com rendas de pais, ou maridos. Estas publicações, em sua maioria, eram literárias, apresentando ao público leitor qualidades que a família e amigos conheciam, e eram expostas, nos entretenimentos da casa.
Nísia Floresta, por exemplo, em iniciativa individual, publicou, em 1853, o Opúsculo Humanitário onde clama ao liberalismo brasileiro, o que era incomum à mulher, fugindo a dotes literários a serem publicizados:

Onde está a doação mais importante dessa civilização, desse liberalismo? Em todos os tempos, e em todas as nações do mundo, a educação da mulher foi sempre a das mais salientes características da civilização dos povos. (p.3)

Não era um brado feminista[4], mas um brado feminino, de uma mulher culta, que embora tenha lutado pela abolição dos escravos e pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, estava, provavelmente, fortalecida em suas convicções pela leitura e 'tradução livre' da obra Vindication of the Rights of Woman, da escritora inglesa Mary Wollstonecraft que a publicara nos Estados Unidos (VASCONCELLOS e SAVELLI, 2006, p.89). Nísia era uma mulher incomum: viajada e erudita, que fugiu do estereótipo das mulheres de sua época escrevendo quinze livros, que provavelmente editorava, que englobavam direitos femininos, abolicionismo, cuidados maternais, narrativas de viagem e pensamentos. Ainda que numa narrativa feminina, defendeu questões emancipatórias da mulher, indo, além disso, ao externar sua posição política quanto à abolição da escravatura.
Neste aspecto, as ações feministas sem uma associação feminista que as representasse quanto aos ideais de igualdade de gêneros, no início do século XIX, faziam calar ou desqualificar, na época, as poucas iniciativas individuais. Para atingir este objetivo foi criado um imaginário social, não panfletário, o que produziu, de certo, embates, mas um imaginário voltado ao hilariante e à histórica “incapacidade física e mental da mulher”. Essa “incapacidade” surge pelo tratamento tradicionalmente dado ao sexo feminino, não pela verdade da assertiva, o que até hoje, três séculos depois, ainda se manifesta como verdadeira. E a imprensa da época foi pródiga ao aderir a este estereótipo, através das charges, às sátiras que ironizavam as reinvindicações femininas e a explicá-las, em palavras, para quem sabia ler.[5]


Imagem 2 A Emancipação da Mulher
(Bico de pena de Bordallo Pinheiro)
Fonte: Periódico O Diabo a Quatro, de 23 de março de 1879.



De mulher para mulher      


[...] escrever num contexto como esse também foi uma tarefa árdua [para as mulheres], uma vez que deveriam para isso quebrar padrões socialmente estabelecidos para o sexo feminino. Entretanto, nota-se, nessa mesma época, a atuação de mulheres no campo das letras [...] mostrando que, ao usar a sua escrita com o objetivo de conquistas, essas mesmas mulheres tiveram que enfrentar uma sociedade que não via com bons olhos o envolvimento delas nas ações em torno da política ou algo do gênero (PRIAMO, GONÇALVES E NOGUEIRA, 2008, p.183).


Em meados do século XIX, quando se tem os primeiros registros do tema[7], seja de forma literária, seja jornalisticamente, as pouquíssimas mulheres a dirigir-se às demais mulheres pela imprensa usavam argumentos do sexo oposto, de submissão social, de controle da família e do lar e de obediência ao marido, como chefe e senhor da família ou usavam, como no trecho a seguir, matéria irônica sobre a emancipação feminina. Esta matéria, transcrita de uma revista também dirigida às mulheres, apresenta ironicamente a independência de que a mulher burguesa desejava, a de escolher o próprio vestuário, ainda que atendida a saúde, a conveniência, a comodidade, o anseio e a elegância, como era de “bom costume”:

Há pouco temo celebrou-se em Nova-York uma reunião singularíssima composta exclusivamente de indivíduos do sexo feminino [...] Depois do discurso da presidente explicando o fim daquella reunião, lerão-se e approvárão-se as seguintes resoluções:
Considerando que a maneira actual de vestir as mulheres é contraria ao que demanda a saúde, a conveniência, a comodidade, o anseio e a elegância; Considerando que a maneira actual de vestir é de origem estrangeira e oferece graves inconvenientes a nossas compatriotas com obrigações indignas de uma sociedade livre.
Esta assembleia resolve:
Que se recomende e adopte um traje que nos ponha a coberto do incommodo e opressão do que atualmente vestimos [...] (Novo Correio de Modas[8], 1852, p.13, artigo Assembléa Revolucionaria Americana-Feminil)[9]


