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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O Rio de Janeiro da Belle Èpoque na visão do pintor Gustavo Dall'Ara

                                                                          



                                                Gustavo Dall'Ara, Auto-retrato, 1913. MNBA

                                                             
                            Marinha, porto do Caju, Rio de Janeiro, 1905. Col. Fernando de Assis
                                
             
          As visões do Brasil, no século XIX, estavam intimamente relacionadas com o desenvolvimento técnico e científico ocorrido durante o século anterior no Velho Mundo. Tudo influenciou na imagem europeia do Brasil e da América: interesses econômicos e filosóficos, a busca pelo exótico, os estudos científicos, a insatisfação e a procura por algo diferente. Assim, define Sergio Buarque de Hollanda (1985), o Brasil do oitocentos:

ora como algo de vago e confuso, ora como a Terra da Promissão, ora como a sucursal do Inferno, como um Paraíso da natureza, como um excelente lugar para investimentos comerciais, como o centro das esperanças europeias ou como uma terra de vagabundos e bandidos – quando não como simples objeto de curiosidade – era que o Brasil tomava seu lugar entre as nações independentes. Um traço, porém, ligava todas estas imagens: a certeza de enormes possibilidades materiais do país, projetando-o como uma importante nação do futuro (p. 63).

                                                                                
                                  A  ronda da favela, Rio de Janeiro, s/ano Col. Sahione Fadel


                           Casario em Santa Tereza, Rio de Janeiro, s/ano Col. Agnaldo de Oliveira


Os viajantes que percorriam o vasto brasileiro, fossem eles naturalistas ou não, contribuíram, por meio de suas narrativas, fotos, pinturas e mapas para o conhecimento e estudos do Brasil do século XIX. Esse olhar sobre o país, levado à Europa, saciava o exótico que os europeus queriam conhecer. porque o material da  viagem era objeto tanto de exposição – pública ou privada –, como de pesquisa científica. No final do oitocentos e início do século XX, mostra-se nas pinturas e retratos, também uma modernidade tropical que retrata, ao mesmo tempo, o velho e o novo que tentam, de uma forma inusitada, mostrar a transição da colônia/império para o Brasil república.


                            Favela. Rio de Janeiro, 1917.  Col César Bertazzoni


            Como um repórter de seu tempo, Gustavo Dall’Ara empresta sua visão realista para tudo que lhe atraía na cidade. Lavadeiras em suas lidas, ruas e praças com seu ir e vir de pedestres, bondes, carroças e tudo mais que por elas passasse. Quando fazia esboços ao ar livre, seu trabalho adquiria uma linguagem bem impressionista, como mostra a imagem abaixo. Nesses momentos, de menor formalismo, e sem o rigor fotográfico que desejava em suas cenas, sensações atmosféricas como brumas e sombras brilhantes, ganham muito mais vigor em sua obra.



                          Largo de São Francisco de Paulo, depois da chuva. Rio de Janeiro,s/ano
                                                                     Col. Ronaldo do Valle


 Praia do Flamengo, Rio de Janeiro, 1917 - Col. José Carlos Bruzzi Castello


                               Rua 1º de março. Rio de Janeiro 1915  Col. Itaucultural

Ao mesmo tempo em que sua obra é quase um retrato do cotidiano do Rio, percebe-se em alguns momentos, uma cidade em transição, com os automóveis substituindo as charretes e os bondes, e as pessoas naturalmente entrosadas com tudo isso. Cenas que lembram muito a Paris de Cortês[1] e Galien Laloue[2], salvas as características arquitetônicas de cada uma. Fica a sensação de que, pelo menos nesses momentos, o olhar de um estrangeiro com olhar da modernidade parisiense tenha pesado em algumas de suas composições.

                  Rua Dom Manuel. Rio de Janeiro, s/ano.  Museu Histórico Nacional

                                 Rua com aguadeiros. Rio de Janeiro s/ano.  Col.  Jean Beghici


                                    Glória, 1907.Rio de Janeiro. Col. Itaucultural


Esse magnífico pintor pintor de cores vivas estudou na Academia de Belas Artes de Veneza com os pintores Villa e Franco Dall'Andrea, entre 1882 e 1883. Estreou na Exposição Nacional de Veneza de 1887. Por motivos de saúde, transferiu-se, em 1890, para o Rio de Janeiro, onde primeiramente trabalhou como chargista e ilustrador na revista ilustrada Vida Fluminense[3].   Na Exposição Geral de Belas Artes[4], conquistou medalha de prata de segunda classe, em 1901, e grande medalha de prata, em 1913. Sua obra figurou nas exposições  mais contemporâneas, organizadas pelo Museu Nacional de Belas Artes: Auto-Retratos (1944), Retrospectiva da Pintura no Brasil (1948) e 150 Anos de Pintura de Marinha na História da Arte Brasileira (1982). Em 1992, uma paisagem de sua autoria (óleo s/ tela, 1914) integrou a mostra “Natureza: Quatro Séculos de Arte no Brasil”, no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro. Sobre a vida do pintor no Rio de Janeiro escreveu Raul Pederneiras: "Gustavo Dall'Ara, veneziano aqui ficou revelado como pintor da cidade, que ele interpretou com maestria, apreciando e sentindo as águas, os montes e o casario de uma forma encantadora."


