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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O Rio de Janeiro visto por um prussiano em 1819: Theodor von Leithold






Fonte: CHAMBERLAIN, Henry. Vistas e costumes da cidade e arredores 
do Rio de Janeiro em 1819-1820.

 

Interessante a visão de um prussiano recém-chegado à cidade do Rio de Janeiro, em 1819. Era uma cidade com deficiências que o europeu aponta sem levar em conta que mal o país deixara de ser colônia e a cerca de uma década recebera a família real portuguesa fugida das intempéries de Napoleão. No entanto, através do relato deste viajante, é possível ver a cidade, como um cronista da época.

 

“O Rio de Janeiro ocupa uma superfície que não é insignificante; suas ruas são quase todas estreitas. A maioria das casas é de um só pavimento e apenas uma janela, que, em muitas, é inteiramente de madeira, isto é, fechada por uma grade de trama apertada como as de nossos galinheiros ou pombais. Também a porta exterior é provida de grade semelhante, que serve também de janela. Por essa porta entra-se na única e exígua peça da casa. Ao lado fica uma alcova menor e, para o quintal, atrás, a cozinha e mais um pequeno quarto, que tem, no telhado de grandes telhas de canal, uma janelinha de vidro por onde entra a luz.

         As ditas casinhas não têm alicerces. As tábuas do soalho são pregadas em dormentes fixados, sem a mínima proteção, diretamente ao chão; é fácil imaginar, em consequência, os efeitos nocivos da umidade para a saúde, sobretudo na época das chuvas.


 Afora estas casas térreas, há outras de dois, três e quatro pavimentos, com balcões de ferro ou de madeira; mas nelas também prevalece a mesma umidade, a ponto de não se poder deixar botas ou sapatos no segundo andar sem que se cubram em poucos dias de espessa camada de mofo; pela mesma razão, não se conservam bem os pianos, que existem, aliás, em grande número, mas em péssimas condições.
          O único passeio para os habitantes da cidade é uma praça junto ao mar, cujo tamanho é a metade da nossa Gensd'armes Platz. Pelo traçado dos canteiros, parece mais uma horta comum. É, aliás, muito pouco frequentada.  
O Campo de Santana tem o dobro, pelo menos, da dita Gensd'armes Platz, só que circundado de casinhas modestas. De um lado, e não exatamente no meio, está um grande circo de madeira, onde se realizam as touradas; do outro lado, um grande jardim não sombreado e raramente visitado, em que há umas estátuas de madeira, pintadas. Dizem que este jardim pertence à princesa herdeira.

