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domingo, 15 de dezembro de 2013

PATRIMÔNIO QUE O RIO TEM E NÃO CONHECE


Você sabe qual a capela mais antiga  do Rio de Janeiro? Não, não cite as capelas conhecidas. A mais antiga capela da cidade é a consagrada à Nossa Senhora da Cabeça.

Sabe-se que a história da capela está relacionada a Martim de Sá[1], governador da capitania do Rio de Janeiro por duas vezes no início do século XVII - a primeira entre 1602 e 1608, e novamente entre 1623 e 1632. De acordo com os historiadores que pesquisaram o tema a capela foi construída por ordem do próprio Martim de Sá, encarregado da recuperação do Engenho D´El Rey, onde  ficava a capela, no seu primeiro governo. Neste período, no entanto, o engenho já teria sido vendido, o que ocorreu em 1579. O que se acredita é que o proprietário do engenho tenha mandado erguê-la, dedicando-a a Nossa Senhora da Cabeça, em homenagem ao governador recém-nomeado, Martim de Sá, devoto daquela santa. Martim de Sá, que se casara em Cádiz com Dona Maria de Mendonça y Benevides, filha do governador daquela cidade, trouxe de lá duas imagens da santa espanhola, de quem se tornara fervoroso devoto.


A primeira imagem conhecida, desta capelinha no Rio de Janeiro, é de autoria do francês Charles Clarac, e foi pintada em 1816. No título o autor faz menção a laranjais e a um aloés em flor. A capela tinha ainda uma sineira defronte à varanda e um corpo posterior em meia água, ambos já demolidos.

Segundo a devoção, a aparição de Nossa Senhora da Cabeça ocorreu em 1227, na cidade de Andújar, alto vale do rio Guadalquivir, na região da Andaluzia, Espanha, a um pastor chamado João Rivas, em um monte denominado Cabeza. Ela é representada trazendo à mão uma cabeça, e a ela se dedicam inúmeros ex-votos de cabeças de cera.  O primeiro voto, segundo a tradição, foi ofertado por um condenado à morte por decapitação que, após solicitar a intercessão da santa, foi salvo no último minuto por um indulto real.

O Plano da Lagoa Rodrigo de Freitas [2]do Ten. Cel. Reis e Gama, de 1809/1811 é a primeira imagem que se tem da região: florestas e plantações de cana de açúcar que ocupavam as encostas acima das margens da lagoa, e os caminhos e edificações então existentes. O mapa mostra que a grande fazenda estava dividida em 3 sítios, 55 chácaras e 5 casas, indicando quem seriam seus ocupantes. Uma legenda assinala a posição da casa do Padre Manuel Gomes, cura da paróquia de Nossa Senhora da Cabeça. 

Interior da capela


Segundo pesquisa de Carlos Eduardo Barata, o registro fundiário identifica que, em 1827, a Chácara da Cabeça, sítio 56, era ocupada pelo vigário da Freguesia da Lagoa, Manuel Gomes Souto. Em 1830 o vigário renunciou ao curato, mas permaneceu residindo na chácara pelo menos até 1838, conforme o registro do pagamento de foros. Em 1848 os assentamentos passam a referir-se a Maurício Gomes da Silva e de Pedro Gomes de Alcântara, apontados como herdeiros do Padre Manuel Gomes Souto.

O registro dos foros pagos à Fazenda Nacional revela que, em 1850, a Chácara da Cabeça havia sido desmembrada em pelo menos três chácaras menores, numeradas como 7, 7 A e 7 B, sendo que a principal delas havia sido vendida a José Fernandes de Castro18. A partir daí iniciou-se um processo de sucessivas subdivisões das propriedades da região, que daria origem ao atual bairro do Jardim Botânico e seus logradouros.

Em 1877, segundo o registro fundiário, a chácara pertencia a Luis Pereira Ferreira Faro – filho e homônimo do proprietário original, nascido em 1856 e batizado na capela de Nossa Senhora da Cabeça em abril de 1857.  Luis Pereira Ferreira Faro estudou medicina na Universidade de Pisa, na Itália, retornando para estabelecer clínica no Rio de Janeiro. Casou-se com Isabel Tosta da Silva Nunes, razão pela qual a chácara da Cabeça também já foi designada como Chácara do Tosta 22. O primo de Luís, José Pereira de Faro, assumiu a administração das fazendas de café e, com elas, o título de terceiro Barão do Rio Bonito. A Chácara da Cabeça, incluindo a capelinha, era de propriedade de Custódio da Costa Braga e sua mulher em maio de 1902, quando foi adquirida pelo Ministério da Viação e Obras Públicas, com o objetivo de “conservação e pureza das águas” da represa do Rio Cabeça, captadas junto às encostas da Serra da Carioca [3]. Naquele ano, o manancial do Rio da Cabeça trazia em média 4,3 mil metros cúbicos diários de água para alimentar as redes de abastecimento público no bairro do Jardim Botânico, representando 2,5% do suprimento total da cidade. E aí? Você acertou?


Fonte: PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO. Secretaria Municipal de Urbanismo. Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. Coleção Estudos Cariocas. Capela de Nossa da Senhora da Cabeça: pequena joia do patrimônio cultural do Rio de Janeiro. Agosto de 2004.



[1] Martim de Sá (1575 – 1632) foi o primeiro carioca a governar a cidade onde nasceu e viria a falecer. Esteve envolvido em campanhas militares contra índios, holandeses e franceses no território dos futuros estados do Rio, São Paulo, Minas e Espírito Santo. Como governador do Rio construiu fortes e reduziu os índios carijós em torno dos padres jesuítas na aldeia de São Francisco Xavier (com o que começou a povoação do atual bairro da Tijuca). Por sua ordem foi iniciada a construção do aqueduto da Carioca, somente concluída no século seguinte. Foi também provedor da Santa Casa de Misericórdia. Seu filho, Salvador Corrêa de Sá e Benevides, também governou a cidade em três ocasiões ao longo do século XVII, como já o haviam feito outros membros do mesmo clã - Salvador Corrêa de Sá e antes dele Mem de Sá, no século anterior. Por mais de 300 anos essa família, cujos primogênitos viriam a receber o título de Viscondes de Asseca, manteria posição de força no governo da cidade e da capitania. Apesar de sua importância para a história da cidade e do país, Martim de Sá nunca foi homenageado com um único logradouro, escola pública ou outro equipamento urbano relevante no Rio de Janeiro (Instituto Pereira Passos, Diretoria de Informações Geográficas, agosto/2004,p.5).
[2] Plano da Lagoa de Rodrigo de Freitas. Elevado pelo Tenente Coronel Carlos José de Reis e Gama e pelo Capitam Jacques Auguste Coni e sendo desenhada pelo mesmo Ten. Coronel em janeiro de 1809. Nanquim e aquarela 98,2 x 69,5 cm. Cópias desenhadas e coloridas a mão em 1855 e 1870. Arquivos do Serviço Geográfico do Exército, Rio de Janeiro.
[3] Escritura de 12 de maio de 1902, registrada no Tabelião Evaristo. Ver Ministério de Viação e Obras Públicas, Relatório da Comissão de Patrimônio, vol II. Empreza Brasil Editora, Rio de Janeiro, 1922
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