Pesquisar este blog

sábado, 28 de março de 2015

Antigos jardins cariocas



1854


            Caiu-me às mãos, e aos olhos, o livro de Hugo Segawa, publicado em 1996, “Ao Amor do público: jardins do Brasil – (1779-1911)”[1]. Na obra, o autor não só especifica estes espaços públicos cariocas na periodicidade histórica, como faz interessante relato de alguns jardins no Rio de Janeiro de outrora. Começa ele com texto, interessantíssimo, de Machado de Assis, de 1895, que reproduzo:

Que achei eu do nosso século carioca? Achei que será contado como o século dos jardins. À primeira vista parece banalidade. O jardim nasceu com o homem. A primeira residência do primeiro casal foi um jardim, que ele só perdeu por se atrasar nos aluguéis da obediência, onde lhe veio o mandado de despejo. Verdade é que, sendo meirinho não menos que o arcanjo Miguel, e o texto do mandado a poesia de Milton, segundo crêem os poetas, valeu a pena perder a casa e ficar ao relento. Vede, porém, o que é o homem. O arcanjo, depois de revelar uma porção de cousas sublimes e futuras, disse-lhe que tudo que viesse a saber não o faria mais eminente; mas que, se aprendesse tais e tais virtudes (fé, paciência, amor), não teria já saudades daquele jardim perdido, pois levaria consigo outro melhor e mais deleitoso. Não obstante, o homem meteu-se a comprar muitos jardins, alguns dos quais ficaram na memória dos tempos, não contando os particulares, que são infinitos (p.11)[2].



            Também encontrei publicada on line, em pesquisa da Fundação Casa de Rui Barbosa, extensa bibliografia, sites e artigos que, ao término do texto informo, para quem se disponha a estudar um pouco mais este assunto fascinante.


Lago idealizado por Glaziou

            Sobre o Passeio Público, conta-nos o autor:

Nada mais singular, do ponto de vista urbanístico do Brasil do século XVIII, que a realização do Passeio Público do Rio de Janeiro.[...] Diferentemente dos espaços abertos do urbanismo colonial, o Passeio Público não era um símbolo em si ou evidente da autoridade portuguesa — como seria o campo onde se fincava o pelourinho, ou se erguia o paço, a câmara e cadeia ou o quartel — tampouco o vazio defronte ou em volta do edifício religioso — o largo da matriz, o adro franciscano ou beneditino, o terreiro jesuíta. O Passeio Público não se prestava para emoldurar nenhum monumento — ao contrário, como um insubordinado da hierarquia colonial, era um monumento à vegetação, à natureza, monumento a si mesmo.[... Os estudos contemplando o Passeio Público informam que sua execução
decorreu entre 1779 e 1783, por ordem do vice-rei D. Luís de Vasconcelos, que encarregou o artista Valentim da Fonseca e Silva (ca.1745-1813), o Mestre Valentim — importante escultor, arquiteto e, no caso, urbanista do Rio de Janeiro colonial — de traçar o inédito recinto ajardinado [Marianno Filho, 1943; Carvalho, 1988]. Sua localização certamente decorreu de uma estratégia de tratamento e aproveitamento de áreas alagadas e charnecas, buscando conquistar terreno firme, num sítio carente de horizontes de expansão, tão marcado por elevações e baixadas pantanosas como o do Rio de Janeiro. Alinhar o desenvolvimento da cidade em direção sul deve ter priorizado o esforço de aterrar a lagoa do Boqueirão da Ajuda, estabelecendo a comunicação para os lados dos futuros bairros de Flamengo e Botafogo, bem como de implantar signos de urbanização, mediante o alinhamento de novas ruas (a das Belas Noites — hoje das Marrecas, a do Passeio) e a criação do próprio Passeio Público.[...] O Passeio Público do Rio de Janeiro foi uma iniciativa posterior à sua congênere lisboeta, mas sua pronta execução — mesmo considerando as dificuldades apontadas pelo vice-rei em sua gestão — permitiu que inúmeros viajantes
apreciassem o recinto.(p.80-87)


            Informa o historiador que, embora apreciado por habitantes e visitado pelos estrangeiros, o Passeio Público decai após a saída de D. Luís de Vasconcellos, porque os vice-reis que o sucederam não cuidaram de sua manutenção, por isso, em 1808, com a chegada da família real, tal espaço público não mais existia.
            Informa ainda a pesquisa que