O Largo do Rossio tem quase a tamanho da Gensd'armes Platz. As casas que a circundam são poucas, mas boas. A melhor, de dois andares, fica numa esquina e está contruída ao gosto chinês, pertencendo a um rico particular, o conde do Rio Seco.
            O Largo do Palácio dá para o mar e é realmente uma bela praça. Lá se encontra o magnífico chafariz, onde a maioria dos capitães de navios se abastecem da água que precisam em viagem. O palácio tem apenas dois andares, muito simples de estilo e com um mínimo de ornatos.
             Uma praça menor, ao lado do teatro, só merece atenção por causa da igreja de São Francisco de Paula e do grande hospital que está sendo construído junto, local impróprio por estar no centro da cidade e que por isso desagrada a todos.
            Além dessas praças principais, existem outras menores que nada apresentam de especial, daí não merecerem, aqui, referência.
            As ruas, como já ficou dito, na maioria estreitas, são às vezes bem pavimentadas e supridas de calçadas. As sarjetas correm pelo meio, como em Paris. Algumas são bem compridas, e como de cada lado as casinhas baixas formam paralelas a aparência é bem agradável. A iluminação noturna da cidade satisfaz e tudo o que se refere à mesma está instalado de maneira muito funcional.
            A cidade não tem portas, mas aprazíveis arrabaldes, que lhe dão considerável extensão. O Catete, onde moram meu cunhado e vários ministros e cônsules estrangeiros, é um bairro bem mais saudável do que o centro e consiste numa única rua, larga e não pavimentada, que conduz a uma encantadora enseada, distante apenas um quarto de hora, toda rodeada de montanhas e de agradáveis chácaras habitadas por ingleses. Também a rainha ali possui uma casa de campo chamada Laranjeiras.O Catete costuma ser concorrido aos domingos, quando acorrem numerosos pedestres, cavaleiros e carros; também o rei e a família real por aí passam quase diariamente para ir à Enseada e de lá voltar, já que os caminhos interiores são estreitos e incômodos.
            O Rio de Janeiro possui poucas igrejas. Além da Capela Real e das de São Francisco de Paula e da Glória, agradavelmente situada sobre empinada colina, junto ao mar, quando se vai da cidade para o Catete, há outras menores que não vi. No Catete encontram-se capelas privadas em algumas casas, como por exemplo na do almirante conde de Viana, etc., em que se diz missa e às quais assistem os vizinhos com toda a criadagem.
            O soberbo aqueduto da cidade chama a atenção de todos os forasteiros. Supre vários chafarizes, elegantemente construídos de pedra, sobre degraus, ornamentados com estátuas no gênero dos de Paris.
O teatro do Rio de Janeiro está no Largo do Rossio. É quase do tamanho da nossa ópera, mas não tão largo. Realizam-se ali umas quatro ou cinco representações por semana, que variam entre comédias, dramas e tragédias em português, e óperas italianas acompanhadas de bailados. Os espetáculos em português são pouco concorridos. Só assisti a um, mas como não entendia a língua, não posso dar opinião; contudo, notei que falavam monotonamente.
            As óperas italianas representam-nas de maneira toda especial. Assim, por exemplo, durante minha estada, foi levada muitas vezes a ópera Tancredo, mas eu mal a reconheci de tão mutilada e estropiada por uma péssima orquestra. Demoiselle Faschiotti, irmã de um dos castrati da Capela Real, e Madame Sabini cantam passavelmente, sobremodo ajudadas pelos seus dotes físicos.
            Madame Sabini, pequena, atraente e muito viva, de olhos ardentes, quais os de Madame Catalani, desempenhava o papel de Tancredo. Cantou o recitativo O Patria dolce com tanto sentimento, causando-me tal impressão, que eu tive que deixar a sala por não poder conter as lágrimas.
            A ópera italiana Caccia di Henrico quarto, com Demoiselle Faschiotti no papel de Marietta, foi também levada muitas vezes. Tem ela dezoito anos, bela presença e muitas condições para ser boa cantora, as quais sob a direção do irmão sabe vantajosamente cultivar. Como atriz, falta-lhe ainda desenvoltura.

Um tenor, cujo nome esqueci, canta razoavelmente e tem boa aparência, mas é de uma magreza como nunca vi em outro homem. Muito afetado e ele uma vivacidade bem francesa, dizem ser o favorito das damas do Rio de Janeiro. Estes três são os principais componentes da ópera italiana.
            A orquestra é muito reduzida em número, numa palavra, miserável; apenas um flautista, francês, e um violoncelista chamaram-me a atenção. Os violinistas, então, são abaixo da crítica. O violoncelista executou uma ária do Tancredo e um adágio, sozinho, com tal emotividade e expressão que, sem exagero, acreditei estar ouvindo o maestro Romberg. Informando-me sobre este homem, vim a saber que é meio demente. Ouvi-o a seguir, muitas vezes, e sua atuação inspirada pareceu-me, nas tristes circunstâncias, tanto mais comovente.
             Os bailados não são maus. Como em Paris, o público, aqui, sempre numeroso, os aprecia entusiasticamente. Cada aparição do solista e das dançarinas é aplaudida, o que acontece também com os cantores do lírico, aplausos esses que são todas às vezes reverentemente agradecidos.
             Os organizadores do ballet são franceses: certo Toussaint e sua mulher, do teatro Porte St. Martin, de Paris, e certo Lacombe, também de Paris, igualmente casado, sendo este último o respectivo diretor. Apresentam eles grandes espetáculos, como a Morte de Pirro, Paulo e Virgínia, etc., e também bailados cômicos. Dão-se em geral muito trabalho e ainda ensinam os filhos e filhas dos ricos fidalgos, de modo que ganham bom dinheiro e farão fortuna, que é o que pretendem, para voltar à França com suas economias.
            Assisti a um ensaio que teve lugar à uma hora da tarde, saindo convencido dos esforços e resultados destes dirigentes, podendo atestar que fariam honra aos mais exigentes palcos da Europa. Ao final do mesmo, os senhores Toussaint e Lacombe suavam de tal maneira como se lhes tivessem jogado em cinta um balde de água. Perguntando-lhes eu se isso não lhes fazia mal à saúde, responderam-me que até agora nenhum, pois logo vestiam roupa quente e evitavam correntezas.
            Madame Toussaint é uma bela mulher, algo forte; andou exposta, ao que dizem, a grandes tentações nos primeiros tempos de sua chegada de Paris — a família já está no Rio de Janeiro faz cinco anos — mas logrou felizmente superá-las e vive retirada com seu marido e muito feliz, o que lhe valeu o bom conceito de que goza na capital, mesmo entre aqueles que intentaram manchar sua reputação.