[1] Édouard Léon Cortès (1882-1969). A arte de Édouard era serena, parecendo estar viva diante dos olhos e  coloridamente significativa. Para ele, importava capturar as ruas, as cores, o espírito parisiense. Era a Paris de todos os dias, através dos olhos.
[2] Eugène Galien-Laloue, (1854-1941) foi um francês de descendência franco- italiana que nasceu em Paris.Era um popularizador de cenas de rua, normalmente pintados no outono ou inverno. Suas pinturas, dos anos 1900, representam a época em que ele viveu: a animada Paris da Belle Époque , com carros puxados por cavalos e bondes e seus primeiros autocarros.
[3] A revista ilustrada A Vida Fluminense foi lançada, na corte, no dia 4 de janeiro de 1868, em continuidade a O Arlequim, que, por sua vez, sucedera ao Bazar Volante (1863), criado pelo desenhista francês Joseph Mil. Editada por Augusto de Castro e Antônio de Almeida, este último padrasto do grande Ângelo Agostini, que também participaria da sociedade tão logo chegou de São Paulo
[4] As primeiras exposições de artes plásticas no Brasil ocorreram em 1829 e 1830, organizadas pelo pintor Jean Baptiste Debret, integrante da Missão Artística Francesa e professor da Academia Imperial de Belas Artes. Eram mostras restritas aos alunos e professores da instituição e se interromperam quando do retorno de Debret à Europa, em 1831. Somente em 1840, por inciativa de Félix Émile Taunay, novas mostras de artes plásticas foram instituídas, através da criação das Exposições Gerais, onde os artistas participantes não necessitavam mais estar vinculados (enquanto alunos ou professores) à Academia Imperial. Mesmo com a Proclamação da República, em 1889, as Exposições Gerais continuaram a ser realizadas, apesar de a Academia Imperial ter se udado seua designação para Escola Nacional de Belas Artes. 







quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Pesquisando a Casa de Paulo Robin dirigida por G. Klumb



Procissão do Corpo de Deus, Igreja do Carmo



Pesquisando fotografias que vi na Brasiliana, descobri uma casa comercial alí citada como Casa de Paulo Robin, e litografias lindas da cidade do Rio de Janeiro, tiradas por G. Klumb, que não conhecia. Curiosa, fui pesquisar (tudo na História do Rio me interessa!) e descobri, então, a Lithographia e Zincographia Artística e Commercial, citada no Almanak Laèmmert como  

Paulo Robin & C., premiados em diversas exposições, r. da assembleia, 44 e 46 Lithogrphia artística ecomercial, especialidade de  chromolithografia, mapas geográficos, ações de companhias, letras de câmbios, diplomas de sociedades, etc., etc.



            Fui verificar se havia bibliografia acadêmica específica sobre Klum, ou Paulo Robin. Quem eram? De onde vieram? Descobri que são citados em pesquisas sobre imagens, mas queria saber um pouco mais, além, apenas, das citações. Passo a pesquisa[1]. Adorei!. Deliciem-se!
            Estima-se que o francês Paul Théodore Robin (-1897) tenha chegado  ao Rio de Janeiro em 1853-1854, já com experiência litográfica, pois logo à chegada formou a sociedade Alfredo Martinet & Paulo Robin, com litografia na Rua da Ajuda, 113, que durou poucos meses. Em 1860, Robin já aparece no Laèmmert com ateliê de “fotografia e ambrotipia” na Rua dos Ourives, 117, primeiro andar, uma sociedade Maupoint & Robin, uma prática que iria beneficiá-lo futuramente, quando montasse sua própria oficina de fotogravador. A sociedade com Maupoint também pouco durou, cerca de um ano. Em 1862 já possuía seu próprio ateliê fotográfica, estabelecido à Rua São José, 94 e 96, a “Officina de Paulo Robin, dirigida por Henrique Klumb”. Em 1875, a firma se modifica passando a denominar-se Angelo & Robin, sendo o sócio principal Angelo Agostini, litógrafo italiano.

Passeio Público. Atente que a foto é anterior aos melhoramentos de Pereira Passos, no início do século eguinte.

Igreja de São Francisco da Penitência



Revert Henrique Klumb (Alemanha, 1830 - 1886) foi fotógrafo. Não se conhece o ano da chegada ao Brasil[2], mas sabe-se que se instala no Rio de Janeiro em 1852. Entre 1855 e 1862, realiza diversas vistas estereoscópicas da capital imperial e é, provavelmente, o introdutor desse processo no país. Em 1860, é condecorado com uma menção honrosa na 14ª Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial de Belas Artes. No ano seguinte, documenta a inauguração da primeira estrada de rodagem brasileira, a União-Indústria, ligando Petrópolis, no Rio de Janeiro, à cidade mineira Juiz de Fora. Klumb obteve o título de Photographo da Casa Imperial no Rio de Janeiro, o que proporcionou ao estabelecimento de Robin grande reconhecimento aproveitado em suas propagandas. [3] Klum foi autor do livro de fotografias Doze Horas em Diligência: Guia do Viajante de Petrópolis a Juiz de Fora, o que possibilitou ser um dos pioneiros da edição de livros de fotografia no Brasil. A partir de 1866, ao mudar-se para Petrópolis, torna-se instrutor de fotografia de D. Isabel do Brasil (1846-1921), em Petrópolis. Além de retratar uma clientela nobre, Klumb é conhecido pelas paisagens e por registrar plantas, aves e naturezas-mortas, temas pouco comuns na fotografia oitocentista. Publica, em 1872, Doze Horas em Diligência. Guia do Viajante de Petrópolis a Juiz de Fora, um dos primeiros livros de fotografia editados no Brasil, com textos e fotos de sua autoria. Entre 1860 e 1870, mantém sociedade com Paul T. Robin no estabelecimento Photographia Brazileira. Por volta de 1885, muda-se para Paris com a família, mas, no ano seguinte, devido a problemas financeiros, solicita passagens de volta ao Brasil à Imperatriz dona Teresa Cristina (1822-1889) ainda que a passagem lhe tenha sido encaminhada, não se sabe se foi para Salvador, com pretendia, ou se permaneceu na Europa.
Klumb foi o primeiro fotógrafo a documentar a paisagem carioca de maneira ampla e sistemática. Possivelmente entre 1855 e 1862, realiza cerca de 200 imagens estereoscópicas mostrando a capital do império ainda com feições coloniais. Registrou o Passeio Público antes da reforma iniciada em 1862, a Floresta da Tijuca, o Jardim Botânico, edifícios públicos, monumentos históricos, vistas gerais da cidade e cenas urbanas com o movimento das ruas. As fotos que aqui publico são, todas, do período 1865-1867.
As imagens panorâmicas feitas por Klumb do alto dos morros, lembram o caráter descritivo da pintura holandesa do século XVII. No Passeio Público e no Jardim Botânico, a figura humana está quase sempre presente, apresentada de maneira diminuta em relação à exuberância da flora. Outros temas enfocados por Klumb o singularizam em relação à fotografia oitocentista brasileira: por volta de 1860, ele retrata lavadeiras na Floresta da Tijuca e registra uma procissão em frente à capela imperial, o que demonstra seu interesse pelo cotidiano da cidade. Fotografou também,aves e plantas nos jardins da residência da princesa Isabel (1846-1921), naturezas-mortas e, por encomenda do imperador dom Pedro II (1825-1891), os interiores do Palácio de São Cristóvão.


