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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Ao nosso São Sebastião

Recompensa de São Sebastião.
Tela 133 x 218 com  de Eliseu Visconti, 1898.
Acervo do Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro



Quando os portugueses escolheram São Sebastião para padroeiro de uma cidade como o Rio de Janeiro, trouxeram nele a imagem do homem, não santo ainda, que  congrega e que, dado por morto, sobrevive. O povo que ele, desde então, abençoa, sente isso, tanto que o Santo, cravado de flechas, é reverenciado pelos devotos da Igreja Católica e das religiões afro-brasileiras, onde recebe o nome de Oxossi, orixá das florestas. E temos uma urbana, meu santo, toda sua!

E este santo é assim como nós cariocas, um sobrevivente. Não precisamos, no entanto, ter sido mandado matar por Dioclesiano[1], ou ter o corpo perfurado por flechas[2], somos sobreviventes da cidade.  Sobrevivente como o santo que depois foi, novamente, mandado matar[3]. Nós também temos essa garra de, encarando a morte, sobreviver. É só percorrer nossa História.

O Rio de Janeiro foi sede da Corte que, fugindo, veio dar nesse costado depois de breve estada na Bahia de Todos os Santos a comer muito acarajé e vatapá. E aqui ficou, após a mudança do regime, da moda das mulheres que encurtou seus vestidos encompridados adequadas a Europa,  mas não a uma cidade quente como o Rio. 

Ah, protegei-nos São Sebastião! Protegei-nos dos homens que nos roubam desde os piratas que assustaram a cidade com seus tiros de canhão (e hoje, de metralhadoras, AK 45, ou que nome pomposo tenham essas armas que não fabricamos, mas as quais somos consumidores contumaz, até pela bala, perdida, que nos mata!).

A cidade, e seus habitantes, meu santo, flanando pelo tempo, a lembrar de seu cronista maior[4], sobreviveu à peste, e outras doenças das que dizimam os viventes mais pobres; sobreviveuà poeira das demolições e aos embelezamentos, por vezes desnecessários;  sobreviveu  ao desmonte de seus morros para que o ar marítimo trouxesse ao solo quente da cidade, que crescia além do Campo da Aclamação,  o frescor; sobreviveu, e continua sobrevivendo,  aos políticos da república, instalados em palácios[5] que mandaram derrubar. 

E hoje, meu santo, na mesma expropriação do que é público, roubam os óculos de Drummond, roubam nossos monumentos, roubam, em arrastão, os banhistas, roubam tudo... até placas de ferro da perimetral demolida (e ninguém viu!). Protegei-nos sempre dessa horda, São Sebastião!

E hoje, viemos agradecer meu São Sebastião, ter tomado conta de nós por 450 anos! Continuamos sobrevivendo, meu santo!

Sobrevivemos aos ônibus sem ar condicionado, e sujos, que nos transportam todo o dia, pelo preço de um rolls roice com motorista.

Sobrevivemos aos trens apertados que se deslocam sem hora certa, sem comodidade, sujeitos a batidas sem motorneiros que espertos, pulam fora antes de colidir o veículo sob trilhos.

Sobrevivemos aos preços surreais que confundem água de coco com água Perrier!

Sobrevivemos à sujeira de nossas praias lindas com areia fina empipocada de garrafas pet sem dono!

Sobrevivemos aos nossos rios que morrem, dentro dos novos calçamentos da cidade, contaminados pela sujeira que, nós mesmos, despejamos neles!

Valei-nos, meu santo!

Não temos mais varíola, malária... mas os bondinhos de Santa Teresa não estão mais lá, a emoldurar os Arcos. Onde estarão? Valei-nos meu santo! 

Nossos jornais tratam de tudo de todo o Brasil, diferente dos tabloides de Bittencout, de Carlos de Laet, que comentavam o nosso dia a dia. Não somos mais a capital do país, espelho da nação, meu santo, mas é aqui o turista continua vindo para conhecer o Brasil.

