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quarta-feira, 14 de junho de 2017

As antigas ruas do Rio



Beco do Guindaste
Os jesuítas, para fazer as obras de construção do colégio, ergueram um guindaste para carregar as pedras neste espaço, que recebeu do povo o nome de beco (ou travessa) do Guindaste, Conta Berger (1974) que, em 1783 para Travessa Doutor Costa Velho homenageando o intendente municipal Dr. José Mariano da Costa Velho (p.46)


Eu amo a rua [...] A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço.[...] A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, para ela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste, quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões — tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguearcom o céu e com os anjos...(JOÃO DO RIO,1908)

Em tempos que os habitantes de nossa cidade não mais têm voz audível e perdem a cidade em que nasceram ou vivem para o descalabro da administração municipal e estadual, para a violência que torna nossas belas e antigas ruas impossíveis de flanar com o fazia João do Rio, lembro de antigos tempos de ruas que não chegamos a conhecer com nomes poéticos, escolhidos pelo povo.
As ruas do Rio, na época da colônia, recebiam o nome de seu morador mais ilustre, ou de quem ali exercia seu ofício, ou ainda da igreja, ou outro prédio, que a diferenciasse, ou de algo que a pudesse caracterizar das demais. Desse modo tivemos (e algumas dessas ruas ainda existem): a Ladeira da Misericórdia, a rua do Ouvidor, o Beco dos Barbeiros ( que liga a Rua Primeiro de Março à Rua do Carmo), a rua dos Açougues do Frade Bento, rua da Botica de São Bento, a rua da Valinha, Travessa de Santa Rita, Travessa Aguiar (aberta em terras de João Antônio Pereira de Aguiar), .
No Império, foi o Senado da Câmara, posteriormente transformado em Câmara Municipal, a instituição responsável por nomear os logradouros da cidade que crescia. Com o regime republicano de 1889, passa o Conselho da Intendência Municipal a ter tal atribuição, depois substituída pela Câmara de Vereadores, que mantém a atribuição até hoje. Desde sempre, no entanto, existe a mudança de nomes, de um para outro, sem razão, ou com razão específica. Assim, conta a memória coletiva da cidade que se o nome “não pegasse”, o que na linguagem popular significava ser de uso difícil ou inapropriado, a nomeação não era aceita e o nome trocava.  Lembra Brasil Gerson (1965) que Artur Neiva[1], ao conversar com um australiano sobre o Brasil, sobre a diferença havida entre o falar e o escrever, disse-lhe:
“- Pois no Rio de Janeiro o nome da rua principal, escrito nas placas, é Moreira César: aqui está nos meu apontamentos. Mas para todos os brasileiros a sua pronúncia é Rua do Ouvidor...” (p.49)


Beco de João Batista
Entre as ruas dos Andradas, Teófilo Ottoni e Larga de São Joaquim, na “ilha seca”, que era um trecho antes dos alagados da rua do Ouvires. O nome homenageia o médico francês João Batista [ que provavelmente era Jean Baptiste] Darrrigue, introdutor da cultura do anis no Rio de Janeiro, que ali residia (BERGER, 1974, p. 71).

Historiadores que voltaram seu estudo a essa temática dos nomes das ruas do Rio, como Vieira Fazenda (1921)[2], Brasil Gerson (1965)[3], Berger (1974)[4], e outros, oferecem um panorama nostálgico dessas ruas que acreditava João do Rio, nosso cronista maior, tinham “alma encantadora”.
Embarcando na onda nostálgica de João do Rio, relembro alguns logradouros de que, possivelmente, a maioria dos cariocas nascidos aqui, ou morando aqui (e logo adotados por essa cidade acolhedora) nunca ouviu falar.

RUA DOS AÇOUGUES DO FRADE BENTO – Estudada por Vieira Fazenda (1921) que comenta que o logradouro recebeu a denominação entre 1682-1685 quando para ali foi transferido o Açougue do Frei Bernardo de São Bento. Sua extensão ia da “primeira cerca do Mosteiro ao fim da Rua dos Quartéis, ao lado do riacho da horta”. Foi aberta em 1615, pelo Abade Frei Bernardino de Oliveira, no terreno do Mosteiro de São Bento. Com a construção de quartéis ao pé do morro de São Bento, recebeu o nome de rua dos Quartéis ou rua dos Quartéis da Armada.
BECO DOS BARBEIROS – Foi aberta em 1755 quando se iniciou a construção da Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Logo ali passaram a concentrarem-se os negros barbeiros ambulantes que tinham por ofício barbear, sangrar e cuidar dos dentes. Faziam parte os barbeiros de organizada corporação que tinha até uma banda de música. Conta Berger (1974) que instavam-se em barracas nas proximidades do Largo do Palácio e depois juntaram-se no Beco que recebeu o nome do ofício que desempenhavam. De 1938 a 1946 recebeu a denominação de Travessa dos Barbeiros. O nome de Travessa Onze de Agosto foi dado pelo Decreto 845 de 1 de janeiro de 1946, evocativo 1827, quando instituíam os cursos jurídicos no Brasil. Somente em 1965, na gestão do Governador Carlos Lacerda, retoma o nome original, que ainda mantém atualmente, de Beco dos Barbeiros.
LADEIRA DA MISERICÓRDIA – Começava no Largo da Misericórdia e terminava na rua do Castelo e Ladeira do Castelo. Foi aberta em início do século XVII e ligava o Morro do Castelo à planície. Caminho íngreme já existia no século anterior. O vice-rei Conde da Cunha[5] abriu a ladeira junto à Igreja da Misericórdia que foi denominada, a princípio, de Calçada da Sé porque por ali também se chegava a Igreja de São Sebastião. O nome que o povo adotou e que hoje persiste em pequeno trecho preservado foi Ladeira da Misericórdia.
RUA DA VALINHA – Ligação primitiva entre a Rua da Prainha (atual Praça Mauá) e Rua dos Pescadores (atual rua Camerinos), existia em terreno do Mosteiro de São Bento. Antigo trecho entre a rua dos Ourives (atual Miguel Couto) e rua da Imperatriz (atual Camerino) foi chamado Rua da Valinha porque ali existia uma pequena vala por onde escoavam as águas das chácaras ali existentes. Veio a ser incorporada à antiga rua da Prainha, que muda de nome em 1903 para lembrar o Tratado de Petrópolisque anexou o Acre.