Interior do Hospital da Marinha, Ilha das Cobras

Fachada da Usina de Gaz
 
Canal do Aterrado, Morro Santos Rodrigues. Caixa D'Água

Embarcadouro da cia. Ferry, Cais Pharoux


Igreja de São Francisco da Penitência


 
Escola Militar, Largo de São Francisco






[1] Ler FERREIRA, Orlando da Costa. Imagem e Letra - Introdução à Bibliografia Brasileira: A Imagem Gravada. 2ª ed. São Paulo: Edusp, 1994, pp. 398-399. As fotos de Klumb fazem parte do acervo Tereza Cristina da BN.
[2] Era muito comuns que os viajantes estrangeiros, que visitavam o Brasil  retratassem a exuberante flora e fauna, os costumes, etc..
[3] Além dele, Germano Wahnschaffe e Augusto Stahl também receberam esse título.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Uma casa de fotografias quase desconhecida, a Casa Leuzinger




 Tivemos, no Rio de Janeiro, a fotografia na época chamada de daguerreotipia, no ano seguinte à apresentação do invento na Exposição Universal de 1839. A maioria dos "fotógrafos", inclusive uma mulher, Henriqueta Arms, que atendia à Rua dos Latoeiros (atual rua Gonçalves Dias), número 83, estabeleceu-se na Corte, no centro da cidade, outros, viajaram pelo Brasil. Um desses "fotógrafos" estabelecidos na Corte, e também editor, foi George Leuzinger, de que aqui me ocupo.



George Leuzinger, 1863. Fonte: Acervo IMS



A Casa Leuzinger foi criada, em 1840, pelo fotógrafo sueco George Leuzinger (1813-1892) Funcionou como papelaria, a princípio e posteriormente como oficina de gravura, tipografia e litografia, e onde, a partir da metade da década de 1860, é instalado um ateliê fotográfico. A Casa foi referência em artes gráficas, impressão e divulgação de gravuras e fotografias pois, além de produzir suas próprias imagens, o estabelecimento comercializava obras de fotógrafos como Marc Ferrez (1843-1923) e Albert Frisch (c. 1840-c. 1905), dentre outros.
Em 1845, a Casa Leuzinger publicou o “Panorama circular da baía de Guanabara”, em 6 partes, com litografias do francês Alfred Martinet[1]. São as primeiras estampas editadas pela Casa. Leuzinger editou também vários jornais em alemão redigidos, segundo Ernesto Senna em “O velho commercio do Rio de Janeiro”, de 1908, “por alguns revolucionários e socialistas que a revolução de 1848 havia feito fugir da Europa”. Ainda, segundo este autor, a Casa  Leuzinger encarregou alguns desses forasteiros, que muitas vezes eram também artistas, de produzir imagens do Brasil e de seus costumes populares. Essas imagens eram vendidas na Casa Leuzinger a estrangeiros que passavam pelo Brasil.


Aqueduto da Carioca , 1865 Leuzinger. Fonte: Brasiliana

Aléa das palmeiras, Jardim Botânico, 1865 Leuzinger
Fonte: Brasiliana



A seção de fotografia da  Casa Leuzinger foi, provavelmente, dirigida por Franz Keller-Leuzinger (1835-1890), que era casado com uma das filhas de Leuzinger, Sabine Christine. Leuzinger foi considerado por Pedro Vasquez[2], “o primeiro marchand de fotografias do Brasil. Isso no sentido de distribuidor de fotografias e não no sentido moderno que damos ao termo, de galerista”.
Acredita-se que o jovem Marc Ferrez (1843-1923) recebeu seus primeiros ensinamentos de fotografia de Franz Keller, na Casa Leuzinger. Dois anos depois, em 1867,o trabalho do ateliê fotográfico de Leuzinger ganhou Menção Honrosa na Exposição Universal de Paris, com um panorama tomado da ilha das Cobras. É a primeira premiação internacional do Brasil em fotografia. Apresentou também fotos de indígenas tiradas pelo alemão Albert Frisch (1840-c. 1905),  que havia viajado com Keller para o Amazonas.






O “Catálogo da Exposição de História do Brasil”, especialmente editado por Leuzinger para o evento, realizado entre 1881 e 1882, pela Biblioteca Nacional, foi considerado pelo historiador José Honório Rodrigues (1913-1987) “o maior monumento bibliográfico da história do Brasil até hoje erguido”.