D. João manda organizar o Real Jardim Botânico em 1808 — ainda muito distante como local de visitação cotidiana (embora a viajante inglesa Maria Graham tenha apreciado bastante os passeios naquela direção) e, por um curto período, houve um jardim público no Campo de Santana, destruído em 1821. Em 1824, o frei carmelita Leandro do Sacramento (1779-1829) foi nomeado inspetor do Jardim Botânico e do Passeio Público e por alguns anos o espaço mereceu atenção. [...]Data dessa época (1828-29) o testemunho do reverendo norte-americano Robert Walsh, que também se encantou com o Passeio — como que revigorado ao estilo da descrição de Joaquim Manuel de Macedo nos tempos coloniais:

Todas as noites esse jardim fica repleto de famílias que sobem ao topo do outeiro para apreciar a brisa marinha que não passa mais pelo jardim [Walsh, 1985, p. 202].

A morte de frei Leandro deve ter feito o jardim cair novamente no marasmo. A algum de seus sucessores foi ordenado, em 1831, que “os bois, porcos, carneiros, cabras e cabritos que porventura entrassem no Passeio” fossem apreendidos para “o sustento dos presos pobres ou venda em leilão.” Nesse mesmo ano, a administração municipal reconhecia “o estado de total abandono em que se acha o Jardim, não tendo para o serviço mais que três pretos, por terem fugido os outros.” [Belchior, 1969, v. 1, p. 564]. (p.96-101)


            O livro também explora as obras paisagísticas de Glaziou:

Em dezembro de 1860, o governo assinava com o tabelião Francisco José Fialho (?-1885) um contrato de um ano para promover a reforma do Passeio Público, bem como conservá-lo por dez anos. Fialho era apenas um intermediário. O projeto de remodelação ficou a cargo do paisagista bretão Auguste François Marie Glaziou (1833-1906), que mais tarde se notabilizou também com as remodelações do Campo de Santana [ver próximo capítulo] e os jardins da Quinta da Boa Vista. Glaziou introduziu no Brasil um estilo jardinístico a que seus contemporâneos — Joaquim Manuel de Macedo e Moreira Azevedo — chamavam “jardim paisagista”. Macedo, que concluiu seu livro durante as obras do Passeio Público e antes de sua reabertura, descrevia:

A planta apresentada ao governo[...] representa um jardim no gênero inglês, hoje admitido em todo o mundo como o mais natural, o mais livre, e que produz mais agradáveis e completas ilusões.





               O Jardim Botânico do Rio de Janeiro é apresentado em capítulo extenso que assim é iniciado:
O Jardim Botânico do Rio de Janeiro nasceu sob a graça do príncipe regente D. João.[...] A origem desse recanto relaciona-se com o estabelecimento da fábrica de pólvora, criada em decreto de 13 de maio de 1808. Um mês após, no dia 13 de junho, novo decreto mandava preparar em suas proximidades “terreno necessário ao estabelecimento de um jardim de aclimação, destinado a introduzir no Brasil a cultura de especiarias das Índias Orientais”, passando a se denominar, em outubro, Real Horto [Rodrigues, 1894, p. III]. A chegada de vinte caixotes de plantas aclimatadas na Ilha de França* e daí subtraídas por oficiais portugueses, aportados no Rio de Janeiro em 1809 consiste na introdução das primeiras espécimes no jardim. Luís Gonçalves dos Santos, o Padre Perereca — cronista oficial do período —, registrou também os nomes de Real Quinta e jardim da Lagoa de Freitas [Santos, 1981, v. 1, p. 239].(p.139)

              Ainda sobre este espaço, conta-nos Segawa (1996) sobre sua triste decadência:






A sua abertura para visitantes se deu no reinado de D. Pedro I, com a permissão do seu diretor e acompanhados por praças do Corpo de Veteranos. As excursões descritas pela britânica Maria Graham datam desse primeiro momento. Na ausência de uma atividade científica consistente após a morte de frei Leandro do Sacramento, o recinto passou a ser mais uma área de recreação. Regulamento policial de 6 de setembro de 1838 facilitava “aos simples curiosos a vista do jardim e aos que aí apareciam para fins mais sérios, como o estudo e investigação dos vegetais aí existentes”, registrou Barbosa Rodrigues, lamentando que o jardim, em fins dos anos 1860, [...] foi aberto francamente ao público e houve mesmo a condescendência de colocarem-se aí muitas mesas de madeira, como nas estalagens de aldeia. [...]. Foram então facilitados os pic-nics ao ar livre e tornou-se um simples jardim de recreio...[e que] ...com a força de vegetação no clima do Rio de Janeiro o passeio tornou-se em pouco tempo um grande parque encantador, excitando a admiração dos visitantes. Infelizmente, como triste reverso da medalha, certas alamedas sombreadas, certos grupos lembravam, ao menos pela elegância e beleza grega, os bosques sagrados de Paphos e Amathonte, enquanto, nas moitas próximas do lago, ruidosos cânticos de culto do Baccho moderno recordavam os furores harmoniosos das Menades [Rodrigues, 1894, p. XVII]. (p.143)