As revistas de “senhoras” no século XIX, foram, dentre outras, O Domingo (publicada no Rio de Janeiro, em 1874), por Violante Ataliba de Bivar e Velasco; Belo Sexo (publicada no Rio de Janeiro, em 1862), dirigida por mulheres, que não se escondiam no anonimato assinando suas matérias, e escreviam sobre literatura; Eco das Damas (publicada no Rio de Janeiro, em 1879), propriedade de Amélia Carolina da Silva Couto. Em outros lugares, fora da Corte, havia também revistas femininas, dentre elas: em Minas Gerais, em 1873, Senhorinha Motta Dinis dirigiu o periódico O Sexo Feminino; em Recife, em 1831, Dulcília Buitoni publicou o Espelho das Brasileiras (MARTINS, 2008, p.373)
O primeiro número de A Faceira, de 1911, uma publicação do início do século XX, mostra a preocupação de “falar pela mulher” de uma revista que circulava em caro papel couché, de  "propriedade de uma associação" e que trazia, no expediente de cada fascículo editado, a seguinte relação de colaboradores: as "senhoritas": Leonor Posada, Cecília Pimentel Aguirre, Violeta Motta, Hermance de Aguiar, Julieta Accioli, Elda de Moraes Cardoso e Carmen das Dores; os "senhores": Angelo Tavares, Ataliba Reis, Alvarenga da Fonseca, Hermes Fontes, Silveira da Motta, Da Veiga Cabral, Ricardo de Albuquerque, Deoclydes de Carvalho e Lupercio Garcia.
A Faceira tinha instalada sua redação no primeiro andar da rua dos Ourives número 50, logradouro que começava, então, na Igreja de Nossa Senhora do Parto e ia até o morro da Conceição, lá pelo Caminho do Parto para Conceição, denominação que desde o oitocentos ostentava.   Os cargos de redator-chefe d’A Faceira eram de Xavier Pinheiro, José Carvalhaes Pinheiro e Romulo Batista exercendo, respectivamente as funções de diretor e redator secretário. Era uma publicação mensal "com a pretensão de passar a quinzenal" (1911, nº 1, p.1), dirigida por homens, com a colaboração de algumas mulheres. Era vendida ao preço de 1$500, o seu número avulso, e sua assinatura custava, por 12 meses, 15$000. Não era uma revista barata, ainda que com boa circulação, para as leitoras, as senhoras citadinas da elite.
Em seu primeiro editorial, esta revista feminina fez sua apresentação ao público enfatizando o que, pelos “bons costumes”, deveria interessar a mulher urbana:

Ei-nos diante de uma difficil tarefa: escrever o artigo de apresentação e dizer o nosso programma. Apresentarmo-nos? Mas como?... De que modo nos cumpre falarmos ao mundo feminino, de cujos interesses nos propomos tratar, nesta revista que se dedica à vida elegante, à vida chic da nossa urbs? […] Rebuscando phrases, burilando periodos, procurando idéias, numa lucta sem treguas, conseguimos por fim encontrar quatro palavras que synthetisam o nosso programma. Eil-as: - um culto a mulher! São esses os nossos fins, os nossos escopos, o nosso rumo. (Editorial A Faceira, nº 1, 1911, escrito pelo redator-chefe não nomeado)

As revistas femininas[10] do século XIX e início do XX induziam as leitoras a tê-las como amigas e confidentes, o que fica visível pela correspondência que as revistas recebiam, que até enviavam ao endereço da leitora respostas particulares, como no caso da Revista Feminina, publicada de 1914 a 1936 (LIMA, 2007, p. 233), ou noticiavam as respostas das questões encaminhadas pelas leitoras em espaços pré-determinados do periódico. Existiam matérias sobre culinária, moda, literatura, orientações para esposas e mães. Enfim, através de gravuras, e depois fotos, à medida que as gráficas se modernizavam, as mulheres urbanas tinham suas próprias revistas que apresentavam, e buscavam resolver, suas necessidades dentro do lar. Essas revistas, poucas escritas por mulheres, coexistiam com revistas escritas por homens, para as mulheres. Nestas últimas, contraditoriamente, veiculavam-se informações sobre o sufragismo[11] e protestos contra os crimes que atingiam as mulheres (LIMA, 2007, p. 234).
Mas, mesmo adotando os mesmos argumentos que caracterizavam o poder de um gênero sobre outro, nota-se que a mulher, especialmente a de uma burguesia que aparecia com o capitalismo, começava a questionar sua condição. Inicialmente pela visão do próprio corpo, que ainda estava vinculado à higiene e a estética. Depois, pelo acesso à educação, que não se desejava fosse apenas para “adornar a sala” durante as visitas ou saraus que comumente se fazia.
Dois discursos feministas aparecem então: o discurso elitista, da mulher burguesa, que aqui representamos nos periódicos femininos através de matérias que enfatizam o cuidado com a aparência, de seu papel enquanto mãe e mulher e outro, da preocupação com a ascensão social, em outro discurso, diferenciado, sem acesso a uma revista própria, e que encontrava apenas pequenos espaços em periódicos masculinos. Era o espaço da mulher trabalhadora, anarcosindicalista do final do oitocentos e início do século XX. São preocupações diferentes, que, ao longo do tempo, vão convergindo, e onde a educação passa a assumir relevante papel na diferenciação do gênero feminino.
            Levando em conta as ideias europeias que vieram junto com o aumento do fluxo migratório na cidade do Rio de Janeiro, o trabalho, especialmente o fabril, passa a compor as necessidades das mulheres, expressas pelas anarquistas, socialistas e sindicalistas, lastreadas pela vida que levavam nos seus países de origem. Com o trabalho[12] entrando na pauta reivindicatória, as prerrogativas na luta pelos direitos concedidos ao sexo masculino tomam vulto e com elas a educação, que se fazia necessária a mulher, para participar efetivamente da vida social e de trabalho, em igualdade de condições.