[1] Joseph Alfred Martinet (1821 – 1875) dedicou-se à paisagem e ao retrato. Gilberto Freyre indica ter o fotógrafo chegado ao Rio de Janeiro em 1841, vindo do Havre, França, indo trabalhar na oficina litográfica de Heaton & Rensburg e na editora dos irmãos Eduardo e Henrique Laemmert. Para Ferrez, Martinet foi o “melhor litógrafo que por aqui passou." (Apud RIBEIRO, Monike Garcia, O prazer do percurso, Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro).
[2] Pedro Vasquez nasceu no Rio de Janeiro em 1954. Fotógrafo, historiador, curador e professor. Viveu em Paris entre 1974 e 1979  na cidade, forma-se em cinema pela Sorbonne e publicou seu primeiro trabalho como fotógrafo-autor: "A la Recherche de l'El-dourado". Pedro Vasquez destaca-se pelas pesquisas no campo da fotografia realizada no Brasil no século XIX. 

sábado, 26 de dezembro de 2015

FELIZ ANO NOVO!

Um mapa do mundo que não tenha utopia não merece uma espiada[....] (Oscar Wilde)


                                        

            Que é utopia? É o irrealizável, o sonho, a ilusão? Ou é o divagar do consciente por mágicas planícies de sonho distantes, mas plausíveis?
            Creio que a escolha depende do tipo de gente que somos. O pessimista, aqueles para quem nunca nada dará certo, e os jornais estão cheios de pessimistas!, por certo optarão pela primeira hipótese. a escolha deve-se ao medo, insegurança, u receio de como continuar sendo pessimista em um mundo agradável, onde se escolhe ver tudo cinza.
            Por outro lado, quem vê a vida colorida, entre os quais me incluo, optarão pela segunda hipótese. Esses, como eu, sonham e porque sonham, têm esperanças. são utópicos, dirão os outros!
            E por que escrevo, em desabafo, tudo isso? Por que estamos, no Brasil, sendo adestrados (a palavra é essa mesma!) a não ter esperança, a não sonhar...
            Olhe os jornais, qualquer um, são um exercício diário de nos tornar capazes de não ter esperança. E como mostram o mundo os Manuais da Desesperança Diários? Mostram seres humanos em longas jornadas a pé para fugir da guerra, deixando no caminho sua dor e seu lamento e até a própria vida, para ter uma vida sem sofrimento; mostram psicopatas travestidos de ódio a despejarem em pessoas com bombas para depois matarem-se em nome de Deus que isso nunca lhes pediu, ou a ninguém; são criminosos soltos travestidos de políticos e empresários, a debochativamente  perguntarem-se: quanto mais posso fazer?;  mostram imagens coloridas a apresentar-nos a nova bala perdida (e encontrada, infelizmente por algum morador pobre das favelas) em um lastro de sangue; é a nova lista de policiais corruptos a fazerem festas (a última foi agora, antes do Natal de 2015!) no novo presídio para onde estão detidos; mostram novos nomes a engrossar as muitas listas da Lava-Jato (e eu me pergunto por que não dão logo os nomes todos? Por que o conta-gotas, a novela ininterrupta e sem final feliz?); mostram que o Rio faliu; mostram que pessoas morrem à porta dos hospitais do Rio que não têm como atender paciente: mostram em manchetes as novas dívidas da PETROBRAS após a imensa roubalheira; mostram em detalhes com entrevistas de "especialistas", o tira não-tira a presidente eleita democraticamente; mostram as palavras do PSDB  (sempre um “santo”, mas e o Azeredo?!, e a pasta rosa?!); mostram a ineficiência de rica mineradora destrói cidades, o ecossistema de dois estados brasileiros ee mata várias pessoas; mostram a tristeza epistolar de Temer que respinga das lágrimas do seu autor e alegra as redes sociais de tanto deboche; mostram o mosquito que só infligia dengue, mas agora infecta também com Zica e Chikungunya, numa especialização voraz de contaminação e morte; mostra o volume morto dos rios do sudeste a cada dia mais morto, sem chuva suficiente; só desgraça...
            Mas, você leu em tanto jornal, alguma réstia de esperança? Eu li, escondida a notícia, entre tantas outras (creio que o jornalista autor do artigo teve de brigar com o Editor para colocá-la no nosso Manual de Desesperança Diário , o jornal (de papel, televisivo, radiofônico e de internet):  a FIOCRUZ desenvolve pesquisas, até agora bem sucedidas, de extinção do mosquito contaminador por outros mosquitos iguais, estéreis; um rapaz pobre e esforçado foi campeão mundial de surf; pescadores que sofreram um naufrágio salvam-se, todos; os Correios, de novo (como todo ano fazem!) respondem aos pedidos de Papai Noel das crianças com imensa rede de solidariedade; igreja (não sei qual religião) fez linda festa de Natal para moradores de rua na Cinelândia; várias pessoas se juntam para dar, todo os dias do ano, comida aos moradores de rua; número de doações aos moradores de Minas, que perderam suas casas em tragédia da lama, supera expectativas; mais um cãozinho voltou ao lar após pedido nas redes sociais; criança sequestrada foi recuperada às vésperas do Nata (os pessimistas dirão que teve medo e abandonou a criança, eu, otimista, penso que se arrependeu do ato insano cometido!);  o STF jogou no lixo as tramóias de Cunha; o Papa Francisco visitou o continente africano indo a lugares perigosos; firmado em Paris o primeiro acordo global contra a emissão de gases que provocam efeito estufa; desde outubro empregados domésticos no Brasil têm direito ao FGTS; uma substância foi produzida por um pesquisador aposentado (mas não inativo!) de São Paulo que pode curar o câncer atrás da inibição e destruição da célula doente; derrota do chavismo nas urnas da Venezuela; a suprema Corte Americana legalizou a união de pessoas do mesmo sexo (que podem, enfim, viver em paz!) nos 50  estados; os alunos de São Paulo invisibilizaram com a ocupação de suas escolas medida arbitrária do Secretário de Educação (que pediu demissão!) endossada pelo governador que teve, ante ao apoio da população aos alunos, de voltar atrás na sua decisão; o Rock in Rio reuniu muita gente a cantar feliz no Rio de Janeiro; Cuba e Estados Unidos reatam laços rompidos na Guerra Fria; Papa intermedia a reaproximação de Cuba e Estados Unidos; Brasil recebe refugiados de braços abertos; só boas notícias, mas não pude colocá-las todas, que existem!, por que nosso Manual da Desesperança Diário não as publica. É difícil sabê-las.
            Mas, terminando o ano de 2015, peço que reflita: o sonho é o alimento da alma, que se revigora a cada amanhecer. Não perca o seu. Sonhos são como utopias, difíceis, mas é pela luta que empreendemos nossa jornada na vida. Nada é fácil!