            Pelas passagens, pouquíssimas que selecionei, tenham certeza que tive dois dias interessantes, tentando visualizar os detalhes paisagísticos dos jardins no Rio de Janeiro antigo, assim como também imaginei o que, a luz de nossa cidade, de dia ou à noite, influía nas sombras e penumbras das alamedas que cercavam estes espaços públicos.



Sugestões de leitura para um estudo do assunto[3]:

Projetos realizados por Glaziou

Exposition Universelle (1889) de Paris, comentário sobre a exposição francesa em site produzido pela FAU/UFRJ sobre exposições internacionais e, em especial, sobre a Exposição Internacional de 1922.
Fundação Parques e Jardins, site da organização municipal responsável para conservação do patrimônio natural urbano do Rio de Janeiro, com seção dedicada à Glaziou.
Passeio Público, site dedicado à historia do primeiro parque ajardinado do Brasil.
Paris Exposition of 1889, site da Prints and Photographs Division da Library of Congress sobre a exposição.

Artigos[4]

A reconstrução virtual do antigo Passeio Público de Mestre Valetim: metodologia de pesquisa, de Naylor Barbosa Vilas Boas.
Missão Cruls. "Carta de Auguste Glaziou a Luís Cruls, 1894"
A questão ambiental no Distrito Federal, SEBRAE/DF, 2007, p. 123-125.
Missão Cruls. Notícia sobre botânica aplicada pelo Dr. A. Glaziou, 1896 (texto em pdf) The realities and potentialities of Brasilia's landscapes: from the forgotten myths to the invention of the world heritage (pdf, 2.56 MB)
Glaziou e o Lago Paranoá, Sérgio Kempers de Moraes Abreu.
"O Parque da Praça da República", Noronha Santos. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n. 8, 1944, p. 102-163. (pdf, 1,99 MB)
"Os jardins da Chácara do Challet - uma análise da atuação de Glaziou em Nova Friburgo", Camila Dias Amaduro.
"O parque do barão de São Clemente e o jardim de Glaziou", de Cláudio Piragibe, p. 72-81. In: Anais II Encontro Luso-Brasileiro de Museus Casas, 2008 (pdf, 700 KB)
"Passeio Público", Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro para o ano de 1862. Rio de Janeiro, Eduardo & Henrique Laemmert, 1862, p. 313 e 314.
"Traços Biográficos", Noronha Santos, Noronha Santos. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n. 8, 1944, p. 164-172. (pdf, 261 KB)

Urbanização de Paris

Georges Eugène Haussmann, prefeito de Paris responsável por sua remodelação.
Jean-Charles Alphand, verbete do Wikipédia sobre engenheiro responsável pelas reformas de Paris no século XIX.
Eugène Belgrand, verbete do Wikipédia sobre engenheiro auxiliar pelas reformas de Paris no século XIX.
Jean-Pierre Barillet-Deschamps, Jardinier en chef du Service des Promenades et Plantations de la Ville de Paris por ocasião da reforma Haussmann.

Estudos botânicos

Auguste de Saint-Hilaire, verbete do Wikipédia sobre o botânico, naturalista e viajante francês, que percorreu o Brasil de 1816 a 1822, quando recolheu informações sobre o uso das plantas na medicina, na alimentação e na indústria.
Le Muséum National d'Histoire Naturelle, museu francês, criado em 1793, voltado para o estudo, a preservação de coleções, a formação de pesquisadores e a difusão da cultura científica, nas áreas da história natural, do mundo vegetal e mineral. Tem, dentre suas atribuições, a manutenção do jardim botânico Jardim das Plantas (Jardin de Plantes).


O Museu Casa de Rui Barbosa oferece on line uma visita virtual a seus jardins no portal da Fundação Casa de Rui Barbosa, vale a pena, gostei muito..




[1] Segawa, Hugo, 1956- ... Ao amor do público: jardins no Brasil São Paulo: Studio Nobel: FAPESP, 1996
[2] Obedecida grafia da época.
[3] Todas retiradas do site da Fundação Casa de Rui Barbosa.
[4] Descritos exatamente como no site da Fundação Casa de Rui Barbosa. Não obedece norma de citação ABNT.
Postar um comentário