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domingo, 8 de março de 2015

Mulheres, Tempos e História






          Mulher é mulher porque se faz assim, não porque tem um útero, já dizia, na metade do século passado, Simone de Beauvoir. Não é apenas um aspecto diferenciado de nosso corpo, o que nos torna um gênero diferenciado, um ser humano diferente e de características próprias. Durante muito tempo a mulher, no Brasil, ficou escondida nos aposentos da casa transitando livremente do quarto para a cozinha. Ainda nos vemos a percorrer esse caminho quando ouvimos que “o lugar da mulher é pilotando um fogão”.         Temos entranhados em nós diferentes preconceitos que visavam, e ainda  visam, infelizmente, tornar a mulher subalterna, incapaz e dependente. Comenta Gilberto Freyre, em sua obra de juventude[1],ao expor o preconceito do homem brasileiro, que esse se fez tecido à cultura, tese que se tem mostrado, sem prevalência de um sobre o outro, verdadeira. A mulher foi, desde sempre, objeto desse preconceito de alteridade que, ainda se alia ao preconceito racial. Não nos esqueçamos que a mulher negra carrega os dois, em mundo que privilegia o branco, e tem que provar-se mulher, e negra, a cada dia.
            As mulheres, todas, têm a cada dia provar que “valem” (e o termo é proposital, porque torna objeto) tanto, ou mais, que os homens. Tanto é verdade, que a caminho do término da segunda década do século XXI, a imprensa mundial estampou sensacionalisticamente, o protesto de uma atriz ganhadora do Oscar sobre, ainda, a discriminação feminina contida nos salários diferenciados de homens e mulheres na mesma função.
            Não cabe discutir aqui a força física. Todas sabemos que habilidades se desenvolvem em qualquer um, homens e mulheres, que se esforçam para tal e, me parece, dela não precisamos para caçar ao redor feras, capturá-las e comê-las, pois que já não nos encontramos em tempos de que disso precisava o ser humano.
            Tenho pesquisado bastante sobre a emancipação da mulher em busca de seus direitos de igualdade. Caminhamos muito, é verdade, mas ainda não estamos onde queríamos no início dessa luta. Cresci ouvindo dizer que “feministas” eram mulheres mal amadas, mas vendo, e depois passando pela mesma situação, que a mulher separada ou desquitada (o divórcio é uma conquista recente) não tinha satisfeito o marido e estava “à caça” de homens. A “culpa” do fim do casamento,  se havia, era das mulheres! E não se espantem, há os que consideram o estupro – até parlamentares de nosso Congresso – culpa das mulheres, que os teriam provocado! Assim, desde sempre, as roupas femininas foram reguladas por homens – e a Igreja católica não tem mulheres em seus cargos – que, a partir delas, regulavam condutas.
            Não nos enganemos comemorando hoje o Dia Internacional da Mulher. Não é tempo, ainda de celebrar. Parece-me que hoje deveria ser, sim, um tempo de reflexão da luta feminina, ainda inconclusa. A imprensa, arauto de homens, não fala pela mulher. Só ela fala por si. Por isso, quem é mulher, saiba que cada uma de nós ainda tem o seu quinhão nessa luta onde nossa arma somos nós mesmas, com nossa inteligência, nossa força, nossa dignidade, nosso corpo e, principalmente nossa alteridade.



[1] Refiro-me às obras do autor  Sobrados e Mocambos e a Casa Grande e Senzala.
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