            Neste final de ano, não seja adestrado pelo Manual da Desesperança Diário. Deseje um Feliz Ano Novo! Veja os fogos, mais uma vez, com olhos de que nunca os viu. Pule sete ondas, coma ervilha ou romã, coma uvas... Sonhe! Deseje-se boa sorte! Crie listas do que fará no próximo ano, mesmo que saiba que não a lerá a partir de 1º de janeiro. Desperte o otimista que existe dentre de você e, com um copo ou uma taça, de refrigerante ou espumante, deixe sua esperança contaminar beneficamente os que estão perto de você. 

                Feliz 2016!

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Passos com História no Rio de Janeiro


            
           Com a história da cidade literalmente surgindo aos nossos olhos devido às muitas obras no Rio de Janeiro, imagino que poderia, como pode o colega José Manoel, “flanar” pela cidade , como fazia o cronista João do Rio no início do século passado e, ao mesmo tempo, historiá-la. Esse movimento, de quem ama o Rio de Janeiro, como eu, é possível a qualquer um.


            Para acompanhar esse trajeto e os passos de José Manoel pela cidade, a dica é estar no dia 3 de dezembro, às 17h, no Museu da Justiça (Rua Dom Manoel, 29 - Centro), o professor lançará o livro Passos com História no Rio de Janeiro (Editora Autografia). Neste momento, em passos largos, revisitaremos partes de nossa História citadina, desde a chegada da Família Real até a instauração da República. Ao “flanar” junto a José Manoel teremos a grata oportunidade de conhecê-la bem melhor.

domingo, 29 de novembro de 2015

Salvou-se um patrimônio cultural do Rio de Janeiro!



                                                     Sobrados geminados que compunham o Cinematógrafo Ideal.                                                                     A foto  apenas mostra a construção, não sendo da época que descrevo no texto


O Cinematographo[1] Ideal estava localizado na Rua da Carioca nos números 60 e 62, no período em que funcionava apenas como cinema. O Ideal era vizinho do Soberano[2], bem próximo à Praça Tiradentes. O prédio, de dois andares, tinha uma sacada que separava os dois pisos. A parede, em relevo, do segundo andar, possuía quatro janelas em arco, duas a duas. A inovação do local se refletia no teto móvel que se abria nas noites de verão, melhorando o arejamento do local. O Soberano, seu concorrente, à época, apenas abria o salão, afastando as paredes. O teto móvel foi obra do engenheiro Eiffel, o mesmo que projetou a famosa e imponente torre de Paris[3]. Completavam a construção duas escadas laterais e uma nos fundos, em ferro batido, que conduziam ao balcão, onde azulejos portugueses, em relevo, decoravam as paredes.



Foto do teto restaurado da, hoje, Maison Leffié.


Os quatro sobrados que compunham originalmente o Ideal foram construídos, em 1905, pelo construtor Miguel Bruno, a mando de seu proprietário, o Visconde de Morais[4]. 


José Júlio Pereira de Morais, Visconde de Morais, primeiro proprietário do terreno


           O Cinematógrapho Ideal foi inaugurado em 1909, pela Empresa Pereira, Pinto e Cia., do ramo cinematográfico, adquiriu os quatro imóveis, passando, posteriormente, ao empresário Manoel Pinto, que o transformou mais tarde em teatro. Em 1913, o local passou por uma grande reforma que ampliou sua sala de projeção e colocou-o entre os maiores cinemas da cidade, ao lado do Cinema Avenida Central e do Íris, situado também na Rua da Carioca.

O Ideal era o cinema fixo[5] mais antigo da Rua da Carioca. Sua inauguração ocorreu com um grande programa de filmes. Neste momento o filme, não era, ainda, falado, mas narrado[6].

            Explica Gatto (2012) que:

[...] este é um cinema de mostração, já que ali, mais importante que dizer sobre si, é mostrar uma ação; [que] extravasa o contexto fílmico e cria a denominação cinema de atrações relacionando-o com um contexto específico: o fim do século XIX e o início do século XX (p. 2)


Anos depois, para a inauguração do cinematógrafo como cine-teatro, ampliando seu envolvimento cultural, em 12 de maio de 1926, o Ideal apresentou a peça “Cala a boca, Etelvina”, de Armando Gonzaga[7], que depois virou filme, estrelado por Dercy Gonçalves no papel título[8].. O elenco, conta-nos o site  encabeçado por Alda Garrido, contava com a participação de Olga Louro, Georgina Guimarães, Rosita Rocha, Manoel Durães, Augusto Annibal, Américo Garrido, Gervásio Guimarães e Pedro Celestino, além de mais duas figuras contratadas especialmente. O ensaiador foi o Sr. Augusto Santos. A música de autoria de Freire.