           
           



[1] Nasceu em Salvador, em 1880. Estudou na Faculdade de Medicina da Bahia e concluiu os estudos  no Rio de Janeiro, em 1903. Participou de campanhas de profilaxia da malária e em 1912 realizou viagem científica, percorrendo diversos estados brasileiros. Em abril de 1914, passa a trabalhar na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Foi diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro de 1923 a 1927, e no ano seguinte tornou-se diretor-superintendente do Instituto Biológico do Estado de São Paulo. Em 1931 foi nomeado por Vargas interventor federal na Bahia. Criou o Instituto do Cacau. Elegeu-se deputado federal constituinte na legenda do Partido Social Democrático (PSD) da Bahia. No ano seguinte renovou o mandato na Câmara e o exerceu até novembro de 1937.Cientista reconhecido internacionalmente, foi membro de entidades científicas no Brasil, na Argentina e nos Estados Unidos. Morreu no Rio de Janeiro em 1943.
[2] Ver FAZENDA, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Tomo 86 vol. 140. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1921
[3] GERSON, BRASIL. História das Ruas do Rio. Coleção Cidade do Rio de Janeiro, nº 9. Rio de Janeiro: Prefeitura do Distrito Federal/ Secretaria Geral de Educação e Cultura, s/d.
[4] BERGER, Paulo. Dicionário Histórico das Ruas do Rio de Janeiro (I e II Regiões Administrativas, Centro). Rio de Janeiro: Gráfica Olímpica Ed. Ltda., 1974
[5] Para saber mais sobre o Vice- rei Conde da Cunha ver GONÇALVES, Isabela Gomes. A Sombra e a Penumbra: o vice-reinado do Conde da Cunha e as relações entre o centro e a periferia no Império Português (1763-1767). Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal Fluminense (UFF), 2010

quarta-feira, 8 de março de 2017

De mulher para mulher

Nísia Floresta (escritora, editora)
Hilária Batista de Almeida (Tia Ciata)
Iyakekerê, cozinheira
Esther Pedreira de Mello (Inspetora Escolar)
Cecília Moncorvo Filho (Crysanthème) Jornalista
Cecília Meireles (Escritora, Jornalista)
Chiquinha Gonzaga (compositora)
Clementina de Jesus (compositora e cantora)
Dilma Rouseff (presidente do Brasil)

Clarice Lispector e Carolina de Jesus (escritoras)  





Dandara dos Palmares (guerreira quilombola)





















A mulher, como essas mulheres das fotos, não pede licença para ir onde quer ou fazer o que quiser, não pede desculpas por ser mulher, não se diz inferior a ninguém e já há muito ocupa o lugar de provedora de sua família. A mulher sabe que ninguém a valora, a não ser ela mesma. Mas essa mulher que somos hoje não surgiu agora, não se fez de geração espontânea, não brotou de inteligência masculina. A mulher de hoje foi forjada nas muitas mulheres do mundo e de suas lutas para conseguir ser mulher. Ela saiu dos quartos e cozinhas das casas coloniais onde servia ao seu senhor para adentrar as salas e chegar às ruas, ocupar espaços públicos e privados, chefiar economicamente sua casa, trabalhar em qualquer profissão que escolha e ser, simplesmente mulher. O gênero feminino abandonou a ideia de que mulher é útero e passou a mostrar-se a si, e aos homens, como gênero diferenciado, com útero. Porque ser mãe ou não ser, é escolha feminina, ainda que os homens queiram legislar sobre esse corpo que não têm. A mulher é indelevelmente marcada pelo aprisionamento sofrido ao longo do tempo nos cantos escuros e empoeirados da História humana; pelo aviltamento do jugo masculino que a via objeto servil de cama e mesa; pelo inconcebível descaso que sofreu, e sofre, no deboche, na pancada, na morte. A mulher tem sua História escrita com sangue e lágrimas no corpo e na alma, cicatrizes de gritos, sussurros e discursos de rebeliões, de embates, de silenciamentos que lembram, sempre, que há nela a garra e a força urdida em vários avanços e recuos para ser, apenas, mulher.
Hoje comemoramos a nós e nossa luta diária para sermos tudo o que quisermos, quando quisermos, e com quem quisermos, porque dia da mulher é todo dia, sempre na batalha de recriar-se em um mundo feito por, e para, homens.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Meu Rio de 452 anos.



           





 
 Cristo Redentor, “braços abertos sobre a Guanabara”, liberta minha linda cidade dos grilhões que a impedem de ser maravilhosa como sempre foi!
            Liberta minha cidade da violência que assola suas ruas, becos e praias da violência que impede que possamos vivê-la intensamente!
            Salva-nos de gente que não respeita suas tradições, seu jeito irreverente de ser, seu acolhimento a qualquer um que aqui pise!
            Deixa que vivamos, de novo, nosso estádio símbolo, o Maracanã, nos jogos de domingo a colorir de gente e bandeiras as ruas, os papos de botequim, tornando visível o espírito alegre e feliz, o jeito carioca de ser!
            Permite que entremos novamente pela Floresta da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo, sem medo, a admirar de suas trilhas nosso Rio lindo, e penetrar nos seus caminhos de árvores, bichos, cascatas para respirar o ar fresco que dali sai para uma cidade quente!
            Consente que, do alto da Ladeira da Misericórdia, possamos revisitar sua história, sua luta, sua formação de tanta gente misturada, vinda de tantos lugares, que fez dessa cidade o que ela é!
            Aceita que, junto ao seu marco português, guardado e exposto na Igreja dos Capuchinhos, se louve essa minha  cidade em qualquer rito que se queira, a partir da religião que se escolheu, sem ódios e repartições!
            Acolhe a todos que queiram ver, sentir e viver nossa vida carioca como sempre foi, sem discriminar, sem julgar, permitindo que a convivência nos enriqueça a todos!
            Cuida de nós, seus habitantes, nos morros que circundam nossa cidade e onde, na “porta do barraco sem trinco, a lua fura o nosso zinco e salpica de estrelas o chão”!
            Deixa que possamos, descansar em  nossas “praias tão lindas cheias de luz, [porque] nenhuma tem o encanto que tu possuis, [com] tuas areias, teu céu tão lindo [e] tuas sereias sempre sorrindo”, sem que um arrastão nos perturbe ou que a sujeira nos adoeça!
            Traz de volta seus compositores e pintores que espalharam pelo mundo a beleza de nossa mulata “bossa nova que caiu no Hully Gully”, que no Rio sempre foi a designação da miscigenação de brancos e negros, que encantou Sargentelli, que inspirou Di Cavalcanti e que sempre foi sinônimo de formas generosas e perfeitas que, como as montanhas que nos cercam, são símbolos de sua formosura!
            Tira-nos da ditadura do “politicamente perfeito” que no Rio não somos perfeitos, somos gente espontânea que compra quinquilharias na Praça XV ou na Rua do Lavradio para lembrar dos tempos da Tia Ciata, “ da Praça Onze tão querida, do Carnaval a própria vida”, e onde nosso samba maxixado nascia nos terreiros dos quintais!
            Deixa-nos viver nossas feiras para ouvir a cantoria dos feirantes “vem maluco, vem madame, vem maurício, vem atriz, pra comprar comigo” que são memórias da carne vendida na esquina, do peixeiro que visitava as casas e do leite direito da vaca que a modernidade nos roubou!
            Toma conta de nós porque até quem governa essa cidade hoje não respeita suas tradições e jeito de ser!
Liberta nossa vida de tanto preconceito, “cuidado exagerado” e falta de senso porque “minha alma canta [quando] vejo o Rio de Janeiro[...] teu mar, praias sem fim”!
           