            Além dos franceses, há também espanhóis e uma mulata, engajados nos bailados. O jovem espanhol e sua irmã dançam satisfatoriamente, mas a mulata, a quem são às vezes entregues partes de solo, graças às suas formas atraentes, agita-se como se fosse mordida por uma tarântula.
            O empresário do teatro é um mulato que teria sido antes barbeiro e conseguiu enriquecer nessa atividade. Os camarotes foram todos vendidos com antecipação e, nos grandes dias de ópera ou bailados, a casa está sempre cheia.
Entre as diversões públicas contam-se também as touradas. O circo onde elas se realizam acha-se no Campo de Santana. Por ocasião do aniversário da princesa real, se não me engano, assisti a esse curioso espetáculo, único, aliás, verificado durante minha permanência no Rio. Foi o mesmo abaixo de tudo: portugueses, brasileiros, mulatos e negros vaiaram-no do princípio a fim. Um tourinho magro, cuja ira alguns figurantes paramentados procuravam em vão provocar com suas capas vermelhas, permanecia fleumático e, quando parecia uma vez que outra disposto a investir, logo pulavam eles assustados a barreira que os separa do público e eram recebidos com assobios e cascas de laranja.
            Outro combatente entrou montado num cavalo pintado, fingindo de cavaleiro, e atacou o touro com lanças, atingindo-o uma vez no pescoço; mas nada, o animal não se mexia, o que não aconteceu com os espectadores, que começaram a gritar e a vaiar com tal insistência que teve de ser substituído, entrando outro na arena; tampouco o segundo quis enfurecer-se, e, depois de infrutíferas tentativas, terminou o espetáculo entre risadas e pateadas, a qual rendeu 6.000 táleres ao organizador.
            Haviam colocado no meio da praça uma figura de madeira, de tamanho natural, envolta em manto escarlate, fixada a uma esfera vermelha. Contra este reluzente e denodado cavaleiro, precipitou-se o touro, jogando-o ao chão cada vez que o mesmo se reerguia Foi em verdade o que houve de mais divertido e do agrado do público. Os camarotes haviam sido todos vendidos a preços altos e as arquibancadas acomodavam incrível multidão de todas as classes.
            Que esta suposta tourada não passou de lúbrica imitação do que são as espanholas, transcrevo a descrição de uma delas, extraída de Quadros de Madri, a fim de ressaltar o contraste e, ao mesmo tempo, dar uma ideia ao leitor do que devem ser.
Correios para o interior do país, fora das Minas, se não me engano, são aqui inexistentes. As distâncias da capital para as demais províncias ou capitanias são tão grandes e as estradas tão más que dificilmente se poderia pensar em introduzi-los. A correspondência segue por via marítima. Os pequenos navios que ligam os diversos portos do Brasil levam os sacos postais para os pontos principais nas capitanias, onde não havendo entrega a domicílio, cada qual tem que ir ao Correio buscar suas cartas. Nas condições atuais de comércio intenso ao longa da costa e com a Europa, seria desejável que se pusesse mais ordem nesse serviço, a fim de melhorar o intercâmbio comercial e as comunicações.
            Num dos morros da cidade existe um telégrafo, que se comunica, creio eu, com Pernambuco.
            Uma curiosidade da capital é o grande número de lojas de vitualhas ou Vendas, como aqui são chamadas. Não há rua, travessa, mesmo num raio de cinco ou seis horas em torno da cidade, que não tenha a sua venda a pouca distância uma das outras. Este modo tão generalizado de comércio a varejo provém do comodismo, direi antes, da imprevidência com que as portuguesas praticam sua economia doméstica, comprando só o que pode ser levado às costas e sempre em pequena quantidade. O mau cheiro que exalam essas vendas, sempre repletas de escravos bêbedos, é insuportável. Nelas se pode comprar carne de porco, banha, velas, cerveja, azeite, vinagre e outros mantimentos. Tais vendas, via de regra, pertencem a algum particular rico, que as aluga, empreita ou nelas mantém um preposto para se ocupar do negócio e lhe presta contas. É fácil imaginar o que rendem aos donos, quando as vemos diariamente repletas.