Peça Cala a Boca Etelvina, de Armando Gonzaga





O Correio da Manhã, em sua edição de 29 de abril de 1926, assim referiu-se ao local recém reinaugurado :

o Ideal tem condições para ser um Teatrinho capaz de atrair o público mais elegante. Ele é bem o que os franceses chamam de bonbonnière. A sua sala de espetáculos é verdadeiramente encantadora. Tudo no Ideal é gracioso. O espectador lá fica confortavelmente instalado e tem os olhos bem impressionados pelo ambiente. (p.2)


              Mais notícias apareceram sobre o Ideal ao longo do tempo nos jornais, face à sua importância cultural: 

  • em 1926, o Cinema Ideal passou a integrar a rede de cinemas de Luiz Severiano Ribeiro; 
  • em 1994, os dois sobrados que originalmente comportavam a sala de projeção, sofreram um grande incêndio; 
  • em 1996;  a construção foi vendida aos comerciantes Maurício Francisco Tauil e João Alves Ferreira; em O Globo de 10/06/2004, Joaquim Ferreira dos Santos, informava que “o Ideal, (...), um antigo poeira transformado em boate, foi vendido para o Real ABN Amro. Planeja-se abrir ali uma agência bancária ou um centro cultural.”; 
  • ainda no mesmo periódico, em 13/10/2008, o mesmo colunista revelava mais uma notícia sobre o teatro: “O Cine Ideal, na Rua da Carioca, está à venda por R$2 milhões. O prédio, que  é tombado, tem sido alugado para festas moderninhas”; 
  • agora, em nova notícia, Quitino Gomes Freire informa, no Diário do Rio, de 26/11/2015 que “Onde era o Cine Ideal agora tem uma casa de eventos, a Maison Leffié”.


            Ufa! Salvou-se mais um patrimônio da cultura do Rio! Viva!




Referências

FREIRE, Quintino Gomes. Onde era o Cine Ideal agora tem uma casa de eventos, a Maison Leffié. Diário do Rio. 26 de novembro de 2015. Disponível em http://diariodorio.com/onde-era-o-cine-ideal-agora-tem-uma-casa-de-eventos-a-maison-leffie/ Acesso 28/11/2015

GATTO, Veridiana Chiari.  O cinematógrafo e João do Rio  Anais. XV Encontro Regional de História ANPUH – RIO.  Rio de Janeiro: Associação Nacional de História, 2012

LIGHT. Cinematógrafo. Disponível em http://www.light.com.br/Repositorio/CCL/Cinemat%C3%B3grafo.pdf  Acesso 28/11/2015

SANDBERG, M.B Efígie e narrativa: examinando o museu de folclore do século XIX. In: CHARNEY, L.; SCHWARTZ, V. (Orgs.). O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

Teatros do Centro Histórico. ,Disponível em http://www.ctac.gov.br/centrohistorico/TeatroXPeriodo.asp?cod=97&cdP=17 Acesso em 25/11/2015




[1] Em 1907 foram inauguradas 33 salas de cinema na cidade do Rio de Janeiro. Entre 1907 e 1911, foram abertas 145 salas de projeção, com uma média de 29 salas por ano. Entre 1907 e 1920, foram inaugurados 230 cinematógrafos no Rio, com uma média de 16 salas por ano.  (LIGHT, Cinematógrafo. s/ano)

[2]A sala foi inaugurada em 31 de outubro de 1909, com 200 lugares, por João Cruz Júnior, com o nome de Cinematographo Soberano, homenagem do fundador a um de seus cavalos. No seu apogeu, chegou a ser frequentado por personalidades, como Ruy Barbosa, que tinha cadeira cativa na sala com suas iniciais gravadas. O estabelecimento sempre permaneceu sob controle da mesma família e hoje é administrado pelo bisneto do fundador, Raul Pimenta Neto. Posteriormente foi chamado de Iris.

[3] A Torre Eiffel foi construída por Gustave Eiffel para a Exibição Universal de 1889, em Paris, como comemoração do centenário da Revolução Francesa.

[4] José Júlio Pereira de Morais, 1º Visconde de Morais, nasceu em Sabrosa, junta da freguesia de Gouvinhas, Portugal, em 15.11.1848 e faleceu no Rio de Janeiro em  28.08.1931. Foi Presidentes do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro.

[5] Os primeiros filmes aparecem entre 1895 a 1908, eram chamados de early films e tinham como principal marca a produção do espanto em seus espectadores. Eram apresentados em feiras, teatros de variedades ou exibidores ambulantes, geralmente tinham apenas um plano que era apresentado em sequencia com outros planos sem continuidade temática. Estes breves filmes tinham como único intuito estimular, chocar seus espectadores, eram cenas burlescas como um elefante que é eletrocutado, cai e morre; um casal de namorados que é surpreendido por dois homens – um deles com uma pá – e são empurrados pra dentro de uma mata; meninas num internato que repentinamente promovem uma briga de travesseiros espalhando penas pelo quarto. São quadros cômicos, sem quaisquer preocupações morais. Além disso, não têm nenhuma presunção de velar o elemento ficcional, nestes filmes, o observador é convocado a participar da cena, a responder aos acenos e piscadelas dos atores (Gatto, 2012, p.2).

[6] A narrativa ajudou a tornar a modernidade atraente (Sandberg, 2001p. 397).