            Por hoje, benção meu pai, feliz, apesar de tanta tristeza, aniversário!
           

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

À São Sebastião padroeiro

Hoje é urgente saudar São Sebastião.
É seu dia! Dia do patrono de uma cidade entristecida e só.



À São Sebastião, padroeiro

Sou carioca, meu santo, e minha cidade do Rio de Janeiro me preocupa.
Ando indignada com minha cidade suja, como se os pequenos papeis, folhas, resíduos de cigarros, pudessem, cada um, tirar de mim a visão da Quinta onde morava nossa realeza, ou o perfil das lindas palmeiras imperiais do Jardim Botânico;
Ando entristecida com nossas lindas praias de areia fininha cobertas de detritos variados deixados por seus frequentadores que usufruem um mar azul esverdeado que em nenhum lugar se vê igual, mas não cuidam do lixo que produzem;
Ando aborrecida porque nossos políticos, que deviam cuidar da cidade, se preocupam cada um, a empregar seus cabos eleitorais e esquecem dessa cidade tão linda, tão confusa, tão complexa!
Ah, meu santo, o Rio sempre foi uma cidade feliz onde todos se misturam em falares diversos e se divertem, e riem, e são felizes. Não nos abandone à tristeza!
Ah, meu santo, olha e abençoa a sua cidade, a cidade que apadrinhou e que é formada por habitantes que olham a cidade com respeito, das linhas de trem que invadem como artéria seu subúrbio exuberante, do alto dos morros que a cercam, da calçada urbana mais linda do mundo.
Olha para nós, meu santo, e deixai-nos de novo ouvir os gritos alegres no Maracanã hoje invadido e abandonado!
Livrai-nos dos perigos das ruas, dos preconceitos!Dos homens mulheres que querem servir-se da cidade, ao invés de serví-la, respeitosa e eticamente!
Dai-nos a alegria de viver nossa cidade amada a qualquer momento do dia ou da noite!
Abençoa a todos nós para que as flechas que desfecharam contra vós não nos atinjam!
Fazei-nos de novo sorrir para e com nossa cidade maravilhosa tão vilipendiada!
Amém!

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

INSTITUTO SECUNDÁRIO FEMININO: “SOB A DIREÇÃO PEDAGÓGICA DA INSPECTORA ESCOLAR ESTHER PEDREIRA DE MELLO” (1909 - 1915)[1]



Heloisa Helena Meirelles dos Santos
Doutora em Educação
UERJ


Resumo

Investigar o Instituto Secundário Feminino, criado pela Sociedade de Estudos Pedagógicos dos Professores do Distrito Federal, em 3 de maio de 1909, sob a direção da pedagoga, inspetora escolar, Esther Pedreira de Mello é o objetivo deste artigo. O educandário, anunciado nos jornais como no título, possibilitava, ao sexo feminino a formação nos cursos secundário e profissional, além de preparação para a Escola Normal e para as Faculdades de Odontologia e Farmácia. Funcionava no espaço no Pedagogium, legitimado pela instituição que o abrigava e pela Direção da Instrução Pública do Distrito Federal, e usava, também, o nome da reconhecida inspetora escolar para divulgar-se. Sem visar lucros, o Instituto recolhia doações das alunas que podiam fazê-lo e trazia, nas professoras municipais, que ali ministravam aulas, secretariavam e dirigiam, o esforço voluntário de mulheres voltadas à instrução. Em seu primeiro ano de trabalhos o educandário contou com trezentas moças em seu corpo discente transformando-se em único reduto na capital brasileira para a educação secundária das moças pobres que desejavam instruir-se, além do curso primário público. A investigação usa por fontes privilegiadas os tabloides da cidade do Rio de Janeiro, do início do século XX, como o Correio da Manhã, A Noite, A Rua, O Imparcial, dentre outros, e o periódico pedagógico O Estudo, órgão de imprensa da Sociedade de Estudos Pedagógicos dos Professores do Distrito Federal, documentos do acervo da Biblioteca Nacional brasileira. Dialoga com Chartier (1990) e Bourdieu (1974) na perspectiva do trato das representações sociais que coloca a criação do Instituto Secundário Feminino como estratégia para o enfrentamento das questões de gênero e do conflito de representações, onde a urbanização, o capitalismo e a modernidade civilizatória tiravam a mulher das tarefas apenas domésticas e da reclusão de lar, para atividades e cargos na sociedade que se modernizava o que incluía poder obter maior instrução.  A pesquisa pretende contribuir para minimizar lacuna historiográfica sobre a instituição secundária para o sexo feminino usado como estratégia para popularizar e difundir a instrução de mulheres, nos primórdios do século XX, na cidade do Rio de Janeiro.