            Também há mercados em que se compram toda sorte de gêneros. Especialmente interessantes são os de animais e frutas. Nos primeiros vendem-se macacos de quatro a seis táleres, papagaios, de quatro a dez e outras aves, grandes e pequenas, a preços diversos; nos segundos atraem nossa atenção os abacaxis, as bananas, os mamões, as laranjas e outras frutas tropicais. A lenha não é vendida e distribuída, como entre nós, por fornecedores especializados, mas pelas quitandas e aos molhos, para as necessidades do dia, carregada por escravos. Assim, vemos os cozinheiros das melhores casas voltarem do mercado seguidos de um escravo, que leva, além da cesta de mantimentos, seu feixe de lenha.
            Os principais alimentos, os mais essenciais, vêm de lugares remotos, por exemplo: a farinha de trigo, dos Estados Unidos e especialmente de Valparaíso; a manteiga e as batatas, da Inglaterra, artigos esses aqui muito caros. As cebolas vêm de Portugal; o vinho, da França, da Espanha, de Portugal ou da Ilha da Madeira, etc. A melhor carne no Rio de Janeiro é a de porco, não tão branca nem tão gorda quanto a nossa, contudo excelente e saborosa. A carne de boi é má; vem do interior, sendo muito magra, porque os animais vêm mal alimentados pelo caminho. A escassa grama, entre os rochedos, seca quase toda com o calor. Aos legumes falta viço e substância; não têm gosto e nem de longe poderão ser comparados aos europeus. Assim, por exemplo, a ervilha e as favas não tem sabor e, depois de cortadas e cozidas, têm o gosto de feno ressecado, o que se explica pelo crescimento demasiado rápido da vegetação.
            As boas frutas europeias faltam de todo; limões propriamente não vi, salvo uma variedade rústica (Malus Limoniae), amarga e desagradável, como, de resto, todas as frutas nativas ou cultivadas têm aqui um gosto algo medicinal. Os pepinos são muito bons e também os mamões. As uvas são colhidas e vendidas verdes porque não resistem ao calor continuado; é raro comerem-se maduras. Laranjas há em quantidade, quatro ou cinco por um vintém, mas não são igualmente boas o ano inteiro e perdem seu sabor doce e agradável, ao passo que as da Bahia, mais perto do equador, são sempre gostosas. Também há muito no Rio de Janeiro umas laranjas verdes, de casca grossa, de que não se deve abusar porque resfriam o intestino. Comem-se em geral com pão francês, o qual fora a farinha dos escravos, é o único que se encontra aqui. São, aliás, numerosos os padeiros franceses, já estabelecidos há vários anos, todos remediados, alguns mesmo ricos. Segundo os cálculos que fizemos, o capitão e eu, esse pão francês, no tamanho usual em que é cozido na França e em Hamburgo, custa o dobro do de lá.
            Os abacaxis também abundam e medem, uns pelos outros, um pé de comprimento, custando por unidade quatro a cinco dos nossos groschen. Quando se come umas poucas fatias provocam perturbações no sangue. São geralmente comidos em beignet ou como torta de maçãs, sendo então muito gostosos.
            As bananas são uma fruta nativa da forma de um figo, de gosto algo parecido com a maçã (sic) mas com um sabor a remédio, que desaparece em parte, quando preparadas em beignet. De modo geral não se pode contar aqui com gêneros bons e fortificantes. O leite, de vacas cansadas e semiesfomeadas, é péssimo. Os queijos de Minas têm o tamanho e a forma do holandês, mas são secos e lembram o de cabra. Os frangos pernaltas, de aspecto miserável por causa da nutrição, assim mesmo custam uma pataca ou doze groschen do nosso dinheiro; os maiores, duas ou três patacas. Perus, gansos e patos também há, mas exageradamente caros como os demais plumitivos.
            Os peixes abundam, mas não parece que sejam apreciados, pois poucas vezes os vi à mesa; para meu gosto são demasiado moles. Ostras existem também, mas péssimas. Encontram-se os bancos de ostras nos pequenos rochedos de granito. O arroz é muito barato e, como prato português, altamente apreciado.
Além dos muitos restaurantes portugueses, que são chamados "casas de pasto", há dois, franceses, nos quais se come bastante bem, mas que também sabem se fazer pagar. Anos atrás, contaram-me, ganhava-se muito, mas agora não mais trabalham com lucro.
            Nos Cafés, uma porção de qualidade inferior custa quatro vinténs. Consiste ela de uma cafeteira de tamanho regular, servida com açúcar não refinado, leite, que mais parece água, e pão francês com manteiga um tanto rançosa, de procedência inglesa. Nesses Cafés também vendem limonada não dos limões verdadeiros, mas da outra espécie. É uma bebida indiferente como a laranjada, que logo azeda com o calor. A chamada cerveja porter que se consegue aqui, vem da Suécia, custando a garrafinha uma pataca. Seria ótima, se a longa viagem não lhe desse um gosto azêdo. O preço dessa cerveja é bastante alto.
