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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Alcazar Lyrique: um teatro polêmico no Rio de Janeiro do século XIX




Ilmo. Exmo. Sr. Dr. Chefe de Polícia.

Tratado sempre com a maior delicadeza por V. Excia., que se torna distinto pelas suas maneiras atenciosas para com todos os que têm a honra de conversar com V. Excia., deveria ir pessoalmente procurá-lo para pedir-lhe um grande favor a bem da nossa sociedade; mas os contínuos afazeres, a que me entrego diariamente, privam-me desse prazer, e por isso lancei mão do meio mais fácil, e rápido, de comunicação, dirigindo-lhe esta carta, que, espero, será, cuidadosamente lida por V. Excia., a quem não falta bom senso e moralidade para decidir o que for mais compatível com os nossos usos, costumes e educação.

Há nesta cidade do Rio de Janeiro um estabelecimento, onde, todas as noites, por entre baforadas de fumo e de álcool, se vê e se ouve aquilo que nossos pais nunca viram nem ouviram, embora se diga que é um sinal de progresso e de civilização. Chama-se esse estabelecimento — Alcazar Lírico.

Apesar de velho, não sou carranca e retrógrado, e sei aplaudir todas as novidades que o estrangeiro nos traz, passando pela alfândega do bom senso, ou mesmo por contrabando, contanto que tenha uma capa de moralidade; mas quando essas novidades aparecem no mercado avariadas e cheias de água salgada, fico indignado, pergunto aos meus botões em que país estamos, convenço-me de que somos, na verdade, tidos por selvagens hotentotes, e imploro a Deus para que ilumine as cabeças que nos dirigem, a fim de que apliquem o ferro em brasa, na ferida, que começa a chagar-se pelo veneno que lhe inoculam.

Falo com esta franqueza, porque estou escrevendo a um magistrado morigerado e honesto, cujo principal desejo é bem merecer de seus concidadãos pelos seus atos de virtude e de rigorosa justiça. Enquanto se proibia a todos os teatros de brasileiros — representações nas sextas-feiras da quaresma e na véspera e no dia de Ramos, consentia-se que o Alcazar tivesse o salão aberto para moralizar o bom povo, que o freqüenta! Se
não há injustiça neste procedimento, seja de quem for, há pelo menos falta de equidade, que só redunda em proveito do francês, contra os brasileiros, que vivem na maior miséria, esmolando da concorrência dos seus teatros o pão quotidiano. V. Excia. dignar-se-á de explicar-me como se pode dar esse fato?

Rogo ainda a V. Excia. o especial obséquio de freqüentar essa casa de educação, não se contentando em mandar inspetores de quarteirão e mesmo o respectivo subdelegado. V. Excia. é um homem ilustrado, que conhece perfeitamente a língua francesa, e não só terá belas noites de divertimento, como fará um
relevante serviço à sociedade em que vive, e onde tem milhares de relações com todas as famílias decentes e honestas do Rio de Janeiro, as quais, por uma infelicidade do empresário, nunca encontrará nessa Academia.

Desculpe V. Excia. a ousadia de escrever-lhe esta carta, e permita que, d'ora em diante, lhe dirija muitas outras a respeito do meu protegido Mr. Arnaud e do seu especial e inimitável estabelecimento.

Por agora, contento-me com os pedidos acima feitos, esperando que não serão as minhas palavras atiradas ao vento.

Aqui me tem V. Excia. sempre pronto a cumprir as suas ordens como quem, com todo o respeito e consideração, é

De V. Excia. amigo, afetuoso e obrigadíssimo criado

Dr. Semana.
(MACHADO DE ASSIS,1864 apud MENDES, IBA. Machado de Assis Crônicas Completas, 2014, p.96-97)