Palavras-chave: Instituto Secundário Feminino; Esther Pedreira de Mello; conflito de representação de gênero.

Estrutura e Organização    

O Instituto Secundário Feminino foi inaugurado em 3 de maio de 1909, pela Sociedade de Estudos Pedagógicos dos Professores do Distrito Federal[2], cuja presidência era da inspetora-escolar Esther Pedreira de Mello[3]. A Sociedade fora criada no 2º distrito escolar, que também era dirigido por essa Esther. O Instituto Secundário teve a seguinte estrutura organizacional: Esther Pedreira de Mello, diretora, responsável pelo processo pedagógico desenvolvido; Maria Joanna Palhares e Maria Soares Vieira, como Vice-Diretoras, responsáveis pela parte administrativa do educandário, e Floripes Anglada Luccas e Adelina Duarte Silva, como secretárias (A Noite, 25 de março de 1916, p.2).
O educandário funcionava com aulas diárias, no horário das três e trinta horas às dezoito e trinta horas, à Rua do Rosário nº 72, 1º andar, no Pedagogium[4], em espaço cedido no 1º andar da instituição.
O Instituto Secundário Feminino não objetivava lucros e tinha nas professoras municipais, que ali ministravam aulas, secretariavam e dirigiam o estabelecimento educativo, um esforço voluntário, provavelmente obtido pela inspetora escolar que dirigia o 2º distrito escolar da Prefeitura do Distrito Federal, onde estavam lotadas todas as docentes, Esther Pedreira de Mello.
            Oferecia o educandário o curso normal, ginasial e preparatório: à Escola Normal do Distrito Federal, à Faculdade Nacional de Belas Artes, ao Ginásio, ao Instituto Nacional de Música e Escolas Superiores da República, de acordo com os programas oficiais (ibidem)de cada uma das instituições. O currículo, orientado por Esther Pedreira de Mello, era composto por: estudo de línguas (português, francês, italiano, espanhol, inglês, alemão e latim); curso completo de solfejo, piano e canto, segundo os programas do Instituto Nacional de Música; ensino de desenho, pintura, datilografia, trabalhos manuais para o sexo feminino (corte, costura, bordado, flores, etc.); curso infantil e primário com programas especiais e, sob a direção das professoras Eulália Pires e Maria José Queiroz , conforme os anúncios publicados nos jornais. Oferecia ainda o currículo da instituição, o ensino de Ciências, Línguas e Artes.
Faziam parte do corpo docente da instituição feminina as professoras: Amelia Gaudino, Maria Barbosa da Costa Rocha, Antonietta Barreto, Sizina Queiroz Nascimento, Alcina Moreira de Souza, Emma Lardy, Valentina Marcondes, Dulce Monat da Rocha, Alba Nascimento, Icaride Maria Cardoso, Guiomar Cotegipe da Cruz, Rachel Vianna e Marietta Mourão. Também ali ministravam aulas o Dr. Othello de Souza Reis[5] e o Dr. Heitor Guedes de Mello[6], irmão da diretora da instituição (ibidem). As professoras, assim como o Dr. Guedes de Mello e o Dr. Othelo Reis, pertenciam, todos, aos quadros funcionais da Prefeitura do Distrito Federal, e as professoras eram lotadas no 2º distrito escolar que Esther dirigia, como inspetora escolar.
As vagas, para quem desejasse ali estudar, costumavam ser concorridas sendo anunciadas amplamente em prospectos distribuídos aos passantes nas ruas centrais da cidade do Rio de Janeiro e, também, para atingir a população que estivesse mais afastada das principais vias, nos diferentes jornais diários da cidade do Rio de Janeiro, entre eles O Imparcial, Gazeta de Notícias, A Rua, Correio da Manhã e O Paiz.  Todos os anúncios do educandário eram encimados pela expressão “Sob a Direção Pedagógica de Esther Pedreira de Mello” (Correio da Manhã, 04/05/1910, p.5; A Rua, 19/06/1915, p.4; O Imparcial, 02/05/1915, p.4 e 12/04/1915, p. 5; O Paiz, 13/03/1920, p.7; etc.), o que parecia legitimar a instituição.
Pelo anúncio publicado no tabloide A Noite, o educandário oferecia às moças a oportunidade de qualificarem-se para as novas vagas do mercado de trabalho abertas pela “modernidade” dos tempos para as mulheres que desejavam preenchê-las. que exigiam maior instrução, além do curso primário oferecido nas escolas públicas.

Sendo já muito grande o número de pedidos recebidos, serão consideradas matriculadas somente as candidatas que, até o início das aulas houverem satisfeito todas as formalidades. As candidatas ao 1º ano satisfarão as exigências de preparo a que se refere o Regulamento da Escola Normal e as candidatas ao 2º e 3º anos, quando ainda não approvadas em todas as matérias da Escola Normal, prestarão exames das disciplinas que lhe faltam, condição indispensável para obtenção da matrícula. Rio, 1º de março de 1916. A Secretária Floripes Anglada Luccas. (A Noite, 1º de março de 1916, p.2)



                              Figura 1 Anúncio do Instituto Secundário Feminino                                                                                                                                Fonte: O Imparcial, 14 de abril de 1915, p.5