Instruindo-vos, podereis instruir os vossos filhos e impedir que sejam depois vítimas como vós do injusto sistema social em que vivemos. Compreendereis que a pátria é uma ilusão; que vossos filhos nenhum dever têm a cumprir para com ela: [..] (MAGRASSI, Matilde. Proletárias, instrui-vos,17.01.1904)


            As anarcosindicalistas não tinham um espaço próprio para divulgação de suas ideias. Compartilham o mesmo periódico dos homens, assinando seus artigos ou comentários. Edgard Rodrigues (1997) cita Maria de Oliveira, em 1903, como uma das dirigentes da revista anarquista O Trabalhador, com sede à Rua  do Cotovelo, 17-B.[13]
Com o capitalismo e o incremento da imigração, especialmente na cidade do Rio de Janeiro, capital da República, cresceu o número de vagas para mulheres nas indústrias insipientes e nas manufaturas que se modernizavam, especialmente na indústria têxtil.
Surgiram, com a Reforma Rivádavia Corrêa, os primeiros cursos que profissionalizam mulheres. Enquanto toda esta transformação ocorria, também as greves se multiplicavam, arregimentando mulheres e provocando embates pela imprensa, de um lado e outro, opondo gêneros e dividindo opiniões, mas, ao mesmo tempo, dando maior visibilidade às reivindicações femininas através da imprensa, nos jornais, de tal sorte que, não só revistas femininas abriram espaço ao discurso feminino. O discurso das mulheres, inicialmente dividido pela pauta de reivindicações das camadas sociais, se aproximou, por colocar a educação como imprescindível para os gêneros, indistintamente. Importante assinalar que, também os jornais editados por homens, especialmente na classe mais pobre, contribuíram dando espaço para escritas femininas, ainda que um espaço pequeno e não consecutivo, às mulheres proletárias que desejavam manifestar-se.

Conclusão

            As revistas femininas cumpriram um relevante papel no movimento de emancipação feminino: levar a um maior número de mulheres suas necessidades na representação do papel da mulher existente, proporcionando que começassem a pensar e a andar fora do espaço físico do próprio lar. Nem sempre as revistas para a mulher, conquistando-as através da cumplicidade ao conhecer e tentar resolver seus problemas e sugerir soluções, eram escritas por mulheres.
            Tais periódicos tinham por objetivo circular a revista, aumentando a quantidade de exemplares, em nicho ainda pouquíssimo explorado: o das mulheres. Até porque a grande maioria das mulheres não sabia ler. Não podemos esquecer que a maioria destas revistas existe a partir mulheres que desejavam ampliar seus conhecimentos e resolver problemas da casa, mas existe, também, através de iniciativas femininas de mulheres que, por saberem ler, ampliavam o espaço da casa e faziam questão de opinar, como Nísia Floresta. Ela não foi a única. Antes e depois dela outras mulheres, em iniciativas individuais, foram criando um nicho comercial que, a princípio, foi percebido e ocupado pelo homem que escrevia por mulheres e para mulheres.
            
