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terça-feira, 4 de novembro de 2014

O maior cortiço da cidade do Rio de Janeiro: Cabeça de Porco




            Conta o tabloide  Gazeta de Notícias (27/01/1893,p.1, coluna 6) que o Cabeça de Porco surge em 1858, após a venda a José Ferreira Teixeira, Francisco dos Santos Guimarães e Joaquim Coelho Netto, de quatro lotes herdados de José Justiano Ribeiro de Farias, que recebera o terreno, junto com uma extensão dada a Luiz Pereira de Campos, da Câmara Municipal, em 1847 para prolongamento da rua de Sant’Anna.



            Desde 1878, por Aviso (de 14 de outubro- Posturas Municipais) o Ministério proibia construção de cortiço entre as praças D. Pedro II e 11 de junho e nas ruas do Riachuelo e Livramento, mas, mesmo assim, o Cabeça de Porco foi construído. Em 1831, foi proposta desapropriação do cortiço sem indenização porque argumentou-se que fora construído irregularmente. O cortiço ali permaneceu, ainda que desapropriado          Em 1886, nova Portaria exigia a demolição. Não houve. No ano seguinte os proprietários sustam legalmente a demolição, o que valeu até 1888, quando se ordenou, novamente, a demolição (Portaria de 27 de abril) e autoriza-se a Junta de Higiene a fechar o cortiço (Portaria de 26 de julho). Em dezembro, pela Portaria do dia 27, reitera-se demolir o cortiço. O cortiço, embalde as Portarias e decisões judiciais, manteve-se em pé e funcionando. 
            Em 1891, Carlos Sampaio propôs ao Ministério do Interior prolongar a Rua Dr, João Ricardo (como passou a chamar-se o logradouro) para abertura de um túnel. Com a saída do presidente, e ministério, as ações foram postergadas até 1893. Neste momento, havia necessidade e ação política de ampliar o solo urbano, com a construção de túnel, modernizar a região do centro e porto para melhor visão da cidade aos que chegavam e necessidade de higienizar a região devido às doenças que grassavam sem controle, o que afetaria a boa situação do maior porto brasileiro. Nesse momento, então, foi decidido politicamente que o Cabeça de Porco  seria demolido.

Construção do Túnel João Ricardo
           
            Em 1893, o Prefeito do Distrito Federal, Barata Ribeiro, resolveu exterminar este cortiço e, para isso, à noite, fechou a entrada do cortiço, impedindo qualquer tipo de circulação – fosse de entrada ou de saída – do lugar.  Para assistir e prestigiar (-se) com a derrubada e aliar à sua imagem a representação de moderno, civilizado e higienista, estiveram presentes as autoridades capitaneadas pelo Prefeito Barata Ribeiro, o Chefe de Polícia, o Engenheiro Municipal, o Médico Municipal, o Secretário de Inspetoria Geral de Higiene, o Delegado da Inspetoria no Distrito, o Fiscal da Freguesia, guardas fiscais, oficiais da Armada, do Exército, da Brigada policial e alguns Intendentes. A todos interessava ser visto como moderno, como preocupado com a higiene, como promotor e incentivador da civilização na cidade do Rio de Janeiro. Ao término da derrubada a estatística foi lastimável: um sem número de famílias sem moradia. Estas reformas inauguraram, então, uma divisão social e permitiram a segregação de parcela considerável da população que habitava o centro e o porto da cidade , tida por feia e pobre. Diz Chaloub (1996) que, como o pobre não conseguia acumular riquezas era visto como não tendo a virtude de ser um trabalhador e de ter o vício da ociosidade, por isso a classe pobre era tida como viciosa, de modo que vício era sinônimo de pobreza e vagabundagem. Para que os pobres não ficassem à vista no centro político e administrativo da capital do país, foram sendo empurrados para os morros e subúrbios . Fernandes (1998), ao investigar a cidade do Rio de Janeiro, explica o que a coletividade da cidade do Rio de Janeiro entendia por subúrbio:

La palabra suburbio tiene un significado particular, esto es, denomina los barrios donde existen ferrocarril y que fueron elegidos por las reformas urbanas a la Haussmman del inicio de siglo XX como lugar de residencia de las clases populares en la ciudad. (p.s/n)

             Todos os fatos que, como fenômenos, ocorreram na história no Rio de Janeiro são típicos. Isso aconteceu porque a cidade foi tratada, por razões políticas, em momentos temporais diferenciados, como um “espelho da nação” o que, muitas vezes, colocou a cidade como catalizadora das políticas públicas, especialmente na área educacional.    Esta a razão de,

durante muito tempo, se [pensar] a cidade como lugar de modernidade e progresso em oposição ao mundo rural, considerado o locus da tradição e do atraso. A cidade passou a ser identificada como campo da racionalidade e do planejamento e, simultaneamente, como fonte de fragmentação e de aviltamento do indivíduo.(OLIVEIRA, 2002, p11).



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