Também a instituição feminina buscava adequar-se à modernidade, pois em 7 de maio de 1918, o jornal A Noite (p.5), publicou anúncio de aula de Esperanto[7], para as escolas públicas, promovida pelo Instituto Secundário Feminino, com a docência dos Dr. Everardo Backheuser e Nuno Baena, nas dependências do educandário,  cedidos ao Brazila Klubo Esperanto[8] por Esther Pedreira de Mello.
Do discurso proferido por Esther no primeiro aniversário da instituição, pude entender que muitos visitantes, “homens de letras, jornalistas” assistiram aulas no Instituto e externaram sua “calorosa aprovação” (MELLO apud Correio da Manhã, 4 de maio de 1910, p.5), o que percebo como indício da extensa rede de sociabilidade de Esther Pedreira de Mello e de legitimação da intelectualidade ao educandário.
            Esther Pedreira de Mello preocupava-se com a instrução das mulheres: “a mulher pode desempenhar, com a mesma correcção do homem, os deveres de professora secundária.[...]” (MELLO apud Correio da Manhã, 4 de maio de 1910, p.5)[9], e era sabedora, pelo seu cargo de inspetora escolar, das tristes estatísticas da Diretoria de Estatísticas do Distrito Federal no que tangia à educação feminina. Talvez imaginasse (idealista que, suponho, ela era), que devesse colaborar para que a situação fosse ao menos minimizada. O Instituto Secundário Feminino foi considerado por ela “[...] a salvação das moças que, impossibilitadas de frequentar os cursos da escola official, apenas contam com o seu merito para vencer os embaraços que esta triste sociedade [...] acumula, perversa, contra a mulher pobre [...]” (ibidem)[10], porque possibilitava a formação nos cursos secundário e profissional além de preparação para a Escola Normal do Distrito Federal e para as Faculdades de Odontologia e Farmácia (A Noite, 11 de abril de 1915, p.2).
O educandário feminino de Esther era apoiado pela Presidência da República, pelo Pedagogium, que cedia espaço para seu funcionamento, pela Prefeitura e pela Direção da Instrução Pública do Distrito Federal.  Todos estiveram presentes em sua inauguração e nos primeiros aniversários (O Estudo, ano I, 20/02/ 1909, nº7, p.3-7) e, não era educandário oficial porque não pertencia a estrutura da Instrução Pública ainda que, de certa forma, dependesse do Distrito Federal: não pagava a localização, era iniciativa do 2º distrito escolar (que criara informalmente a Sociedade de Estudos Pedagógicos do Professores do Distrito Federal, que era responsável pelo Instituto Secundário) e não cobrava pagamento pelos serviços que prestava, mas doações de quem pudesse, voluntariamente, fazê-lo. As docentes que ali davam aulas, todas do magistério oficial do Distrito Federal, professoras primárias, o faziam voluntariamente, não recebendo salário.

Importância do Instituto Secundário Feminino

            A importância desta escola nos primeiros anos do século remonta da situação educacional das mulheres no período, principalmente aquelas que, não tendo recursos, somente poderiam instruir-se no curso secundário na Escola Normal do Distrito Federal. Nos primeiros anos do século XX, na cidade do Rio de Janeiro, o ensino público secundário[11] era facultado aos homens através do Colégio Pedro II[12] e do Colégio Militar, mas indicado aos mancebos de “boa família”
Através de diferentes formas de controle (culpa, remorso, abandono, castigo, etc.) a educação para as mulheres no início do século XX, quando existia, devia servir à domesticidade da mulher, à educação dos filhos e à administração do lar. O ensino secundário, fora do espaço público da Escola Normal do Distrito Federal, era ministrado às mulheres, desde o século anterior, por preceptores nas residências[13] ou liceus, de responsabilidade religiosa ou não, no mais das vezes, o que inviabilizava à mulher pobre o acesso a este nível de ensino e, por consequência, à educação superior. Somente mulheres da elite podiam trilhar o caminho das Faculdades e pouquíssimas, das Faculdades brasileiras aceitavam mulheres[14]. O curso secundário fragmentou-se, durante o final do Império, acometido pela dualidade[15] entre a instrução ministrada pelo Colégio Pedro II, na sede da Corte e pela iniciativa das províncias ou de particulares. Existiam, por certo, liceus e escolas religiosas, mas os liceus públicos (mantidos pelo poder público) que atendiam a poucas moças eram de permanência instável, e as escolas religiosas eram um impeditivo para todas as moças, porque eram pagas.
A mulher, no início do século XX, até para educadores intelectuais como José Veríssimo, professor da Escola Normal do Distrito Federal, um homem culto, escritor, tinha sua própria missão:

[...] tem de ser mãe, esposa, amiga e companheira do homem, sua aliada na luta de vida, criadora e primeira mestra de seus filhos, confidente e conselheira natural de seu marido, guia de sua prole e reguladora da economia de sua casa, com todos os mais deveres correlativos a cada uma destas funções (VERÍSSIMO, 1985, p.122)


Romper estas barreiras dos valores sociais entranhados nas famílias, ocupar cargos fora do lar, era difícil para a mulher, cara leitora. A instrução, se as moças a tinham, estava restrita ao curso primário, o que era oferecido pelas Escolas Profissionais Femininas, públicas, e eram o bastante para ler um livro, ou revista, copiar, ou ler receitas e escrever, e ler, cartas. Lima Barreto (1956), ao tratar do costume das mulheres do início do século XX, através da personagem Clara dos Anjos, assim descreveu a personagem, uma mocinha, no Rio de Janeiro:

Era tratada pelos pais com muito desvêlo, recato e carinho; e, a não ser com a mãe ou pai, só saía com Dona Margarida, uma viúva muito séria, que morava nas vizinhanças e ensinava a Clara bordados e costuras. No mais, isto era raro e só acontecia aos domingos, Clara deixava, às vezes, a casa paterna, para ir ao cinema do Méier ou Engenho de Dentro, quando a sua professora de costuras se prestava acompanhá-la, porque Joaquim não se prestava, pois não gostava de sair aos domingos, dia escolhido a fim de se entregar ao seu prazer predilecto de jogar o solo com os companheiros habituais; e sua mulher não só não gostava de sair aos domingos, como em outro dia da semana qualquer. Era sedentária e caseira. (BARRETO, 1956, p. 38)[16].


            A tabela a seguir, apresenta o acesso ao ensino secundário e ao ensino superior, de  moças e rapazes, em anos diferentes, antes e após o surgimento do Instituto Secundário Feminino, para que se  ter uma ideia numérica. Esses dados contemplam apenas a cidade do Rio de Janeiro, capital da república brasileira e foram coletados pelo IBGE a partir de dados da Estatística da Instrução do Distrito Federal[17].