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[1] Doutoranda em Educação da linha de pesquisa História, Instituições e Práticas Educativas do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
[2] Os/as historiadores/as precisam [...] examinar as formas pelas quais as identidades generificadas são substantivamente construídas e relacionar seus achados com toda uma série de atividades, de organizações e representações sociais historicamente específicas. Não é de se estranhar que as melhores tentativas neste domínio tenham sido, até o presente, as biografias [...] (SCOTT, 1995, p.88)
[3] Estou me referindo, especificamente, aos novos campos de estudos da História que incorporaram novos objetos e, por consequência, constituíram “ novos territórios do historiador” (CHARTIER, 2002, p. 14).
[4] Considero feministas ações coletivas, por instituição ou grupo, que representassem o gênero feminino e, femininas, as ações individuais, tomadas por mulheres de vanguarda, do oitocentos ao  novecentos, recorte deste artigo.
[5]  É parâmetro para as reflexões que faço o discurso da imprensa, tal como o entende Ferreira (2010, p.2) “como espaço sócio histórico em que se articulam o poder e as transformações sociais, partícipe ativo da construção das identidades culturais e da memória social .”
[6] (À esquerda) E este... coitadinho deixando-os em paz para engordar o peru da madame. Não se parece morto com o Escarmentado de Voltaire? (À direita) Esta é a mulher do boudoir, a mulher das ruas que passa pelo templo, a mulher dos comícios e das academias, a sabichona, a preciosa ridícula, a mulher emancipada. Às vezes, em solteira, mademoiselle Giraud, depois de casada Madame Bovary e quando viúva, Helene d’une page d’amour. Synthese: a macaca no paiz de Nod. (obedecida a grafia original do periódico)
[7] Segundo Lima (2007, p.222)  Dulcília Buitoni, em seu livro Mulher de Papel, uma das precursoras da pesquisa deste tema, fez referências aos primeiros prováveis periódicos femininos  como sendo O Espelho Diamantino, de 1827 e Correio das Modas, de 1839.
[8] Esta revista foi publicada pelos irmãos Laèmmert, de 1852 a 1854. Tinha inúmeros colaboradores homens. Voltado ao público feminino, o jornal buscava tanto a edificação moral de suas leitoras, quanto seu entretenimento. Em nota publicada no Diário do Rio de Janeiro, de 18 de dezembro de 1838, para anúncio desta publicação, o texto publicitário era: “ jornal litterario e critico de modas, bailes, theatros, etc., contendo artigos sobre as modas, novellas escolhidas originaes e traduzidas, poesias, anedoctas, charadas, etc. Cada n. impresso em bom papel será ornado de uma magnífica estampa colorida. Preço da assignatura por 4 mezes $5Uooo”. (p.1) De modo geral além de moda, publicava folhetins de outros países, de modo geral omitindo o nome de colaboradores, mas nomeando autores estrangeiros.
[9] Adotada a grafia original do documento.  
[10] No início do século XX, pelas modernas instalações gráficas que aqui chegaram,  houve maior tiragem de periódicos. Até aqueles que não se diziam feministas, ou tinham pretensão de sê-lo, exibiam seções dedicadas às mulheres como Fon-Fon (Rio de Janeiro, 1907), Cigarra (São Paulo, 1914) e Revista da Semana (Rio de Janeiro, 1901). Ver MARTINS, Ana Luiza. Revistas em revista. São Paulo; Ed. Da Universidade de São Paulo/FAPESP, 2008.
[11] O sufragismo não era uma relevante questão no Brasil, pois devido ao voto censitário primeiro (só podiam votar, e ser votados, nobres, burocratas, militares, comerciantes ricos, senhores de engenho e homens de posses, mesmo analfabetos) e o voto de cabresto (em 1904, a Lei Rosa e Silva estabeleceu que, além do voto inserido na urna, outro seria preenchido, datado e rubricado pelo fiscal eleitoral, o que gerava intimidação ao eleitor -homem­- para escolher seu candidato e facilitava o “voto de cabresto” onde o “coronel” determinava em quem votar), o que impossibilitava, até ao homem, o direito do voto. Ver LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto. São Paulo: Companhia das Letras, 2012; NICOLAU, Jairo Marconi. História do voto no Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda, 2004.
[12] Havia preponderância da mão-de-obra feminina e infantil  nas fábricas de tecido, como as estatísticas sobre o trabalho retratam  nos primeiros anos do século XX. São trabalhos conhecidos sobre o tema, dentre outros, os estudos de  Rago (1985, 1997), Perrot (1988), Hobsbawm (1979), Nogueira (2004).
[13] Com Maria de Oliveira dirigiram o periódico Motta Assunção, Guarani e Elísio de Carvalho. Edgard Rodrigues (1997) afirma que esta revista surgiu da influência do periódico A Greve, criado no mesmo ano de 1903, por Elísio de Carvalho.
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