            Ao ler essa crônica de Machado de Assis, originalmente publicada na Semana Ilustrada, fiquei curiosa. Fui pesquisar na internet o que seria o “estabelecimento” contra o qual, com sua fina ironia, desancara Machado em carta pública ao Chefe de Polícia.
            Descobri inicialmente um site[1] sobre antigos teatros da cidade do Rio de Janeiro que dava o endereço (Rua da Vala), data da inauguração (1959) e o nome do proprietário (Arnaud), além de muito boa bibliografia para quem se interessasse pelo objeto. Mais pesquisas levara-me ao projeto de pesquisa de pós-doutoramento, na PUC/SP, de minha ex-professora de História Contemporânea na UERJ, Lená Medeiros de Menezes[2]: “(Re)inventando a noite: o Alcazar Lyrique e a cocote comédiénne no Rio de Janeiro oitocentista”, publicada na Revista Rio de Janeiro, daquela universidade. Achei, também, artigo da mesma autora “Aimée, a Cocotte Comedienne e o toque feminino francês na noite carioca”, que complementa o artigo da Rio de Janeiro, oferecendo mais informações sobre a estrela do Alcazar, Louise Aimée.
         O Alcazar Lyrique teve os seguintes nomes entre 1866 e 1880: Théâtre Lyrique Français, Theatro Francez, Alcazar Lyrico Fluminense e Alcazar Fluminense. Era uma iniciativa privada, tendo sido idealizado pelo artista francês Joseph Arnaud, proprietário e empresário que pretendeu dar à casa de espetáculos a feição dos cabarés de Paris..
De acordo com o Jornal do Commercio de 17/02/1859, o teatro foi inaugurado com o seguinte repertório: "Ouverture; 1ère Partie: - Adieu, M. Lamoureux, chansonnette par Mlle. Adèline; - Le cabinet de lecture, scène comique par M. Amédée; - Un prince auvergnant, duo-comique par Mlle. Julie et M. Triollier; - La faurette du canton, par Mme. Maire; Le chat de Mme. Chopin, scène comique par M. Germain; Le vieux braconier, chansonnette par M. Amédée; - Air de Galathées, par Mme. Maire. 2ème Partie: 1ère présentation de "La perle de la cannebière", vaudeville en 1 acte de Marc Michel et Labiche. Distribution: Beautandon - MM. Amédée; Godefroid, son fils - MM. Triollier; Antoine, domestique de Beautandon - MM. Germain; Georges, domestique de Thérèson - MM. Alexis; Thérèson, macasse marseillaise - MMmes Céline Dulac, Mme. de Ste. Poule, Mmmes. Adèline Morand; Mme. Blanche, sa fille - MM. Julie Conjeon. O preço do ingresso de entrada foi, segundo o periódico, 1$.
Figuram depois como proprietários do teatro, além de seu primeiro dono,  D. Izabel (que deu nome ao estabelecimento, a partir de 1877), Antonio Gomes Neto e Lucinda Chabaud. Luis Ribeiro de Souza aparece como proprietário noRequerimento 50-2-60 de 15/02/1879. Após o falecimento de J. Arnaud, o teatro foi vendido pela viúva para o Capitão Luis de Carvalho Rezende em 1880[3].
Explica a professora Lená que o Alcazar Lyrique era um teatro de variedades, nos moldes do teatro criado por Offenbach[4] em Paris, onde a  plateia era uma participante da apresentação. A estrela da casa era Louise Aimée, uma cocotte comedienne[5], que parecia encantar a tantos quantos a vissem e, chocar outros, como Machado de Assis.
            Em seu artigo, Lená apresenta o Alcazar Lyrique como uma expressão burguesa da Paris de Napoleão III (período das reformas de Haussmann) e das Exposições Internacionais: o moderno ininterrupto e a consolidação das Ciências e da Indústria. As cocotes eram, então, a expressão dos tempos modernos que Paris irradiou pelo mundo e, no Rio de Janeiro, que se urbanizava a céleres passos, situava-se na Rua da Vala[6], números 43, 45, 47, 49 e 51.
            O teatro Alcazar era polêmico, e o escritor Joaquim Manuel de Macedo[7], que dele não gostava, como Machado de Assis, o considerava “satânico” porque era “o teatro dos trocadilhos obscenos, dos cancãs e das exibições de mulheres seminuas”[que] que ”corrompeu os costumes e atiçou a imoralidade”, [determinando] o “a decadência da arte dramática e a depravação do gosto”. (MACEDO, 1988, p. 142 apud MENEZES, 2007, p. 77)
            Gastão Cruls, médico e editor, também crítico tenaz do estabelecimento, segundo texto dele próprio, que Lená nos apresenta (p.74), denigre o estabelecimento com ásperas palavras:

[...] os velhos babosos, os maridos bilontras e a rapaziada bordelenga se davam rendez-vous todas as noites, para rentear as atrizes brejeiras e as cupletistas gaiatas que degelavam os mais idosos e rescaldavam os mais moços. (Cruls, 1965, p. 553)[8]


            E eu fiquei me perguntando se, sendo um teatro tão polêmico, porque teve tantos nomes? Por que durou tanto? E, lendo os textos de Lená verifiquei que faziam sucesso, porque esse teatro transgressor era “a moda de Paris” nos trópicos. E quem não queria ser moderno naquela época?
            E a própria Lená acrescenta à minha percepção sobre o porquê do sucesso, no texto sobre Aimée:
[...] as artistas do Alcazar tornaram-se símbolos emblemáticos de um novo viver urbano, no qual as artistas do teatro de variedades tomavam os palcos, invadiam as ruas e difundiam a moda para além dos limites de seu “meio mundo”; estrelas incontestes de um novo gênero teatral: leve, divertido e condizente com tempos nos quais trabalho e lazer travavam uma nova dialética[...] (MENEZES, s/d, p.2)[9]

            O teatro desaparece em 1877 devido à nova denominação. E, ao término desse escrito sobre o Alcazar, deixe-me confessar-lhes: Gostaria de ter ido lá, visto o vaudeville, e conhecido Aimée!



[2] Atualmente Professora Titular de História Contemporânea da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP).
[3] Dados do site Teatros do Centro Histórico do Rio de Janeiro.
[4] No período Haussmann (final do século XIX) como prefeito de Paris, Offenbach aproveitou o momento em que os espetáculos teatrais exploravam usavam o humor ácido para divertira as pessoas  levando inúmeros parisienses à plateia e criou o can-can (tema musical da opereta Orfeu no Inferno), onde mulheres quase despidas (o que para a época era moralmente condenável) dançavam e cantavam com a ajuda dos espectadores.
[5] Que hoje diríamos ser uma mulher bonita, jovem e disponível de origem francesa, que atuava como comediante.
[6] Depois Uruguaiana. A rua da Vala tinha essa denominação porque neste terreno havia um escoadouro das águas da cheia do rio Santo Antônio, pertencente ao Convento do mesmo nome.
[7] 1820-1882. Autor de A Moreninha, era médico de formação. Foi jornalista, escritor e professor.
[8] CRULS, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro. Notícia histórica e descritiva da cidade. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965.
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