TABELA 1
Fonte: IBGE. Estatísticas do Século XX, 2003


Elias (1993) mostra que a constituição dos Estados Nacionais é elemento estruturante do comportamento civilizado, por isso a conduta considerada civilizada “guarda estreita relação com o entrelaçamento e interdependência crescentes de pessoas [...]entre as esferas da vida de homens e mulheres" (p.54-77), cabendo ao Estado que se constitui, a elaboração de normas, ideias e valores e, os padrões proibitivos que moldam o comportamento civilizado. Ora, o padrão proibitivo a ser seguido, tal qual modelo, era, na constituição da República brasileira, o padrão francês de civilização[18], como enfim nele se pautava a civilização ocidental. Quando o Instituto Secundário Feminino foi criado, em 1909, somente um pequeno número de mulheres no Distrito Federal, em 1907, tinha acesso ao ensino secundário (público, somente através da Escola Normal) e, nas escolas particulares confessionais, que, ainda que não seja especificado na tabela acima, não era público para elas. O acesso ao ensino superior excluía mais ainda o sexo feminino e, durante os primeiros anos do século XX, não chegou sequer a 2% o número de mulheres que conseguiu galgá-lo. Ora, era preciso instruir-se para alcançar o modelo paradigmático em que se apoiava a república. Penso então que, as tensões provenientes de uma ascensão que não se queria — porque alcançar a “civilização” não implicava, necessariamente, em uma extinção ou perda do poder patriarcal — e o modo individualizado das mulheres reagirem à função homogeneizadora apenas para o sexo masculino dessa educação secundária, levou, progressivamente, também, à alteração social do papel da mulher no Brasil.
Em 1912, alguns anos após o surgimento do educandário, cresceu o número de mulheres com acesso ao ensino secundário[19], ainda que o percentual tenha diminuído percentualmente, pelo ingresso crescente do número de rapazes que, seguindo valores civilizatórios e de expansão do capitalismo, precisavam instruir-se. A circulação e difusão dos valores civilizatórios e a expansão do capitalismo relaciona-se ao aumento de acesso, de moças e rapazes, ao curso secundário, entre outras transformações que se processavam concomitantemente na cidade-capital do Brasil.
Essas múltiplas causas são importantes naquele momento de alteração espacial na cidade do Rio de Janeiro: crescente industrialização; chegada dos imigrantes[20] em maior número; o desenvolvimento tecnológico e científico, todos esses aspectos, além do que já tratamos, foram pano de fundo para o aparecimento de novos cargos e funções, na esfera pública e privada, que necessitavam de mão-de-obra mais qualificada para serem operados e, pela maior oferta de cursos preparatórios que, por vezes, substituíam os cursos secundários (Piletti, 1987), de que se valeu a iniciativa para criação do Instituto Secundário Feminino.
O governo federal tinha sob sua responsabilidade manter o Colégio Pedro II, e os estados, apenas Liceus ou Escola Normais. Os Liceus não tinham como manter-se, não havia verbas. As Escolas Normais nos estados surgiam e desapareciam também ao sabor da parca verba pública. Os Liceus, e as Escolas Normais, que existiam eram, em sua maior parte, mantidos pela iniciativa privada o que excluía boa parte da população e, principalmente as mulheres pobres, como protesta Lima Barreto em seu artigo “Vida Urbana”, de 13 de março de 1915, que encontrei, durante a pesquisa, no livro “Bagatelas”, que reúne os artigos que o autor escreveu nos jornais:

Disse anteontem alguma coisa sôbre a instrução e não me julgo satisfeito. O govêrno do Brasil, tanto imperial como republicano, tem sido madrasta a êsse respeito. No que toca a instrução primária generalizada, coisa em que não tenho fé alguma, tôda a gente sabe o que tem sido. No tocante a instrução secundária, limitaram-se, os governos, a criar liceus nas capitais e aqui, no Rio, o Colégio Pedro II e o Militar. Todos êles são instituições fechadas, requisitando para a matrícula de alunos nos mesmos, exigências tais, que, se fôsse no tempo de Luís XV, Napoleão não se teria feito na Escola Real de Brienne. Ambos, e, sobretudo, o Colégio Militar, custam os olhos da cara e o dinheiro gasto com êles dava para mais três ou quatro colégios de instrução secundária neste distrito. (BARRETO, 1956, p.93)[21]


Não se pode esquecer, nesta equação que apresento sobre o pano de fundo da instrução feminina, do papel político que a Igreja perdera ao instaurar-se a república e da laicização dos costumes. Até então o discurso da Igreja Católica para o sexo feminino lembrava o mito do Éden, quando a mulher fizera com que o homem pecasse e, ambos, nascessem com o pecado original. Acreditava a Igreja, e isso pregava que, por ser a mulher sedutora, a tal ponto que seduziu o homem a pecar, deveria ser vigiada e não instruída, este o discurso veiculado bem longe dos preceitos civilizatórios trazidos, também pelas ciências e o avanço tecnológico. A instrução, quando havia para a mulher, servia para prepará-la para o casamento, o que aos olhos de Deus a purificaria do pecado original (Almeida, 2006). E, no mesmo artigo de 1915, Lima Barreto explica o ensino secundário oferecido às moças pelas escolas religiosas:

[...] Quanto às môças, então, com essas é atroz [o governo]! Pobres ou ricas, não têm outro remédio senão recorrer às barafundas pedagógicas das irmãs de caridade e jamais vir a entender a imagem do mundo que os homens atuais, por intermédio das ciências, fazem. É uma ignorância decretada e que bem podia, com mais tempo e vagar, se atribuir como fonte de muitos dos nossos atrasos e muitas das desgraças domésticas que os jornais trazem [...] (BARRETO, 1956, p.233)[22]


Importante lembrar que a educação pública oferecida nos Institutos Profissionais Femininos desde os anos finais do século XIX não ofereciam educação secundária, apenas primária, e estavam voltadas ao atendimento da demanda de novos postos de trabalho surgidos com a consolidação do capitalismo, a urbanização que se acelerava e a revolução industrial que espalhava pelo mundo suas conquistas.[23].
Ao completar um ano de atividades o Instituto Secundário Feminino preparou uma festividade, presidida pelo prefeito do Distrito Federal, na sede do Pedagogium. A festa tomou o espaço de três colunas no Correio da Manhã, que reproduziu trechos do discurso de Esther Pedreira de Mello na solenidade:

Aberta a sessão falou em primeiro logar a diretora do Instituto, d. Esther Pedreira de Mello, que pronunciou o seguinte discurso: “Senhoras e senhores, e em primeiro logar ao Sr. Presidente da República, aqui representado, e o ilustre Sr. Dr. Prefeito, cuja presença nessa solenidade bem se traduz por um legítimo interesse do poder público pelas coisas do ensino. [...] Este é, com justa razão, um dia de grande alegria para nós que empreendemos, corajosamente, a creação de um novo instituto de ensino. [...] O três de maio de 1910 lembra egual data do ano de 1909 em que, sob a presidência do eminente chefe supremo desta cidade, General Marcellino de Souza Aguiar, era inaugurado o Instituto de Ensino Secundário Feminino, de iniciativa acolhida com aplausos pelos bons amigos da instrução popular, dentro e fora da imprensa da Sociedade de Estudos Pedagógicos, agremiação de professores desse districto, como me foi dado registrar nas palavras que então proferi, representando pela generosidade das distinctas colegas na qualidade de directora, o novo instituto” (Correio da Manhã, de 4 de maio de 1910, à página 5, e O Estudo, Ano II, nº 8, de março de 1910)[24].


No momento do discurso proferido a cidade do Rio de Janeiro, capital da república que se consolidava, em suas inúmeras transformações, impelia-se às mulheres a trabalhos fora da esfera familiar, isto é, fora da esfera de vigilância do marido, da família e seus empregados. As mulheres imigrantes[25] e pobres, colocando, talvez, a necessidade à frente da religião católica, que perdia o poder político hegemônico que tivera desde sempre, assumiam cada vez mais espaços nas novas fábricas e para elas o Instituto Profissional Feminino, educandário público que ministrava, junto a uma profissionalização adequada para a “moderna” época civilizatória vivida na cidade, o ensino primário, tornou-se um educandário importante. Mas só isso não bastava! Só o ensino primário ainda era pouco! Lima Barreto, crítico imperativo do governo, assim se pronunciou em artigo de 26 de março de 1919, ainda no Bagatelas:

O procedimento do govêrno federal no que toca à instrução secundária do Distrito Federal, tem sido até hoje de um descaso sem limites. Contentou-se até hoje com a manutenção de um único externato, tendo matrículas só accessíveis aos filhos de poderosos e influentes. Os outros estabelecimentos que mantém, são ainda mais fechados e segregados à procura da grande massa de infantes. Além disto, não criou colégios secundários para môças; entretanto, apesar dêsse desprêzo, dêsse esquecimento criminoso, para atender solicitações políticas, aumenta todos os anos os colégios militares, anima a criação de escolas superiores e dá a entender que, quem não fôr militar ou tiver dinheiro, deve deixar os seus filhos na instrução primária que já dá capacidade para ser eleitor. (BARRETO, 1956, p.232-233)176

O  Instituto Secundário Feminino veio preencher uma lacuna que interessava que os políticos federais e municipais do Distrito Federal estivessem vinculados, como minimiza a enorme necessidade de uma escola secundária, pública, só para moças.


 Referências 
Este texto é parte integrante de minha tese de doutorado (em Educação) "Esther Pedreira de Mello: múltiplas faces de uma mulher invisível", defendida, em novembro de 2014, no Programa de Pos-Graduação em Educação (PROPEd) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

SANTOS FILHO, Lycurgo. Medicina no período Imperial (Cap. VIII). In: Holanda, Sérgio
Buarque de (org.). História Geral da Civilização Brasileira. Tomo II: O Brasil Monárquico,
v. 5. 8ª edição. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro. 2004.

BONATO, Nailda. O Instituto Profissional Feminino no Rio de Janeiro republicano: a formação de mão-de-obra nas primeiras décadas do século XX. Disponível em htttp://www.historia.fcs.ucr.ac.cr/congr-ed/brasil/ponencias/da%20costa_bonato.doc   Acesso 22/11/2015





[1] Apresentado no XI CONGRESO IBEROAMERICANO DE HISTORIA DE LA EDUCACIÓN LATINOAMERICANA, Toluca, México: Colegio Mexiquense, Maio 2014


[2] Pelo trecho do artigo jornalístico de A Noite, não é feita vinculação do Instituto Secundário Feminino à Sociedade de Estudos Pedagógicos dos Professores do Distrito Federal, mas à direção de Esther Pedreira de Mello.

[3] Para ver biografia da educadora, ver SANTOS, 2014

[4] Posteriormente o Pedagogium  muda-se para Rua da Quitanda, 72 e o Instituto, novamente, ocupa salas do 1º andar (Correio da Manhã, 1 de maio de 1915, s/p)
[5] Erudito e poliglota foi professor de Geografia do Colégio Pedro II e da Escola Normal do Distrito Federal. Ensinou, também, Cosmografia, língua pátria, Matemática, História,  Grego, Latim, Inglês e  Alemão. Escreveu livros didáticos entre os quais se destaca “Textos para Corrigir”, “Primeiro Passos na Álgrebra”, manual sobre Redação Oficial (em colaboração com Maria Reis Campos,  obra sobre Análise Léxica, livro de Inglês para os vestibulares de Medicina (colaboração com O. Serpa), “Três Palavrinhas” (coletânea das explicações por ele dadas em cada número da revista “A Escola Primária”, editada por Esther Pedreira de Mello), compêndios de Geografia para várias séries e compêndio de História do Brasil.
[6] Jornalista do Correio da Manhã. Secretário do jornal
[7] O Esperanto é língua artificial criada pelo médico e estudioso de línguas polonês Ludwig Lazar Zamenhof (1859-1917), no século XIX, para ser uma língua de comunicação internacional. Possui gramática simples e regular e utiliza as raízes das línguas europeias mais faladas, além de raízes latinas e gregas. Disponível em  http://www.ameriko.org/eo/HistorioDeEo-Brazilo Acesso em 10/11/2015
[8] O denominado (em esperanto) Brasileiro Clube de Americana (BKE) foi o primeiro grupo de Esperanto no Rio de Janeiro, fundado em 29 de Junho de 1906. Everardo Backheuser , seu presidente, e demais membros Dr. Nuno Baena (1º vice-presidente), Dr. Nerval de Gouvêa (2º vice-presidente), Sr.Lauriano das Trinas (Secretário) e Sr. Honório Leal (Tesoureiro) faziam palestras e divulgavam a nova  língua em diferentes espaços da cidade como o Colégio Nacional (Colégio Pedro II),  o Spencer School (proferida pelo Dr. Everardo Backheuser); o Colomy-Club (oferecida pelo Dr. Couto Fernandes); a Associação do Komercoficistoj (ofertada pelo Sr. Hernani Mendes); na Escola Militar (fornecida pelo Sr. Daltro Santos); na Escola Cayru (proferida pelo Sr.Lauriano das Trinas); e em Niterói (efetuada pelo Sr. Francisco Almeida Junior), no Liceu de Artes e Ofícios Escola Alfredo Gomes (presidida pelo Dr. Leonel Fonseca). Disponível em http://www.ameriko.org/eo/HistorioDeEo-Brazilo Acesso em 10/11/1015
[9] Obedecida grafia da fonte.
[10]  Discurso de Esther Pedreira de Mello reproduzido no tabloide A Noite, 11 de abril de 1915, p.2. Obedecida a grafia da fonte.