            Devido às nuvens de moscas que se encontram nos Cafés, nenhum estrangeiro pode neles demorar-se. Mais familiarizados com esses insetos, os brasileiros suportam-lhes melhor o incômodo; pelo visto estão conformados com sua presença diária, entra ano sai ano, ao passo que entre nós elas só aparecem mais numerosas nos verões quentes e tratamos por todos os modos de lhes evitar o zumbido e as picadas. Existem também Cafés com bilhares, mas nunca os frequentei.
            O vinho mais barato custa meia pataca a garrafa. Chamam-no vinho de Lisboa e é bem razoável: uma espécie de vinho verde que vem de Portugal. Bebia-o todos os dias misturado com água. Os demais são demasiado quentes e além disso caros.
Pode-se beber do vinho leve português em quantidade, sem inconveniente para a saúde.
Aqui não se toma água sem misturá-la com um pouco de vinho, rum ou outra bebida; senão faz mal. Lembro-me de que certa vez, almoçando com um amigo, bebemos três garrafas desse vinho em cinco de água sem o menor efeito para a saúde. O constante e intenso calor exige muito líquido porque o corpo está sempre a transpirar. Nem por isso o apetite é menor e, com voracidade, volta-se a comer poucas horas depois de uma refeição.
             Os aluguéis aqui são extravagantemente altos. Uma casa bem modesta, das que eu antes descrevi, custa por mês e sem móveis de 14 a 16 mil-réis, ao redor de 24 táleres prussianos. Quando uma casa fica vazia e querem alugá-la, coloca-se à porta uma folha branca de papel, que indica estar ela disponível. Os pretendentes informam-se junto dos vizinhos sobre o nome e o endereço do proprietário. Assinado o contrato, que exige duas testemunhas, recebe-se a chave e faz-se na casa o que bem se entende, como se fosse própria. O senhorio nada mais tem a dizer.
As casas maiores são proporcionalmente mais caras do que em Berlim. Quartos mobiliados são poucos e ainda por cima caros e maus. Morei dois meses na rua da Ouvidor em casa do restaurateur Pharoux e por um quarto mau, com marquesa, uma mesa e três cadeiras, iluminado somente pelo vidro da porta, pagava dez táleres prussianos. Um francês de nome Armand, que conheci em Königsberg (Prússia) e vim rever inesperadamente aqui na Capela Real, tinha alugado, em casa de um costureiro de sua nacionalidade, simples compartimento separado por um tabique de pano ou melhor, de gaze, como nas nossas despensas e, por essa miserável alcova, constando de marquesa, mesa e cadeira, tinha que pagar os mesmos dez táleres mensais.
             Os fiacres de aluguel ou as chamadas seges custam preços absurdos. Devem ser tomados de véspera, pelo dia todo ou meio dia, não se conseguindo alugá-los por prazos mais curtos. São carros de duas rodas, pequenos, semicobertos e forrados, por dentro, de couro vermelho ou verde e tão estreitos que mal podem neles sentar-se duas pessoas. Duas cortinas de couro protegem pela frente contra a chuva e de cada lado há uma janela de correr, que deixa ao menos respirar nas horas de calor. Duas mulas magras, uma delas montada por um boleeiro quase sempre embriagado, puxam esse veículo, que mais se assemelha aos carrinhos de feira, atrelados a macacos ou cães e que andam às voltas, conduzidos por italianos, em barracas especiais, nas grandes cidades alemãs e francesas, para diversão das crianças e da plebe.
            Por um desses meios de transporte, dos quais também se servem os primeiros fidalgos e os camaristas que acompanham o séquito real, paga-se, compreendida a gorjeta, por um dia inteiro — das sete da manhã à meia noite — dez táleres, e por meio dia — das sete da manhã às doze horas ou das duas da tarde às doze da noite — seis táleres. Se o carro se detém mais tempo, no teatro por exemplo, desatrela o boleeiro os animais, levando-os para trás do carro, a fim de livrá-los da pressão dos varais. Quando há que alimentá-los, param o carro em qualquer lugar, desatrelam as mulas, abrem a portinhola e, levantado o tampo do degrau em que é guardado o milho, deixam-nas comer à vontade, o que constitui uma cena curiosa para o forasteiro. Às vezes há um segundo boleeiro, que leva uma tocha e exige uma gorjeta suplementar de duas patacas.