[7] A peça foi apresentada, antes (1925)  no Teatro Trianon (também foi Cine até 1921e posteriormente, a partir de 1938) com o seguinte elenco: Procopio Ferreira, Restier Junior, Manoel Pera, Henrique Fernandes, Abel Pera, Itala Ferreira, Hortensia Santos, Mathilde Costa, Georgina Guimarães e Albertina Pereira.

[8] Adaptada para cinema, por Victor Lima e Eurides Ramos, com o mesmo título, tendo no elenco: Dercy Gonçalves, Catalano, Manuel  Vieira, Zezé Macedo, Paulo Goulart, entre outros, com direção de Eurides Ramos.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Alcazar Lyrique: um teatro polêmico no Rio de Janeiro do século XIX




Ilmo. Exmo. Sr. Dr. Chefe de Polícia.

Tratado sempre com a maior delicadeza por V. Excia., que se torna distinto pelas suas maneiras atenciosas para com todos os que têm a honra de conversar com V. Excia., deveria ir pessoalmente procurá-lo para pedir-lhe um grande favor a bem da nossa sociedade; mas os contínuos afazeres, a que me entrego diariamente, privam-me desse prazer, e por isso lancei mão do meio mais fácil, e rápido, de comunicação, dirigindo-lhe esta carta, que, espero, será, cuidadosamente lida por V. Excia., a quem não falta bom senso e moralidade para decidir o que for mais compatível com os nossos usos, costumes e educação.

Há nesta cidade do Rio de Janeiro um estabelecimento, onde, todas as noites, por entre baforadas de fumo e de álcool, se vê e se ouve aquilo que nossos pais nunca viram nem ouviram, embora se diga que é um sinal de progresso e de civilização. Chama-se esse estabelecimento — Alcazar Lírico.

Apesar de velho, não sou carranca e retrógrado, e sei aplaudir todas as novidades que o estrangeiro nos traz, passando pela alfândega do bom senso, ou mesmo por contrabando, contanto que tenha uma capa de moralidade; mas quando essas novidades aparecem no mercado avariadas e cheias de água salgada, fico indignado, pergunto aos meus botões em que país estamos, convenço-me de que somos, na verdade, tidos por selvagens hotentotes, e imploro a Deus para que ilumine as cabeças que nos dirigem, a fim de que apliquem o ferro em brasa, na ferida, que começa a chagar-se pelo veneno que lhe inoculam.

Falo com esta franqueza, porque estou escrevendo a um magistrado morigerado e honesto, cujo principal desejo é bem merecer de seus concidadãos pelos seus atos de virtude e de rigorosa justiça. Enquanto se proibia a todos os teatros de brasileiros — representações nas sextas-feiras da quaresma e na véspera e no dia de Ramos, consentia-se que o Alcazar tivesse o salão aberto para moralizar o bom povo, que o freqüenta! Se
não há injustiça neste procedimento, seja de quem for, há pelo menos falta de equidade, que só redunda em proveito do francês, contra os brasileiros, que vivem na maior miséria, esmolando da concorrência dos seus teatros o pão quotidiano. V. Excia. dignar-se-á de explicar-me como se pode dar esse fato?

Rogo ainda a V. Excia. o especial obséquio de freqüentar essa casa de educação, não se contentando em mandar inspetores de quarteirão e mesmo o respectivo subdelegado. V. Excia. é um homem ilustrado, que conhece perfeitamente a língua francesa, e não só terá belas noites de divertimento, como fará um
relevante serviço à sociedade em que vive, e onde tem milhares de relações com todas as famílias decentes e honestas do Rio de Janeiro, as quais, por uma infelicidade do empresário, nunca encontrará nessa Academia.

Desculpe V. Excia. a ousadia de escrever-lhe esta carta, e permita que, d'ora em diante, lhe dirija muitas outras a respeito do meu protegido Mr. Arnaud e do seu especial e inimitável estabelecimento.

Por agora, contento-me com os pedidos acima feitos, esperando que não serão as minhas palavras atiradas ao vento.

Aqui me tem V. Excia. sempre pronto a cumprir as suas ordens como quem, com todo o respeito e consideração, é

De V. Excia. amigo, afetuoso e obrigadíssimo criado

Dr. Semana.
(MACHADO DE ASSIS,1864 apud MENDES, IBA. Machado de Assis Crônicas Completas, 2014, p.96-97)