[11] Os primeiros estabelecimentos de ensino secundário no Brasil foram o Ateneu do Rio Grande do Norte, em 1835, e os Liceus da Bahia e Paraíba, em 1836. No Município Neutro, por decreto de 2 de dezembro de 1837, o Seminário de São Joaquim foi transformado em Colégio Pedro II, de ensino secundário. Diferente dos demais educandários, afeitos ao Ato Adicional de 1834 (Lei nº 16 de 12 de agosto de 1834), e mantidos pelas províncias, o Colégio Pedro II era mantido pelo poder central. (Haidar, 1972).

[12] Logo após a república o Colégio Pedro II tem o nome alterado para Ginásio Nacional de modo a desvincular-se do regime anterior. O Colégio Pedro II era o único público a conceder bacharelado em
ciências e letras,deferência  “não concedida a estabelecimentos particulares independente de fiscalização (DORIA, E. Memória Histórica do Colégio de Pedro II (1837-1937). Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, 1997).

[13] No Brasil, o século XIX foi o período da modalidade de educação doméstica ou educação na casa tornar-se largamente praticada pelas elites, particularmente na cidade do Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil. A casa era o lugar em que as elites educavam os seus filhos e filhas, por meio de preceptores, professores particulares e aulas-domésticas. (VASCONCELLOS, 2013)
[14] Somente em 1879 o Ministro Leôncio de Carvalho estabelece, entre outras modificações, a possibilidade da matrícula de mulheres no curso médico, sendo a gaúcha Rita Lobato a primeira formar –se na Escola de Medicina da Bahia, em 1887 (SANTOS FILHO, 1997; PICCININI, 2002; TEIXEIRA, 2001). No Império,  apresença da mulher na Faculdade de Medicina aparece nos cursos de parteira. Em 1832, as duas Faculdades de Medicina (Bahia e Rio de Janeiro) foram equiparadas nas cadeiras ministradas, bem como passaram a conceder aos concluintes o título de doutor para os médicos e o de Parteiro Diplomado aos que concluíssem o Curso de Partos realizado em 3 anos, possuindo várias cadeiras, entre elas: Parto, Moléstias de Mulheres Pejadas e Paridas, e Recém-nascidos (PORTO e CARDOSO, 2009)
[15] Sistema regular seriado oferecido pelo Pedro II e Liceus provinciais (e estabelecimentos provinciais) e sistemas particulares constituídos pelos cursos preparatórios e exames parcelados para entrada nos cursos superiores existentes.
[16] Observada a grafia da fonte.
[18] O conceito de civilização surgido na França do século XIII, na aristocracia, representava a maneira como os membros da sociedade corte deveriam proceder. Foi difundido por toda a Europa como um comportamento ideal para qualquer membro das cortes europeias. Foi de extrema importância na diferenciação entre as classes sociais existentes, e teve seu apogeu no século XVIII. O homem civilizado controlava o instinto em primazia da razão e do controle de emoções, para aplicar “boas maneiras” no convívio com o outro. O civilizado era um homem urbano e instruído, antítese do homem rural e tosco. (Elias, 1990)
[19] Inclui o ensino nas Escolas Normais.
[20] A cidade do Rio de Janeiro foi o maior centro industrial do país até 1920 e o operariado residente na cidade era fortemente composto de portugueses. (Melo, Araújo e Marques, 2003).

[21] Obedecida a grafia original da fonte consultada,
[22] Obedecida a grafia da fonte.

[23] O ensino profissional iniciado em 1897 (e efetivado  a partirdo ano seguinte) compreendia os cursos: elementar, médio e complementar das escolas primárias apenas,  não se estendendo às escola secundária. O currículo abrangia: “Economia doméstica, estenografia e datilografia e higiene profissional; costura e tudo quanto a ela se relacione, “inclusive o corte de roupa branca e de cores”, cerzidura, aposição e justaposiç0ão de remendos, etc; de bordado branco, matiz e ouro; de flores; de trabalhos domésticos. O ensino de arte compreende: desenho á mão livre, desenho geométrico aplicado às indú0strias; musica vocal e notação escrita, ginástica. O “curso de estudos” seria distribuído da seguinte maneira, em número de horas: Ginástica - 6 horas; Aula primária - 12 horas; Desenho - 9 horas; Higiene profissional - 2 horas; Música - 5 horas; Economia doméstica - 2 horas; Estenografia e datilografia - 4horas; Oficinas - 18 horas. (Art. 17). (BONATO, Nailda. O Instituto Profissional Feminino no Rio de Janeiro republicano: a formação de mão-de-obra nas primeiras décadas do século XX. Disponível em htttp://www.historia.fcs.ucr.ac.cr/congr-ed/brasil/ponencias/da%20costa_bonato.doc  Acesso 221/11/2015

[24] Obedecida a grafia da fonte.
[25] O censo de 1920 mostra a imigração portuguesa para a cidade do Rio de Janeiro: dos 433.577 imigrantes portugueses que viviam no Brasil por ocasião do recenseamento, 39,74% ou cerca de 172 mil portugueses, habitavam a cidade do Rio de Janeiro. (Melo, Araújo e Marques, 2003)