Continuamos amando essa cidade que tem, desde 1931, um Cristo lindo, de braços abertos, a dividir com você, meu santo padroeiro, a proteção a essa cidade amada e seus habitantes. Foi preciso, São Sebastião! A cidade cresceu, os problemas acompanharam essa vertiginosa curva ascendente de uma população miscigenada, como brasileira que é, de braços fortes e peito aberto, vinda de todos os lugares do mundo. 

Assim, São Sebastião,  valei-nos! Sempre! Agora tem uma forte ajuda! O próprio Cristo!

E obrigada, meu santo, por nos socorrer durante tanto tempo! 

Obrigada por ter nos dado a sobrevivência como meta!

Salve, salve você, São Sebastião, do meu Rio de Janeiro!


[1] Caio Aurélio Valério Diocleciano foi imperador romano de 284 a 305 D. C.
[2] Durante a “Perseguição de Diocleciano” (303-311), a última, maior e mais sangrenta perseguição oficial do cristianismo a ser implementada pelo império romano.
[3] A história do santo aparece nas atas romanas com sua condenação e matírio e nos atos apócrifos de Ambrósio de Milão.
[4] João do Rio (1881- 1921). Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, foi jornalista, cronista da cidade, tradutor e teatrólogo brasileiro. Escreveu: As religiões do Rio. [Paris: Garnier, 1904]; O momento literário. [Paris: Garnier, 1905]; A alma encantadora das ruas. [Paris: Garnier, 1908]; Era uma vez... (em co-autoria com Viriato Correia). [Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1909]; Cinematographo: crônicas ariocas. [Porto: Lello & Irmão, 1909]; Fados, canções e danças de Portugal. [Paris: Garnier, 1910];Dentro da noite. [Paris: Garnier, 1910]; A profissão de Jacques Pedreira. [Paris: Garnier, 1911]; Psicologia urbana: O amor carioca; O figurino; O flirt; A delícia de mentir; Discurso de recepção.[ Paris: Garnier, 1911]; Vida vertiginosa. [Paris: Garnier, 1911]; Portugal d'agora. [Paris: Garnier, 1911]; Os dias passam.... [Porto: Lello & Irmão, 1912]; A bela madame Vargas. [Rio de Janeiro: Briguiet, 1912]; Eva [Rio de Janeiro: Villas Boas, 1915]; entre outras obras literárias e crônicas.
[5] Referência ao Palácio da Prefeitura, sede administrativa do Governo do Distrito Federal, mandado derrubar para abertura da avenida Presidente Vargas e ao Palácio Monroe, projetado para ser o Pavilhão do Brasil na Exposição Universal de 1904, foi desmontado e trazido ao Brasil [era feito em estrutura de ferro] para sediar a 3ª Conferência Pan-americana. De 1914 a 1922 foi sede da Câmara dos Deputados. Em 1922 passa a abrigar o Senado Federal. Em campanha de O Globo e de Lúcio Costa,  foi pedida a demolição do Palácio Monroe, sob alegações estéticas e de atrapalhar a visão do Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial. Foi demolido em 1975. Era uma construção do arquiteto e engenheiro militar, Coronel Francisco Marcelino de Sousa Aguiar. De acordo jornal Diário de Notícias de 4/01/1976 p.9, a demolição foi orçada em Cr$ 191.108,00. Na edição de 7/01/1976, p.9, o jornal anunciou que os quatro leões de mármore de Carrara que adornavam o palácio haviam sido vendidos para o diretor de uma financeira. Valei-nos! A firma contratada para a demolição afirmava, tambéml, que pretendia faturar o máximo com a venda de objetos de arte e material aproveitável do palácio, de forma a recuperar os 200 mil cruzeiros investidos. Os anjos de bronze que adornavam a cúpula foram orçados em Cr$ 15 mil cada, os vitrôs, de valor histórico, não foram orçados. Sumiram!!! Na edição de 11/01/1976, capa, apurava-se que apenas com a venda de 3 mil toneladas de ferro foi possível arrecadar 9 milhões de cruzeiros. Será??? Alguma semelhança com o que já conhece? Filme antigo a passar repetidas vezes nessa cidade. Atenção: Pode ver, mudam os atores...Valei-nos, meu santo!

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