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terça-feira, 3 de março de 2015

Cafés do Rio: primeiras casas de café na cidade do Rio de Janeiro



                                                                                                        Foto da revista  Fon Fon.                                                                       Em um café, do lado de fora, na mesa,  Medeiros de Albuquerque, Coelho Neto e Thomaz Lopes.


           Ainda pouco se sabe sobre os antigos cafés do Rio, mas comprei um livro ótimo, que provavelmente só é encontrado nos “sebos”[1], Antigos Cafés do Rio de Janeiro, do jornalista mineiro Danilo Gomes[2] (1989). Neste pequeno artigo, passo algumas informações que o pesquisador levantou nesse estudo e que achei interessante. A pesquisa foi feita utilizando por fonte diferentes publicações, de diversos autores, que retratam a cidade do Rio de Janeiro em épocas distintas. Assim, alguns cafés, aparecem em alguns livros que desaparecendo após a publicação, deixaram rastros que levaram Gomes à existência desses estabelecimentos.
            Conta o pesquisador que quase nada se sabe sobre estabelecimento deste tipo no período colonial, mas que, segundo o Almanak Histórico para o ano de 1792, de Antônio Duarte Nunes, existiam à época 32 casas de café[3] e 216 tabernas[4]. Em 1899, Von Leithold e Von Rango[5] citam que o primeiro flagrante de um café na cidade, foi descrito por dois alemães que visitaram a cidade em 1819. A descrição do estabelecimento é medonha:

[...] nos cafés uma porção de qualidade inferior custa 4vinténs.Consiste de cafeteira de amanho regular, servida com açúcar não refinado, leite que parece água e pão francês com manteiga rançosa, de procedência inglesa. Nesses cafés também se vendem limonada, não dos limões verdadeiros, mas da outra espécie. É uma bebida azeda como a laranjada, que logo azeda com o calor[...}devido às nuvens de moscas que se encontram nos cafés, nenhum estrangeiro pode nele demorar-se. Mais familiarizados com esses insetos os brasileiros suportam-lhe melhor o incômodo [..] (p.21)


            Eu imagino, leitor,  o estabelecimento, e o gosto do produto oferecido, mas, era um café, no início do século XIX, na cidade do Rio de Janeiro! Não nos informam, porém, nem os visitantes nem o autor, o nome deste café, sujo, parco e famoso.
            Vieira Fazenda (1874-1917)[6] noticia que havia uma casa de café em frente à Igreja de Nossa Senhora do Parto, na rua São José, e por ali se passava em direção ao cais Pharoux. Oliveira (1984) cita também os cafés Braguinha e do Estevam. O primeiro, tinha por slogan “a fama do café com leite” e estava instalado no Largo do Rocio (atual Praça Tiradentes). Como o largo, neste período era fronteira da cidade e sertão, não creio ter sido muito melhor do que o café retratado pelos visitantes prussianos! O segundo, que indica no nome seu dono, é citado pelo historiador como “centro de reunião da sociedade distinta”. Bom lembrar que, nessa altura, mulheres não saiam às ruas, exceto para ir à missa, e negros eram, ainda escravos, logo os pertencentes à “sociedade distinta” eram tão somente homens brancos. Talvez a reunião que o café proporcionava, devesse à sua boa localização: ficava de portas abertas na esquinas de Ouvidor e Ourives (atual Miguel Couto), centro do comércio local.
            Havia também, um café, ainda no século XIX, denominado Armada (comenta o autor que era luxuoso (só imagino!), em obra de Ernesto Senna (1858-1913)[7], que destaca, no período, mais de 362 estabelecimentos “onde se vendia café, bebidas e se explorava o jogo de bilhar, estabelecidos em várias ruas da  Pontado Caju ao Jardim Botânico”(P.140).
            Machado de Assis, também citado pelo autor, em crônica de 2 de março de 1873, sob o pseudônimo de Dr. Semana[8], refere-se ao “botequim francês”, o Caffé de Alsacie e Loraine. Fica esta casa de comércio na rua Uruguaiana, (antes Rua da Vala[9])
            Antes de começar a publicar, em outras postagens, detalhes desses, e outros, estabelecimentos que vendiam café, deixe-me fazer aqui distinção entre café e botequim (como depois se chamaram as velhas tavernas). O primeiro estabelecimento, mesmo servindo bebida alcoólica, vendia café ou café com leite e pão, o outro não.



[1] Os “sebos” são lojas de venda de livros usados. Diz-se que o vernáculo teria surgido por conta de serem os livros e o local de seu armazenamento e venda ensebados, isto é, sujos. Pelo que li parece que essas lojas teriam chegado ao Brasil por volta do século XIX, o que não se pode, efetivamente, precisar.
[2] A publicação é da Livraria Kosmos, do Rio de Janeiro.
[3] Chamavam-se casas de café e licores.
[4] OLIVEIRA, José Teixeira de Oliveira. História do Café no Brasil e no Mundo. Rio de Janeiro: Ed. Kosmos, 1984
[5] Em “O Rio de Janeiro visto por dois prussianos”, edição de 1966, em português. Citado por Oliveira (1984, cap.XXI, s/p.)
[6] José Vieira Fazenda, historiador, médico e político, escreveu “Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro” (1904), Os provedores da Santa Casa da Misericórdia da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro (1912) e  “Notas históricas sobre a Praça do Commércio” (1915).
[7] Escreveu O Velho Comércio do Rio de Janeiro, publicado pela Garnier, s/d.
[8] Esse pseudônimo foi usado pelo escritor ao assinar artigos do periódico Semana Ilustrada ( Rio, 1860-1876).
[9] "Rua da Vala", por ter uma vala, construída no século XVII pelos monges franciscanos para escoar o transbordamento da Lagoa de Santo Antônio (que se localizava no atual Largo da Carioca) até o mar, na abertura entre os morros da Conceição e de São Bento. O nome da rua mudou para "Rua Uruguaiana" em 1865, em comemoração à retomada da cidade homônima na Guerra do Paraguai O nome foi mudado em 1865, para homenagear a batalha de retomada da cidade homônima na Guerrra do Paraguai.
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