            A iluminação das ruas à noite, com as ditas tochas, constitui uma necessidade, porque, mesmo no verão, já é escuro às oito e, nas ocasiões de beija-mão, os esbarrões no tráfego são comuns devido à aglomeração e ao movimento. Nesses pequenos carros anda-se, aliás, com conforto e segurança. Embora a condutor nem sempre esteja sóbrio, sua agilidade é tal que raramente ocorrem acidentes; direi mesmo que os cocheiros do cabriolé parisiense não lhe levam vantagem.
            Sendo o aluguel destas seges, em número aliás apreciável, muito alto, existem ainda dois carros maiores e cobertos, que podem levar seis pessoas, pagando cada uma apenas três patacas ou 1 1/2 táleres. São forrados ele couro por dentro e puxados a quatro mulas. Três pessoas sentam-se comodamente atrás e três vão de costas.
Tais conduções saem todos os dias para São Cristóvão. Há que reter os lugares de véspera, pagando adiantadamente três patacas. A partida é às quatro da tarde. Em certos dias de audiências vão primeiro à casa do ministro de Estado, Tomás Antônio, além de Catumbi. O ministro dá audiência prévia até às seis horas aos que se dirigem ao beija-mão real, de onde continuam para São Cristóvão — mais meia hora — cerimônia que começa às oito horas. Disseram-me que essa empresa de transporte é dirigida por clérigos, que ganham bom dinheiro e sabem afastar por todos os modos quem pretenda do Governo uma licença para introduzir no país serviço mais consentâneo e muito mais barato, como o das diligências em Berlim. Um bom transporte seria aqui muito de desejar, dado o afastado dos bairros e vista ser inconveniente à saúde andar demais a pé, como descobri por experiência própria ao ter, por economia, que caminhar hora e meia mais de uma vez para ir até meu cunhado, durante o dia, no Catete. Em pleno calor, sem guarda-sol, que é costume usar-se aqui, chegava tão fatigado que era obrigado a descansar meia hora numa marquesa.
             No calor do meio-dia, deve-se tomar toda o cuidado em não descobrir a cabeça, por ser fácil apanhar uma insolação, que, na opinião dos médicos locais, não tem cura, caindo-se numa espécie de demência que só desaparece com a morte.
            O aluguel de cavalos é relativamente tão caro quanto o das seges e também devem ser tomados por meio dia ou dia inteiro. Tive que pagar quatro patacas ou dois táleres por meio dia. Provenientes do interior, são bons e não muito grandes — mais ou menos como os cavalos polacos — mas bem proporcionados, sobretudo dos quadris. Um cavalo novo e forte custa doze, quinze e até vinte louis d'or. Comem milho e capim (uma grama alta como o junco), que são muito caros. Apesar do custo da manutenção, todo mundo tem seu cavalo.
Os alfaiates, por exemplo, visitam os fregueses a cavalo e levam um negrinho de dez a doze anos trazendo à cabeça um amarrado, montado na garupa, junto à cauda do animal. Quando o patrão trota, trotam eles também, o que é uma cena do mais alto cômico."

Fonte: LEITHOLD, Theodor von e RANGO, Ludwig von. O Rio de Janeiro visto por dois prussianos em 1819. Brasiliana vol.328, 1966



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