            Ao ler essa crônica de Machado de Assis, originalmente publicada na Semana Ilustrada, fiquei curiosa. Fui pesquisar na internet o que seria o “estabelecimento” contra o qual, com sua fina ironia, desancara Machado em carta pública ao Chefe de Polícia.
            Descobri inicialmente um site[1] sobre antigos teatros da cidade do Rio de Janeiro que dava o endereço (Rua da Vala), data da inauguração (1959) e o nome do proprietário (Arnaud), além de muito boa bibliografia para quem se interessasse pelo objeto. Mais pesquisas levara-me ao projeto de pesquisa de pós-doutoramento, na PUC/SP, de minha ex-professora de História Contemporânea na UERJ, Lená Medeiros de Menezes[2]: “(Re)inventando a noite: o Alcazar Lyrique e a cocote comédiénne no Rio de Janeiro oitocentista”, publicada na Revista Rio de Janeiro, daquela universidade. Achei, também, artigo da mesma autora “Aimée, a Cocotte Comedienne e o toque feminino francês na noite carioca”, que complementa o artigo da Rio de Janeiro, oferecendo mais informações sobre a estrela do Alcazar, Louise Aimée.
         O Alcazar Lyrique teve os seguintes nomes entre 1866 e 1880: Théâtre Lyrique Français, Theatro Francez, Alcazar Lyrico Fluminense e Alcazar Fluminense. Era uma iniciativa privada, tendo sido idealizado pelo artista francês Joseph Arnaud, proprietário e empresário que pretendeu dar à casa de espetáculos a feição dos cabarés de Paris..
De acordo com o Jornal do Commercio de 17/02/1859, o teatro foi inaugurado com o seguinte repertório: "Ouverture; 1ère Partie: - Adieu, M. Lamoureux, chansonnette par Mlle. Adèline; - Le cabinet de lecture, scène comique par M. Amédée; - Un prince auvergnant, duo-comique par Mlle. Julie et M. Triollier; - La faurette du canton, par Mme. Maire; Le chat de Mme. Chopin, scène comique par M. Germain; Le vieux braconier, chansonnette par M. Amédée; - Air de Galathées, par Mme. Maire. 2ème Partie: 1ère présentation de "La perle de la cannebière", vaudeville en 1 acte de Marc Michel et Labiche. Distribution: Beautandon - MM. Amédée; Godefroid, son fils - MM. Triollier; Antoine, domestique de Beautandon - MM. Germain; Georges, domestique de Thérèson - MM. Alexis; Thérèson, macasse marseillaise - MMmes Céline Dulac, Mme. de Ste. Poule, Mmmes. Adèline Morand; Mme. Blanche, sa fille - MM. Julie Conjeon. O preço do ingresso de entrada foi, segundo o periódico, 1$.
Figuram depois como proprietários do teatro, além de seu primeiro dono,  D. Izabel (que deu nome ao estabelecimento, a partir de 1877), Antonio Gomes Neto e Lucinda Chabaud. Luis Ribeiro de Souza aparece como proprietário noRequerimento 50-2-60 de 15/02/1879. Após o falecimento de J. Arnaud, o teatro foi vendido pela viúva para o Capitão Luis de Carvalho Rezende em 1880[3].
Explica a professora Lená que o Alcazar Lyrique era um teatro de variedades, nos moldes do teatro criado por Offenbach[4] em Paris, onde a  plateia era uma participante da apresentação. A estrela da casa era Louise Aimée, uma cocotte comedienne[5], que parecia encantar a tantos quantos a vissem e, chocar outros, como Machado de Assis.
            Em seu artigo, Lená apresenta o Alcazar Lyrique como uma expressão burguesa da Paris de Napoleão III (período das reformas de Haussmann) e das Exposições Internacionais: o moderno ininterrupto e a consolidação das Ciências e da Indústria. As cocotes eram, então, a expressão dos tempos modernos que Paris irradiou pelo mundo e, no Rio de Janeiro, que se urbanizava a céleres passos, situava-se na Rua da Vala[6], números 43, 45, 47, 49 e 51.
            O teatro Alcazar era polêmico, e o escritor Joaquim Manuel de Macedo[7], que dele não gostava, como Machado de Assis, o considerava “satânico” porque era “o teatro dos trocadilhos obscenos, dos cancãs e das exibições de mulheres seminuas”[que] que ”corrompeu os costumes e atiçou a imoralidade”, [determinando] o “a decadência da arte dramática e a depravação do gosto”. (MACEDO, 1988, p. 142 apud MENEZES, 2007, p. 77)
            Gastão Cruls, médico e editor, também crítico tenaz do estabelecimento, segundo texto dele próprio, que Lená nos apresenta (p.74), denigre o estabelecimento com ásperas palavras:

[...] os velhos babosos, os maridos bilontras e a rapaziada bordelenga se davam rendez-vous todas as noites, para rentear as atrizes brejeiras e as cupletistas gaiatas que degelavam os mais idosos e rescaldavam os mais moços. (Cruls, 1965, p. 553)[8]


            E eu fiquei me perguntando se, sendo um teatro tão polêmico, porque teve tantos nomes? Por que durou tanto? E, lendo os textos de Lená verifiquei que faziam sucesso, porque esse teatro transgressor era “a moda de Paris” nos trópicos. E quem não queria ser moderno naquela época?
            E a própria Lená acrescenta à minha percepção sobre o porquê do sucesso, no texto sobre Aimée:
[...] as artistas do Alcazar tornaram-se símbolos emblemáticos de um novo viver urbano, no qual as artistas do teatro de variedades tomavam os palcos, invadiam as ruas e difundiam a moda para além dos limites de seu “meio mundo”; estrelas incontestes de um novo gênero teatral: leve, divertido e condizente com tempos nos quais trabalho e lazer travavam uma nova dialética[...] (MENEZES, s/d, p.2)[9]

            O teatro desaparece em 1877 devido à nova denominação. E, ao término desse escrito sobre o Alcazar, deixe-me confessar-lhes: Gostaria de ter ido lá, visto o vaudeville, e conhecido Aimée!



[2] Atualmente Professora Titular de História Contemporânea da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP).
[3] Dados do site Teatros do Centro Histórico do Rio de Janeiro.
[4] No período Haussmann (final do século XIX) como prefeito de Paris, Offenbach aproveitou o momento em que os espetáculos teatrais exploravam usavam o humor ácido para divertira as pessoas  levando inúmeros parisienses à plateia e criou o can-can (tema musical da opereta Orfeu no Inferno), onde mulheres quase despidas (o que para a época era moralmente condenável) dançavam e cantavam com a ajuda dos espectadores.
[5] Que hoje diríamos ser uma mulher bonita, jovem e disponível de origem francesa, que atuava como comediante.
[6] Depois Uruguaiana. A rua da Vala tinha essa denominação porque neste terreno havia um escoadouro das águas da cheia do rio Santo Antônio, pertencente ao Convento do mesmo nome.
[7] 1820-1882. Autor de A Moreninha, era médico de formação. Foi jornalista, escritor e professor.
[8] CRULS, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro. Notícia histórica e descritiva da cidade. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965.